OPINIÃO

O cara queria mudar o nome do ABC

Os malucos me perseguem, isso já contei aqui duzentas de vezes. O local preferido, eles já sabem, é a praia, onde todos os dias faço minha caminhada de Iemanjá ao Farol de Mãe Luiza e retorno.
Já cruzei com cada figura…
Já me narraram histórias de chifres. O sujeito narrou que lutou, fez várias viagens na Prefeitura, pagou, se endividou, no fim, alívio, ganhou seu quiosque para negociar na praia. Certo dia, cheio de canjibrina, pegou a mulher com outro. O que aconteceu? Ela o colocou para fora de casa, de casa não, do quiosque que ele pagou.
Outro me aborrece todos os dias falando de seus males – doença e empréstimos, dívidas contraídas. O gari, solta o vassourão, e vem me contar que não aguentou, caiu na tentação e voltou para a mulher que o tinha trocado por um colega.
– Vou fazer o que, gosto dela e fiquei com pena. Voltei – diz com a cara mais lavada do mundo.
E o assunto preferido, de muitos deles, era Marinho Chagas. Quando o galegão ainda era vivo quase todos os dias me faziam um relatório das atividades do ex-craque.
Sem falar nas cobranças como se eu fosse torcedor do América, do ABC, enfim, do time que perde.  O que foi que houve? Duzentas vezes essa indagação quando o alvinegro ou América perdem.
Sim, e tem também os gozadores. Pois tem um tipo de torcedor que, acho eu, não torce nem por ABC ou América, mas sim contra um ou outro, se é que me entendem.
A felicidade maior desse tipo é quando o rival perde.
E as táticas, e as culpas, de matar de rir. Tem um certo “Biro-Biro”, que está sempre cheio de canjibrina, que adora destratar Tite e, agora, também a Ranielle Ribeiro, treinador do ABC.
-Mexeu errado, jogador. Ranielle só mexe errado. Todas as vezes que ele faz trocas o time cai de produção. E diz com a maior propriedade, como se soubesse tudo de bola.
– Tite porra nenhuma, o treinador da seleção brasileira era para ser o Pep, isso mesmo, o Guardiola. Esse conhece e não receberia a pressão da CBF e dos clubes – diz.
Será que tem razão?
E tem aqueles das soluções mágicas, na verdade, estapafúrdias. Já me apareceu, certa vez, um torcedor do ABC dizendo que a solução para a crise (ano passado) era fazer um time pagando somente o salário mínimo. Quem quissesse jogar, bem, se não podia ir embora.
Outro, inimaginável,  queria que o América fosse treinado por um coronel do exército, pois só assim os jogadores, todos militares,  entravam na linha e a punição por derrota, corpo mole, rebaixamento, já sabe: cadeia
 O que me aconteceu na última semana, mesmo acostumado com maluquices sem tamanho como já narrei, foi além da conta e me pegou de jeito.
O cara, jeito manso, bem vestido, até pensei que fosse um integrante da galera dos surfistas das antigas, que estão sempre pegando onda na praia de Mãe Luiza.
Ele me chamou e foi me pedindo desculpas…
– Você é cronista esportivo, não é? – Sou, respondi.
– Me desculpe, me desculpe, mas você precisa ser o intermediário com a torcida e a diretoria do ABC – disse.
Pensei que ele fosse falar sobre contratações, novo treinador, reforços de maior qualidade técnica, a crise, o caos da diretoria que deixou o clube atolado em dívidas trabalhistas, mas não.
– Olha, cronista esportivo, você precisa falar para o povão que esse nome ABC não tem nada a ver com futebol, ele precisa ser mudado – sapecou.
Fiquei estupefato. Mudar o nome do clube com 100 anos de história, será que eu estava ouvindo direito?
– Olha, cronista, um clube com nome de cartilha , escola e futebol, nunca que vai ser levado a sério. Veja bem, muitas crianças se perdem no caminho das drogas por falta de orientação e muitos pais de família caíram em desgraça por conta do álcool…
Tô ficando maluco, o que danado esse cara tá querendo dizer com isso? O que tem uma coisa a ver com outra? E o tempo foi passando, eu me agoniando, suando…Precisei sinalizar que estava com pressa, me afastar, estirar a mão para apertar, para ele saber que estava me despedindo.Não tinha jeito, ele recomeçava.
-Cronista esportivo, faça isso, seja a voz da razão, leve para a sua rádio, a sua tevê essa mensagem. Não combina o nome ABC com futebol. A diretoria e torcida precisam entender que esse nome precisa ser mudado…
– Cronista esportivo, isso vai representar um bem para o clube e para a cidade, nosso Estado. Veja bem, quem vai levar um time a sério chamado ABC, cartilha de crianças…vai ser sempre como se fosse um time iniciante, sem história, sem qualidade.
Saí andando rápido, quase correndo, sem olhar para trás, não queria mais ver o cara.  Já pensaram um maluco desses conversando com um grupo de torcedores alvinegros radicais…levaria uma surra. Mudar o nome do ABC. Sei não, é cada um que aparece. Vai dizer isso ao torcedor que tatuou o escudo e o hino do clube em seu corpo…vai!
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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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