OPINIÃO

O darwnismo macabro na “nova sociedade” da pandemia

Parece que identificamos, afinal, qual é o problema maior que enfrentamos nesses tempos difíceis. O coronavírus não é nosso maior problema e sim as restrições. Sim! Vocês leram direito. Estou dizendo que essa mania de prefeitos e governadores tentarem obstruir nossa liberdade de contaminar os outros e, em casos graves, nossa liberdade de morrer sem ar, é que tem provocado graves problemas. Esses malditos gestores insistem em querer salva vidas. Tolos!

De acordo com essa a lógica dessas pessoas, a economia está destruída por causa de prefeitos e governadores, e não por culpa do governo federal. Ora, mas em 23 de março do ano passado o governo federal não “deu” R$ 1,274 trilhão ao sistema financeiro, representando 16,7% do PIB, para manter a disponibilidade de dinheiro para que as instituições financeiras possam fazer normalmente suas operações com os clientes (empresas e pessoas físicas)? Passados mais de um ano, os bancos só converteram R$ 427,1 bilhões em empréstimos ou somente 33,5%, ou em bom português, de cada R$ 100 que os bancos receberam, R$ 66 ficaram nos seus cofres e engordaram seus lucros.

Portanto o micro, pequeno e médio empresariado, que na maioria dos casos se alinha com o discurso da Morte, culpando as restrições e não a incompetência escandalosa do governo federal em fazer chegar ao seu estabelecimento esse “crédito do desespero”, é uma das maiores vítimas de inércia da equipe de Paulo Guedes, que assume descaradamente que é melhor ver mais cruzes nos cemitérios do que pobres comendo e sendo minimamente felizes, em nome de uma rigidez de política econômica que beira a insanidade.

Essa insanidade chega em todos os setores da sociedade. As guerras de liminares querendo a volta do ensino presencial, em meio às mortes, chega a ser escabrosa, pois as preocupações em abrir as escolas, nesse momento, parecem se remeter a algum mundo distópico, onde a Morte governa, pois os que pressionam pelo retorno às aulas o fazem “exigindo” que se cumpram as “medidas sanitárias adequadas”, o que, no caso brasileiro, é uma piada sombria, digna de um Kassio Nunes que quer templos e igrejas abertos, desde que se mantenha a lotação de 25%, o que é uma aberração ou uma completa canalhice, dado que pastores “mercadores das almas” e padres fundamentalistas acham que ajuntar centenas de pessoas nos tais templos, umas fungando nos cangotes das outras, não tem problema pois a “graça do Senhor” impede a disseminação do vírus. O príncipe Próspero deve rir desses apóstatas enganadores.

Há tanta obscenidade sombria no nosso cotidiano, que os mais de 4 mil e 600 mortos, apenas no RN, estão sendo secundarizados, atropelados pelos desesperados em retomar seus lucros ou pressionados por “grupos de interesse”, que, usando argumentações patéticas, mas bem escritas, formam um acochambrado elegante e destituído de razoabilidade, que encontra eco nos tecidos sociais, especialmente naqueles formados pelos “cidadãos de bem”.

Seria pertinente que aqueles desejosos de verem as salas de aula cheias de alunos, fizessem uma pequena investigação, pode ser simplória inclusive. Descobririam, por exemplo, que funcionários das escolas nem sempre dispõem de veículos próprios para chegarem até ela, tendo que usar o ignominioso transporte público, não tendo esses trabalhadores, acesso a nenhum equipamento de teletransporte, ou seja, correrão riscos desde o momento em que colocarem os pés fora da soleira da porta.

Poderiam também descobrir que boa parte de professores e funcionários não são eremitas e podem ter uma coisa chamada “família”, algo que só parece existir para os que pressionam os governos para abrir as escolas. Como parece haver a forte probabilidade que os trabalhadores dessas escolas retornarão aos seus ambientes familiares, é provável que possam contaminar seus entes queridos, com resultados bastante conhecidos.

A pandemia, está nos ensinando, a fórceps, o quanto a sociedade, diante de um radical desequilíbrio da “normalidade caótica”, pode tornar-se espaço de um grotesco darwinismo social expresso em “primeiro os meus” ou, o que é pior, o florescimento de um “enjeitamento social” em que o que acontece com o outro só lhe importa se trouxer algum tipo de impacto na sua vida.

Hoje, com uma média móvel beirando em mais de 2 mil e 600 mortes diárias e com o quase colapso da Saúde, aquela que teve um corte criminoso. Em 2020 os recursos da Saúde somavam R$ 160,9 bilhões e no Orçamento de 2021, recuaram para R$ 125,8 bilhões, um recuo de R$ 35,1 bilhões, bem que os defensores do retorno à uma “normalidade” que não existe, poderiam defender um governo atuante e comprometido com a vida, para que voltemos, sabe-se lá quando, a um mundo que teremos de reconstruir.

 

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