OPINIÃO

O dia em que o menino Henry parou de chorar

Tenho um filho pequeno que faz aniversário no dia 10 de abril. Este ano, ele completa 6 anos de idade. Recordo que, horas antes de ter de viajar a trabalho para assumir um plantão policial, eu o visitei na casa da mãe dele, e o pouco tempo que ele tinha na ocasião comigo, ele não queria presentes e nem que eu o levasse para passear de carro, ou comer guloseimas e sorvetes. Ele me chamou para jogar pebolim (em algumas regiões chamado também de “totó”), aquele tradicional jogo de mesa, com bonecos operados por varetas num tabuleiro de madeira, com uma bola, com as cores de um time, simulando um campo de futebol. Na era dos computadores, internet e jogos eletrônicos, meu garoto preferiu chamar o pai para brincar num dos jogos da minha infância. Imaginei-me vendo a mim mesmo, brincando naquela idade, junto com meu pai, homem ocupado na época dele, também obrigado muitas vezes a viajar (no caso, de navio) a trabalho, mas que reservava um tempinho para brincar com o filho. Imaginei todos os pais, muito antes de um mês de agosto, celebrado universalmente como o dia deles, exercendo seu prodigioso papel de pai, que envolve muito amor, mas também responsabilidade e muita, mas muita paciência. Imaginei, também, o pai do menino Henry Borel.

O engenheiro Leniel Borel, imerso na tragédia, tornou-se mais um pai que, certamente, já está lamentando muito o fato de não ter podido aproveitar mais horas com o filho, também uma criança como o meu filho, e que, brutalmente (agora se sabe, pois todas as provas indicam), foi assassinado pelo padrasto, o namorado da mãe de Henry, o vereador Doutor Jairinho, do partido SOLIDARIEDADE, da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Preso temporariamente esta semana, Jairinho foi levado à prisão juntamente com Monique Medeiros, ex-mulher de Leniel e mãe de Henry, acusada de ser coautora no crime, e, no mínimo, conivente com os maus tratos, agressões e torturas praticados contra o menino Henry, que só tinha 4 anos. Ambos foram indiciados em inquérito por homicídio duplamente qualificado, com emprego de tortura a uma criança e o fundamento de sua prisão deu-se pelo argumento de que estavam atrapalhando as investigações, tentando eliminar provas e coagindo testemunhas, como, por exemplo, a mudança de depoimento da babá da criança, levada a ser investigada por falso testemunho, face a diversidade de versões sobre as agressões praticadas pelo padrasto ao menino. Para se ter uma ideia, no momento em que foram abordados por policiais, os acusados arremessaram seus telefones pela janela, recuperados e apreendidos pela Polícia do Rio de Janeiro.

Valendo-se de sua influência como vereador, Doutor Jairinho quis apressar a retirada do corpo de Henry do Instituto Médico Legal, a fim de que não fossem realizados mais exames periciais e tentou mudar a delegacia onde estava sendo investigado o fato. Revelações recentes divulgadas pela polícia, que resultaram na prisão do casal, são estarrecedoras, e revelam que Monique, por sua vez, já sabia há tempos das agressões do companheiro a seu filho, por denúncias feitas pela babá do garoto, em mensagens recuperadas pela polícia, onde relatava que o menino reclamava frequentemente de dores na pernas e na cabeça, todas as vezes após se encontrar no quarto com o padrasto. Quando ingressou no hospital, no dia 8 de março deste ano, levado pelo casal agora acusado, Henry já não respirava, e ao morrer, verificou-se em sua necrópsia que o menino apresentava diversas lesões, resultantes de agressão por meio contundente, como equimoses, lacerações no fígado e hemorragia interna. Tudo leva a crer que o garoto foi submetido a uma sessão de torturas pelo seu padrasto, com o conhecimento da mãe. Pergunta-se, então, na rotina hoje tão comum no Brasil, de jovens casais separados com filhos, que encontram novos relacionamentos: como admitir um pai ou uma mãe, que arruma um novo namorado ou namorada, que sua nova companhia seja tão agressiva com seu próprio filho, a ponto de matá-lo? Como não se colocar no lugar do pai de Henry, eu, que também sou pai de uma criança quase da mesma idade, que, ao tomar conhecimento de um fato delituoso tão terrível, não consegue conjugar outros sentimentos quais não sejam os de revolta e muita, mas muita tristeza?

