OPINIÃO

O crime compensa

É muito duro fazer esta afirmação. Mas o crime, aqui no Brasil, compensa. Compensa mais ainda se o sujeito que o cometer, tiver uma boa escolaridade, se tiver pele clara, se tiver condições de pagar advogados. Não precisa sequer de bons advogados, mas um advogado que conheça o ferrugem que corrói o aparelho de Segurança Pública brasileiro e a morosidade da Justiça. O crime compensa porque o Estado brasileiro não pune com equidade. Você já foi em uma prisão? Pobres, negros e analfabetos sendo pisados, oprimidos e sujeitos a todo tipo de tortura. Muitos sequer foram julgados. Ou seja, foram presos por serem suspeitos.

O Brasil é um dos países onde menos se elucidam crimes. As américas acumulam quase 35% dos crimes violentos cometidos em todo o mundo. No ano de 2017, o Brasil registrou 60 mil homicídios; ou seja, quase dois homicídios por minuto. O Brasil também sustenta o título de ser o sétimo país mais violento da América Latina. E não percebemos um enfrentamento a esta realidade. Para complementar este cenário trágico, os crimes não são elucidados.

Em todo o território nacional, não existem padrões de controle sobre a elucidação dos casos. Poucos estados são capazes de quantificar os crimes elucidados e, a partir disso, encontrar soluções para melhorias nas investigações. Segundo pesquisas, a média de elucidação dos crimes violentos no Brasil é de aproximadamente 8%. Na França, 80%, na Inglaterra 90% e nos Estados Unidos, algo em torno de 65%.

Uma das causas para a baixa eficácia na elucidação dos crimes no Brasil é a baixíssima ênfase dada pelos gestores públicos às investigações, focando suas políticas na ampliação do policiamento ostensivo. No Brasil o trabalho da perícia criminal é praticamente inexistente. Os institutos técnicos de polícia são sucateados, poucos funcionários, pouco equipamento e que não acompanham os avanços da medicina legal, computação forense, da perícia criminal.

Muito recentemente, o telejornal Fantástico, da Rede Globo, entrevistou a secretária de Segurança Pública do Rio Grande do Norte sobre o número elevado de homicídios no Rio Grande do Norte. Sua explicação girou em torno da ideia de que temos um corpo de policiais militares reduzidos e envelhecidos e, por este motivo, o número de homicídios permanece em crescimento. O Brasil possui cerca de um policial para cada 471 habitantes e um policial civil para cada 1.700 habitantes.

A polícia ostensiva é aquela que mais prende, que mais mata e que nada investiga. É também aquela autorizada pela sociedade a fazer o trabalho sujo que a sociedade não se dispõe. Desta forma, temos uma legião de policiais exaustos, doentes e entregues ao Sistema. Não se punem crimes no Brasil. O que se tem feito é cobrir este trágico cenário com um véu para que passe despercebido. Não precisamos de mais policiais, mais prisões e mais Leis. Precisamos de melhores policiais, de melhores prisões e de melhores juízes. Enquanto isso, o crime compensa.

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Francisco Augusto
Francisco Augusto Cruz de Araújo é cientista social, professor universitário e especialista em Segurança Pública e Violência Urbana. Escreve aos sábados.

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