OPINIÃO

O dia da pós-verdade

Nos tempos da escola, o dia primeiro de abril revelava dois tipos de estudantes: os que preparavam trotes mirabolantes para celebrar o dia da mentira e os que se preparavam tenazmente para não ser ludibriados. Aos poucos, aprendemos nas aulas de história que, nesse mesmo dia da mentira, os militares tomaram o poder para frear uma conspiração comunista imaginária, uma audaciosa mentira criada pela política e reverberada pela imprensa da época com fins exclusivos de desestabilizar um governo democraticamente eleito e disposto a promover mudanças estruturais no país, como a reforma agrária e a alfabetização rural.

A ditadura do primeiro de abril só terminou 21 anos depois com pelo menos dois golpes na democracia: uma lei da anistia que sepultou os crimes cometidos pelo Estado e uma eleição indireta. Mais uma vez, a imprensa brasileira fez questão de contar a história oficial em vigor (ainda que depois tenha pedido desculpas editoriais).

Nesta segunda-feira, as coisas ficaram mais complicadas.

Talvez pela primeira vez, 55 anos depois e com a chancela do mandatário nacional, as viúvas da ditadura saíram às ruas de cara limpa para comemorar a “Revolução de 64”. Até o Palácio do Planalto antecipou a celebração do primeiro de abril com um vídeo apócrifo que celebrava e dava graças à deus que os militares haviam tirado o Brasil da “escuridão” naquele 1964.

O domingo foi marcado ainda pelo meticuloso trabalho de releitura da história dos apoiadores da ditadura nas redes sociais. Baseados em manchetes de jornais da época, conseguiram “comprovar” que não foi Golpe. Foi “revolução”! O mais curioso é que, essa mesma turma não confia nas manchetes nos jornais de hoje em dia. Para eles, é tudo fake news. Para eles, só valem os tuites do presidente – os mesmos que são impulsionados por robôs, como mostrou levantamento do Jornal O Globo.

Quando as fake news viram rotina, todo dia é dia da mentira.

 

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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