Temos que nos deparar de um ano pra cá com a tristeza de uma pandemia, que, lamentavelmente no Brasil, já matou mais de 300 mil brasileiros, muitos deles nossos conhecidos ou entes queridos, mas, ciclicamente, na crônica criminal, há tempos nos deparamos, também, com a tristeza de casos rumorosos, de crimes hediondos que ingressarão, para sempre, no imaginário popular, através do seu registro histórico e da extensa literatura que geram, por terem repercutido tanto. O caso, envolvendo o menino Henry, tem profundas semelhanças com outro, que também abalou o Brasil, há mais de dez anos. Em 2008 (coincidentemente, também um mês de março), morreu, após ser arremessada da janela de um apartamento, no edifício London, em São Paulo, a menina Isabella Nardoni, então com 5 anos de idade. Os acusados do crime foram seu próprio pai e a madrasta, condenados na Justiça brasileira há mais de vinte anos de prisão. O caso, envolvendo Alexandre Nardoni e sua mulher, Anna Jatobá, poderia se equivaler ao de Jairo Souza Santos Júnior e Monique Medeiros. Ambos eram de classe média, viviam num grande centro urbano no sudeste do país (os Nardoni, em São Paulo, Jairinho e Monique, no Rio de Janeiro), e, da dupla de agressores homicidas, um exercia a função de madrasta ou padrasto, e fora quem perpetrou as agressões iniciais e mais profundas. Há, entretanto, um destaque especial, uma peculiaridade que pode ser vista no caso recente, envolvendo o menino Henry, uma vez que aquele que é acusado de ser seu principal assassino, é também um político profissional, o vereador eleito mais bem votado pelo seu partido na capital fluminense (na época o PSC-Partido Social Cristão), e o herdeiro de um legado político-miliciano que há décadas é estudado por cientistas políticos, antropólogos e criminólogos do Brasil e do mundo.

Diferente de Alexandre Nardoni, que tinha uma representatividade social muito mais modesta, à sombra do protagonismo do pai, advogado bem sucedido, Jairinho, formado em medicina, mas que nunca exerceu a profissão, é filho de um ex-deputado estadual, Coronel Jairo (como o nome diz, oficial reformado da Polícia Militar, e que sempre arregimentou votos no segmento policial). Eleito com o título de um médico de araque, o parlamentar está no quinto mandato consecutivo na Câmara Municipal, fez sua base eleitoral na região de Bangu, e, acostumado com o poder, chegou a fazer parte da base de apoio do então prefeito Marcelo Crivella, e, claro, auxiliou no projeto político e na eleição do presidente Bolsonaro, bem como na ascensão de seus filhos, em particular no pedido de votos ao senador Flávio e a atuação conjunta na Câmara, com seu colega de Legislativo municipal, o vereador Carlos Bolsonaro. O pai de Jairinho, investigado pelo Ministério Público Federal por desvios na ALERJ, nos tempos de deputado, tem forte apoio das milícias e, certamente, legou ao filho seu capital político. O acusado de ser o assassino do menino Henry Borel, é, portanto, um homem acostumado a utilizar do poder, tendo passado pela presidência de várias comissões no parlamento local, e tendo forte ligação com outros políticos. Sua atual companheira, mãe de Henry, tinha sido presenteada com a nomeação em um cargo comissionado na Assembleia Legislativa, e, pelas investigações policiais, tudo indica que o conforto material e a prosperidade econômica, trazidos pelo relacionamento com um vereador experiente, tivessem levado Monique a deixar seu próprio filho ser agredido e morto por um monstro psicopata.

Segundo o UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância), apesar de ter alcançado avanços na redução da mortalidade infantil por doenças, nas últimas décadas, o Brasil ainda registra números terrivelmente elevados de homicídios de crianças e adolescentes. Para se ter uma ideia, entre 1996 a 2017, 191 mil crianças e adolescentes foram vítimas de violência homicida no Brasil. Isso significa dizer que, assim como Henry, muitas crianças, mais jovens ou com mais idade que meu filho, não chegarão à idade adulta, pois suas vidas foram ceifadas precocemente por adultos, que as deviam proteger. A violência criminosa que sofrem esses meninos e meninas é subproduto de outra violência: a simbólica. E essa forma de violência mais sutil, associada a contornos macabros associados a um caso concreto, envolvendo um algoz, com traços de personalidade bem característicos de uma psicopatia, parecem ser alguns indicadores explicativos, à luz das ciências humanas, ao que aconteceu ao pobre menino Henry Borel.

