OPINIÃO

O Conto da Aia e a ilusão da política laica

Abaixo 1984 e o Big Brother. A distopia do momento se chama O Conto da Aia, da escritora canadense Margaret Atwood, transformada em série em 2017. Relato em primeira pessoa de uma mulher que se vê serva, depois de perseguida e separada da família, o romance é defendido pela autora como ficção especulativa, ou seja, uma realidade que a humanidade vive ou pode vir a viver, num cenário hipotético – diferenciada, portanto, da ficção científica, que se centra no que a humanidade ainda não pode alcançar.

Restrinjo-me à análise de capítulos da primeira temporada da série, que foi o que pude avaliar até agora. Não sem desconforto. O mundo relatado pela aia protagonista, Offred, é hostil a mulheres, divididas, pelo Estado, em esposas, Marthas e aias. Às primeiras é permitido o casamento e uma convivência relativamente livre em sociedade – mas trabalho, nem pensar. Às segundas está destinado o trabalho como empregadas domésticas, e às terceiras, a tarefa única de dar filhos às primeiras.

Essas mulheres são controladas por Gilead, uma ditadura teocrática. A narrativa não evidencia quem governa Gilead, quem idealiza as regras ou quem julga. Percebemos, pelos retalhos de memórias de Offred, que mesmo no mundo pré-ditadura as mulheres tinham a fecundidade limitada, por razões de saúde ou ambientais, e o controle das liberdades individuais femininas recrudesceu até o limite da perda do direito de ir e vir. O ponto em que a causa pró-fertilidade e a submissão feminina convergem é difuso.

A direção de arte e o figurino de O Conto da Aia trabalham no sentido de acentuar as gradações de liberdades. Aias vestem hábitos vermelhos e têm sua visão periférica limitada por chapéus com abas. Só andam em duplas, para evitar que se desviem do único trajeto diário que executam: até o supermercado. Marthas usam cinza. Esposas, azul. Os objetos de cena são sóbrios, com cores de uma paleta que abarca o branco, o cinza e o marrom. Nada de amarelos vibrantes.

A imersão nesse ambiente opressor e monocromático é quebrada pelas confissões entre as aias e pelas lembranças, azuladas. Nelas, descobrimos que a homossexualidade foi reprimida com pena de morte. A conversão de uma mulher livre a uma aia faz parte de um treinamento que se assemelha a cultos radicais e a palestras de autoajuda, em que vozes dissonantes são caladas com choques elétricos. A trilha sonora contribui: as pauladas são abafadas pela entrada de guitarras distorcidas. O clímax nunca chega, a repressão sempre piora.

O desconforto causado pelas sessões sucessivas de O Conto da Aia levam a uma indagação sobre que contexto teria provocado a criatividade da escritora Margaret Atwood. Sabe-se que o Puritanismo exerceu fascínio sobre ela (o traje das aias é sinal disso) e que o fundamentalismo a preocupava. Pode-se pensar no islamismo, mas as questões que a série propõe tangem mais vezes a política, e menos a religião.

Nesse propósito, O Conto da Aia é a hipérbole de um país em que o Estado perdeu para a religião e para o autoritarismo. Situação desenhada em filmes como Persépolis, sobre a teocracia iraniana, ou Timbuktu, em que a realidade do Islã na África é posta em evidência, o abismo em que se encontram as personagens de O Conto da Aia pode ser imaginado em um Brasil futuro, onde o número de candidatos que professam publicamente o protestantismo nas eleições de 2014 aumentou em cerca de 70%.

Não que a defesa de valores religiosos seja um problema. O veto a demandas de pautas laicas, como as da educação, sim, é. Reflexo disso é a ascensão, sem precedentes, de um candidato defensor de ideais misóginos, racistas e homofóbicas. Que defende o porte de armas e a tolerância zero com infratores. Que vai na contramão de todas as teorias de defesa de direitos civis. Aquele, que não ousamos dizer o nome, já pareceu um bobo da corte, mas é estandarte de valores que o Congresso pauta todos os dias, e que podem vir a ser a lei do futuro. O Conto da Aia que o diga.

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