DEMOCRACIA

O cisne negro e o risco do cheque em branco nas eleições presidenciais

Por André Luis Nogueira da Silva*

Os que se dispõem, mesmo que de forma mais introdutória, a estudar os fenômenos sociais já se deparam, ou ainda o vão, com a metáfora do cisne negro. A narrativa conta que os biólogos e estudiosos do mundo natural afirmavam que todos os cisnes do planeta eram brancos. Esta verdade findou quando no século XVIII fora encontrado uma espécie rara da ave que, embora resguardasse muitas das características fisiológicas do seu tipo mais frequente, possuía plumas negras.

Além da perspectiva da temporalidade das verdades científicas (isso mesmo, a ciência evolui!), o pesquisador social tirou outros ensinamentos do enredo. Um deles, o principal para esse texto, diz respeito a probabilidade de ocorrência de eventos raros, impossíveis de serem previstos e cujas consequências são incalculáveis.

O súbito crescimento eleitoral de Jair Bolsonaro nas duas semanas que antecederam o pleito de 2018 foi um fenômeno não previsto pelos analistas políticos (jornalistas especializados e cientistas políticos). Boa parte deles afirmava que com o início da campanha, sua capilaridade eleitoral definharia. A participação nos debates e o reduzido tempo de propaganda na TV (apenas 8 segundos), associados a suas ideias extremistas, afastariam paulatinamente o eleitorado, sobretudo, o eleitor médio.

Eis que surge um cisne negro, para lembrar que no mundo das ciências humanas a previsibilidade não possui guarida. Sob o formato de atentado, a espécie rara na democracia brasileira encadeou uma série de eventos que, como de costume na epistemologia sociológica, apenas podem ser identificados post factum.

O que se viu foi a estampa jornalística do ocorrido, que não só suplantou a pequena participação de Bolsonaro no horário eleitoral, mas também afastou a possibilidade de dispor seu plano de governo ao escrutínio público. Somou-se a isso a exacerbação do antipetismo, que encontrou lugar no discurso dos principais candidatos a liderança da república (Alckmin, Marina, Amoedo, Álvaro Dias e até o Ciro apostaram nessa narrativa), e a estagnação da candidatura de Geraldo Alckmin, que transferiu para o capitão reformado a pecha polarizante.

Estavam dadas as condições necessárias para operacionalização da sua estratégia eleitoral: “atacar, para não ter que se defender”.

Por meio da disseminação de fake news – em decisão recente TSE acaba de comprovar que a afirmação do “kit gay” é inverídica –, método similar ao utilizado por Donald Trump nas eleições norte-americanas, o candidato ataca seus adversários, impedindo que suas ideias de governo cheguem ao seu potencial eleitor. Há uma explícita intencionalidade por parte do candidato do PSL em não pôr em debate suas concepções. A premissa é clara: o debate sobre suas propostas não resultam em retorno eleitoral.

Isto explica, em partes, o motivo pelo qual um candidato da extrema direita vem liderando as intenções de voto do eleitorado brasileiro, refutando os pressupostos do economista Antony Downs sobre a prevalência de candidatos centristas em pleitos democráticos (teorema do eleitor mediano). Eu diria mais: a ausência do debate público não satisfaz sequer as premissas de uma democracia liberal – logicamente, não esperem uma preocupação do presidenciável quanto a tal requisito.

Apenas para ilustrar a importância do debate, no início da campanha o candidato Geraldo Alckmin declarou ser a favor de que, pelo menos, a pós-graduação nas universidades federais fossem pagas. Devido à má repercussão de sua proposta, logo mudou o discurso, afirmando que seria garantida a gratuidade dos cursos de mestrado e doutorado.

Não precisa falar que esse poder centrífugo do debate público ocorre apenas quando as propostas são explicitadas. E este ainda não é o maior problema!

O que parte do eleitorado ainda não percebeu é que a ausência de discussão pública das ideias de Bolsonaro não é apenas uma estratégia eleitoral, representa também um cheque em branco para o presidenciável. Se não promete o que vai ou não fazer, faz-se o quer! E, convenhamos, é um risco eleger alguém que já defendeu fechar o congresso nacional e fuzilar seus adversários políticos.

Neste cenário desalentador, só mais um cisne negro para alterar o nebuloso destino do país. Ou você acredita que haverá debate neste 2º turno?

*André Luis Nogueira da Silva é historiador, Bacharel em Gestão de Políticas Públicas e Doutorando em Administração Pública e Governo pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"