Segundo o filósofo francês, Pierre Bourdieu, autor de diversas obras clássicas no século XX, dentre elas, “O poder simbólico”, ele dizia em suas aulas na universidade, que os indivíduos, organizados socialmente em interações sociais definidas como “campos”, possuíam uma série de atributos (capital), que dependia da função que cada um exercia num aspecto diferenciado de cada campo. Assim, no campo financeiro possuíam algumas pessoas um maior capital econômico, decorrente da renda ou da quantidade de riquezas que possuía. No campo social, os indivíduos tinham seu capital correspondente, relacionado às suas redes de amizade e convívio, bem como no campo cultural o capital de cada um decorreria de sua qualidade educacional, da formação intelectual, da quantidade de diplomas, livros lidos e produções teóricas que tivesse. Por fim, como numa reunião ou acúmulo dos capitais, citados anteriormente, adquiridos ao longo de uma vida, o capital simbólico se constituiria na reunião de atributos relacionados à honra, prestígio e reconhecimento social de uma pessoa. Neste último tipo ou modalidade de capital é que as diferenças de poder poderiam ser mais notadas e evidenciadas, pois é por meio do capital simbólico que indivíduos tentam influenciar outros indivíduos e instituições.

A violência simbólica, por conseguinte, é uma resultante da inadequação de um determinado capital a um determinado campo, pela falta de equivalência do atributo que eu ou outra pessoa diz ter ou quer exercer, diante do reconhecimento que lhe é dado ou não por um segmento, setor (ou campo) da sociedade. Na busca irrefletida de prestígio, status social e reconhecimento, diante dessa violência, alguns homens ou mulheres acabaram por perverter seus “habitus”, outro conceito utilizado pelo célebre professor do Collège de France, que significa uma série de disposições incorporadas, tendências que se desenvolvem tanto no âmbito de classes sociais, nações, etnias, como religiões e profissões, e que produzem comportamentos distintos, práticas (modos de ser, pensar e agir) adequadas ao capital que cada um detém ou busca.No caso de Monique Medeiros, suas práticas de mãe, socialmente cultivadas com a maternidade e a criação do pequeno Henry, parecem ter sucumbido ao habitus da mulher de político, que, para fugir da violência simbolizada pelo desemprego, desamparo ou falta de melhor condição social, topou um relacionamento amoroso com um homem de prestígio, mas altamente perturbado, sob o pretexto de poder pagar um colégio caro para o filho.

Traduzindo do sociologuês, para o leitor e a leitora, no caso dos acusados do assassinato do garoto Henry, parece ser evidente que tipos como o vereador Doutor Jairinho, por mais de uma década ostentaram a combinação perfeita do exercício do poder, conforme o emprego de um capital econômico e social, bem como de um capital simbólico, a fim de controlar pessoas e instituições para satisfazer seus próprios interesses, patologicamente narcisistas. Jairinho reunia o voto poderoso dos apoiadores das milícias no Rio de Janeiro, numa aliança que envolve o poder hipnotizante do dinheiro e o poder intimidatório das armas. Acusado por outras ex-namoradas de agressão, o parlamentar que agora caiu em desgraça entre seus pares, ameaçado de cassação do mandato, sempre conseguiu escapar, anteriormente, valendo-se do prestígio eleitoral, do poder do dinheiro em silenciar testemunhas, bem como da ameaça propriamente dita, a fim de intimidar quem quisesse acusá-lo. Soma-se a isso sua capacidade de se relacionar com diversas instituições, nomeando aliados e parentes para cargos, como fez com a mãe de Henry, ela mesmo nomeada em uma função pública com boa remuneração, e, tudo indica pelas investigações realizadas, seduzida pelo fascínio do poder nas mãos de um novo e influente namorado. Ao sofrer de uma vitimização simbolizada pela frustração da ascensão social tardia, e diante das dificuldades econômicas de um primeiro relacionamento, donde resultou um filho, parece ter restado a jovem e bonita Monique, a possibilidade de subir na vida, através da relação com o companheiro vereador, mesmo que com o sacrifício da segurança e mesmo da vida do próprio filho. Não podia se esperar, entretanto, que face à personalidade sociopática, de alguém disposto a agredir e eliminar qualquer um que lhe incomodasse, ao entrar em seu caminho, uma série de trocas simbólicas entre um casal levaria ao assassinato de uma criança.

Fico imaginando o choro e o soluço contido do menino Henry, após ser surrado dentro de um quarto por seu padrasto, sem ter como se defender ou quem o defendesse. Fico a imaginar, outrossim, o choro de uma criança agredida, que, em sua tenra idade, não consegue compreender sequer porque está sendo agredida. Imagino milhares como ele, aqui mesmo no Brasil, em situação semelhante, e não tenho como não me recordar da imagem pueril de meu filho, uma criança contente, que quer apenas um minutinho que seja da companhia do pai para jogar pebolim, e que, provavelmente choraria, como se fosse agredido, se lhe fosse negado ao menos isso. Somente assim eu consigo digerir o silêncio que restou, quando em um hospital na Barra da Tijuca, um menino cruelmente torturado, finalmente parou de chorar, após passar por tanto sofrimento. Que o choro de um pai, que tomou o lugar do choro de um filho, transforme-se de pranto em sede de justiça, e que essa sede seja plenamente saciada com a condenação dos culpados.

 

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