DEMOCRACIA

O coice do coronel Azevedo na democracia

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Eleito na esteira do fenômeno Bolsonaro em 2018, o coronel André de Azevedo (PSL) exerce o primeiro mandato como deputado estadual na Assembleia Legislativa. Sem conteúdo ou projetos, utiliza as bravatas e os ataques virulentos à partidos e lideranças de esquerda para se fazer notar.

Azevedo tenta transferir para o plenário da ALRN a polarização nacional entre a esquerda, especialmente petista, e os bolsonaristas. Até o momento, pelo menos, tem sido solenemente ignorado por deputados como Isolda Dantas e Francisco do PT.

O coronel não está inventando a roda. A estratégia vem sendo bastante difundida no país por outros parlamentares do PSL, partido nanico impulsionado pela popularidade do presidente da República ancorada no antipetismo amplificado pela operação Lava-jato e pela divulgação de fake news, a popular mentira.

Na sessão desta quinta-feira (28), no entanto, a obsessão de Azevedo pela esquerda levou o deputado a atacar a memória e a história do Brasil.

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Talvez o coronel não tenha se dado conta, mas o oxigênio do Parlamento é a democracia. É o debate, com seus consensos e divergências, que constrói as pontes que mantém de pé uma cidade, um Estado e um país.

No afã de trazer Bolsonaro para o palco do legislativo estadual, o coronel fez o que o chefe mandou: comemorou o golpe de 1964, leu uma carta divulgada pelo Ministério da Defesa que tenta reescrever o passado utilizando-se de mentiras e desinformação, e ainda fez pouco caso das mortes cometidas pelos militares durante a ditadura militar no país.

Apresentando um suposto estudo sem fontes de origem, Azevedo comparou números de mortes em Cuba (a obsessão dos bolsonaristas, ao lado da Venezuela) e em ditaduras de outros países da América Latina, a exemplo da Argentina, Chile, Paraguai e Bolívia.

Vaiado por servidores que acompanhavam a sessão, o deputado coronel chegou à inacreditável conclusão de que se matou pouco no Brasil durante o regime de exceção, se comparado a outras ditaduras.

Justificar o golpe de 1964, cujo efeito foi uma ditadura de 20 anos que produziu sequestros, mortes e tortura é uma afronta à Constituição e, sobretudo, ao povo.

As famílias de alguns dos mortos assassinados pelo Estado brasileiro sequer tiveram o direito de sepultar os corpos, até hoje ainda não encontrados.

Dos deputados que estavam no plenário, Sandro Pimentel (PSOL) foi o único que reagiu, classificando como “indignante” o discurso do parlamentar do PSL.

Na entrada da Assembleia Legislativa há uma placa em homenagem ao ex-professor, militante e comunista Luiz Ignácio Maranhão Filho.

Assassinado e torturado na Casa da Morte, no Rio de Janeiro, o potiguar teve o corpo incinerado, segundo depoimento do delegado Sérgio Guerra, um confesso torturador, à Comissão da Verdade.

Em respeito a Luiz Maranhão e a outras vítimas da ditadura, a ALRN tem o dever de cobrar do Parlamento respeito à história do país e à memória dos filhos deste Estado.

Até para mostrar ao Rio Grande do Norte que o coice do coronel Azevedo na democracia não é o prenúncio da chegada da cavalaria.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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