OPINIÃO

O Coringa e a ambiguidade do riso

Está na boca do povo: nas conversas de rodas de café ou de whatsapp, nas resenhas e notícias curtidas e compartilhadas, o assunto da vez é o filme Joker, a nova versão para o vilão Coringa. Empolgada com a discussão geral, lá me fui ao cinema para também eu ter a minha opinião formada sobre, no caso, o filme.

Eu já curtia demais as interpretações de Joaquim Phoenix, principalmente por seus papeis como um niilista professor de filosofia no filme de Wood Allen (“O Homem Irracional”) ou como o cantor e compositor Johnny Cash no filme de James Mangold (“Johnny e June”), mas, desta vez, a performance do ator como o atormentado comediante que se torna um assassino (e futuro arqui-inimigo do Batmam) realmente me deu o que pensar.

Não vou comentar a respeito dos muitos temas para reflexão que o filme de Todd Philips pode sugerir (a sociedade de classes, a falta de empatia neste mundo doente de ódio, a loucura, o poder da mídia etc. e tal). Vou puxar como mote para este artigo um elemento vital no enredo – o riso e a sua ambiguidade.

A começar pelas muitas possibilidades de tipos, é impossível enquadrar o riso em geral em uma só ordem. De um lado, há risos mais “inocentes”, digamos assim, que exploram simplesmente a “desarmonia” ou o “descompasso” entre dois estados de coisas (normal versus anormal, típico versus incomum etc.). Pensemos, por exemplo, na anedota tola (já falei que não sei contar piada? perdoem, foi a primeira que me ocorreu…) que narra a conversa de dois coleguinhas de escola:

– Você sabe o que encontrei no pátio na hora do recreio? Um preservativo!
– E o que é pátio?

Há, em outro extremo, manifestações de um riso mais “perverso”, que zomba e rebaixa tipos sociais (profissões, raças, gêneros, classes etc.), cujos possíveis exemplos opto por não ilustrar (para deleite geral do público leitor). Há risos conservadores, há risos revolucionários, há risos que implicam a atitude de “rir de algo ou alguém” enquanto há aqueles em que o gesto é de “rir com algo ou alguém”. Do riso besteirol que explora o humor pastelão ao riso mais sutil que exige uma dose maior de raciocínio, do burlesco ao escarnecedor, o riso é ambíguo a começar pela natureza de sua motivação.

Como dizia, o riso é um elemento que atravessa toda a trama do filme. Este, aliás, já se inicia com uma cena vertiginosa em que os garotos que riem do palhaço trabalhando têm no riso um gesto abertamente sádico de agressão. Mas a discussão que quero suscitar aqui tem a ver com o par doença versus saúde.

No livro Hobbes e a teoria clássica do riso, o autor Quentin Skinner aborda, dentre outros elementos, alguns dos renascentistas que exploraram a relação entre medicina e riso. Ou seja, muito antes do riso ser pensado como uma terapia (já que falamos de filmes, pensemos, a propósito, em Patch Adams, até por conta do paradoxo entre a carreira de seu protagonista, o ator Robin Willians, consagrado por filmes-comédia, e a sua triste morte). De modo geral, frisam a reação prazerosa (e supostamente saudável para “os humores” do corpo) diante de uma quebra de expectativas que o riso gera (a relação entre admiratio e delectatio). Um desses renascentistas, porém, vai um pouco mais além: Laurent Joubert. Além de relacionar, como os humanistas em geral, o riso e as lágrimas a mais que elementos meramente corporais, mas também a “reações da alma”, Joubert retoma uma concepção clássica do risível como aquilo que é ridículo (ridere et deridere), ou seja, ri-se do que se considera “feio”, “deformado”, “desonesto”, “indecente”, “malicioso”). Retomando essa concepção, incide na conclusão de que o riso advindo da antipatia e desdém com o que se considera “baixo” e “feio” implica uma “alegria que nunca pode ser pura”. Em outras palavras: “o riso nunca pode estar completamente desconectado da tristeza”.

Essa complexidade se ilustraria, assim, por meio da condição ambígua do Coringa (como a própria carta do baralho que o nomeia), um sujeito triste que se esforça, por meio do riso, por fazer os outros contentes. Nesse personagem, o riso não é pista de alegria e sim sintoma de um transtorno mental.

Se, como afirmou Aristóteles, o riso é uma condição do animal humano, podemos, a partir desse filme, nos indagar, então, com qual tipo de riso pretendemos nos mostrar em nossa condição humana. Ou desumana.

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