OPINIÃO

O cidadão de bem

Carlos Fialho escreve às segundas-feiras na agência Saiba Mais

Este é o indivíduo exemplar, um membro da sociedade que é avesso a toda e qualquer ilegalidade, imoralidade ou depravação. O cidadão de bem tem uma vida correta e por isso é adepto da prática da indignação, sobretudo contra a corrupção. Diante dos desvios morais e de recursos, grita: “Basta!” É então que ele revela sua face mais combativa. Devidamente uniformizado com a camisa da Seleção Brasileira de futebol, sai de casa com uma ideia na cabeça e uma panela na mão, demonstrando toda a sua revolta.

O cidadão de bem não tolera esse “estado de coisas” que converte uma sociedade ordeira em uma completa baderna, distanciando as pessoas dos valores cristãos, da boa conduta e do que se pode definir como “moral e bons costumes”. Aliás, o homem de bem não tolera muita coisa. Costuma reagir energicamente contra toda e qualquer opinião que não comungue com sua cartilha ou esteja em desacordo com suas opiniões a respeito de qualquer assunto. Com olhos de lince e sensibilidade apurada, consegue enxergar muito bem as más intenções ocultas em aparentemente desinteressadas afirmações, complôs disfarçados de simples posicionamentos individuais, conspirações internacionais por trás de certas postagens em redes sociais. É seu dever cívico denunciar, combater e expor pessoas que possam ser nocivas à sociedade com suas informações prejudiciais crescendo como ervas daninhas nos quintais floridos e jardins verdejantes do homem e da mulher de caráter, perturbando sua paz de espírito e provocando uma inquietação desnecessária a quem deseja um país melhor como um verdadeiro patriota.

E se tem uma coisa que o cidadão de bem deseja é a paz. Por isso, devemos matar todos os bandidos. Porque a maldade deles é o oposto do amor de Deus que deve permanecer sempre vivo em nossos corações. Por isso, o cidadão de bem é contra os direitos humanos. Ele também é contrário ao aborto porque é a favor da vida, ainda que alguns argumentem que nascimentos indesejados possam contribuir com a criminalidade futura. Papo furado, ele diz. O aborto é contra as leis de Deus e deve ser condenado a todo custo por aqueles que guardam Cristo no coração. Para este personagem dos trópicos, ser a favor da pena de morte e da vida a um só tempo não representa nenhuma contradição.

O desejo de morte, aliás, não se restringe apenas a assassinos, estupradores e responsáveis por crimes hediondos em geral. Os corruptos, segundo eles, também merecem a morte. Especialmente aqueles que comandaram o país por tantos anos e que tentaram transformar nossa pátria numa Venezuela. Sustentam que estes bandidos barbados desviaram nosso dinheiro para usar em “bolsa esmola” que é um programa que transforma pobre em vagabundo. Inclusive, o homem de bem é até flexível no que se refere a este maléfico programa social: pode até ficar a favor desde que se crie uma cláusula que obrigue os chefes de família a fazerem histerectomia ou vasectomia. Ou seja, é a favor da vida sim, mas também não é de qualquer vida, né? Senão vira bagunça.

E também não é a favor de qualquer morte não. Porque se tem uma coisa que o cidadão de bem é, essa coisa é “flexível”. A sentença de morte aos corruptos, por exemplo, é bom que se diga que não é a todos. Porque têm alguns que são acusados por esquerdistas e só por isso deveriam ser absolvidos. Porque se um comunista fala, ele só pode estar inventando, mentindo, armando alguma tramoia. Basta olhar pra cara deles e de quem eles acusam. Os acusados, em geral, são melhor vestidos, limpos, bonitos e bem nascidos. Nem precisar roubar, eles precisam porque até ricos eles já são. É lógico até.

Para não sofre a injusta acusação de que não passa de um elitista, o cidadão de bem estende sua indignação com o “bolsa esmola” para outros privilégios, como os auxílios concedidos a juízes e procuradores, por exemplo. Só que aí, não dá pra manifestar a contrariedade com a mesma ênfase e histeria porque o cidadão de bem conhece vários juristas, tem até um ou dois na família e estão nos mesmos grupos de WhatsApp, aí, sabe como é, né? Pode gerar constrangimento. Então, é só uma curtida de leve numa postagem de reportagem crítica, um comentário discreto numa matéria aleatória. Já com pobre, não tem problema porque ele não conhece nenhum pelo nome.

Outra coisa que revolta o homem de bem é a questão da homossexualidade. Vejam bem, ele não é preconceituoso, longe disso, tenho até amigos que são. Apenas, ele se opõe à ditadura viada socialista que quer obrigar todo mundo a achar que boiolagem é uma coisa normal, além de ter que respaldar o “mimimi” deles quando saem dizendo por aí que sofrem discriminação. Até porque todo mundo sabe que quem sofre preconceito hoje no Brasil é o homem hétero que não pode nem chamar ninguém de bicha que cai todo mundo em cima. E a injustiça não para por aí.

As próprias sapatonas que, na tentativa de tumultuar o ambiente e desgraçar a cabeça das meninas inocentes, inventaram essa história de feminismo querem mesmo é destruir as famílias e impedir a paz nos lares. Porque a mulher de verdade, a mulher de bem deve obediência ao marido, dedicação à família e devoção à manutenção da estabilidade do lar, tudo o que o feminismo não permite.

Vejam vocês que até de racista o homem de bem é chamado às vezes. Só por causa de um comentário à toa, uma piada inocente compartilhada e por aí vai. É praticamente uma perseguição isso. A verdade é que o cidadão de bem não é racista: é politicamente incorreto.

O cidadão de bem é consciente de tudo o que se passa ao seu redor e sofre crises de angústia com a falta de percepção da maioria da população. A alienação do homem comum é o maior problema do Brasil hoje. É preciso iluminar as mentes das pessoas para que todas elas se convertam em cidadãs de bem. Só assim, este país vai recuperar o brilho que outrora tivera. Ele sabe que a caminhada é longa, que a luta será árdua, quase uma cruzada. Talvez, desta vez, apenas camisas amarelas e panelas não sejam suficientes. O cidadão de bem vai à luta sim. Porque ele é DE bem!

Mas será que ele é DO bem?

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Carlos Fialho é escritor, publicitário, jornalista e escreve às segundas-feiras