OPINIÃO

O dia em que o saci encarou o Halloween

Ao longo de toda a primeira metade do século vinte, no Brasil houve um grande aumento dos estudos sobre mitologia, literatura, música e demais expressões culturais autenticamente nacionais. A inspiração estava na Alemanha, que se erguera como Estado nacional com a ajuda da literatura nacionalista. Por isso há autores brasileiros que citavam os estudos de Gottfried von Herder (1744-1803), filósofo alemão que apreciava as análises acerca do nacionalismo raiz – desde a formação étnica e cultural da população nativa – ao perscrutar desde a origem da linguagem, aos estudos sobre a cultura do seu povo (folk lore).

Essa literatura nacionalista fez muito sucesso entre os culturalistas, os pesquisadores pioneiros sobre o fenômeno antropológico da “cultura”. Aqui no Brasil os culturalistas mais famosos da primeira metade do século vinte foram dois nordestinos: o etnólogo maranhense Nina Rodrigues (1862-1906) e o folclorista potiguar Câmara Cascudo (1898-1986). Ambos analisaram diferentes aspectos da cultura nativa brasileira – mestiça entre indígena, europeia e africana – tanto através do contato direto com as pessoas, mas também através dos livros.

Mas houve um escritor que uniu as mitologias nativas à construção do nacionalismo brasileiro: o paulista José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948). Monteiro Lobato traduziu para a Língua Portuguesa inúmeros contos infantis europeus reunidos por dois alemães, Jacob Grimm (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859). Lobato também criou personagens para o público infanto-juvenil brasileiro que fazem parte da infância das gerações atuais.

Monteiro Lobato criou a sua coleção de livros mais famosa – o “Sítio do Picapau Amarelo” –exatamente na fase mais autoritária do nacionalismo patriótico brasileiro, de 1939 em diante. Durante o primeiro governo de Getúlio Vargas (1882-1954) entre 1930-1945, quando o nacionalismo exacerbado foi uma construção ideológica social, cultural e, claro, militar. O Brasil chegou a participar da Segunda Guerra (1939-1945) como aliado da Alemanha.

A turma do “Sítio do Picapau Amarelo” é composta pela interação entre seres humanos, animais fabulosos e seres mitológicos da cultura nativa indígena, africana, afro-brasileira e brasileira. A relação entre a Dona Benta e a Tia Anastácia era de patroa branca e empregada doméstica preta, uma herança do Brasil colonial escravocrata. Da mesma forma que havia os demais empregados que trabalhavam e moravam no sítio. Os netos da Dona Benta apareciam no sítio nas férias, ambos tinham brinquedos encantados.

Os seres mitológicos eram presentes no sítio: a Cuca, a Iara, a Mula-sem-cabeça e o Saci Pererê. Todos tinham vida própria. Os primeiros episódio do “Sítio do Picapau Amarelo” foram ao ar pela televisão brasileira a partir de 1952. O programa seria apresentado pelos próximos onze anos. Durante o governo militar, em 1977 o “Sítio do Picapau Amarelo” voltou a ser apresentado. Muitas pessoas da minha geração conheceram o “Sítio do Picapau Amarelo” na TV Globo, nas décadas seguintes.

O fato é que, na passagem da década de 1980 para a década de 1990, muita coisa mudou no mundo. Um dos resultados da Guerra Fria (1947-1992) é que entramos no raio de influência direta dos Estados Unidos, quando o Brasil passou a receber música, desenhos animados, séries e filmes estadunidenses. Na metade da década de 1990, a Língua Inglesa já rivalizava com a Língua Francesa, até então o idioma estrangeiro mais falado. As escolas de idiomas começaram a apresentar o “Dia das Bruxas” (a festa de Halloween) aos jovens brasileiros.

No início da década de 2000 começou um movimento para rivalizar com o Halloween, com o Projeto de Lei Federal nº 2.479-A chamado “o Dia do Saci”. O Saci é um ser lendário entre o povo guarani, associado ao curupira, também personificado como menino preto brincalhão e protetor das florestas. O “Dia do Saci” seria comemorado no mesmo “Dia das Bruxas”, em 31 de outubro, com o objetivo de valorizar e resgatar a tradição oral, a cultura popular, apresentar às crianças os mitos e lendas brasileiras[2].

Então todo ano, nesse dia, o Saci encara o Halloween.

Há uma década ainda era possível ver a batalha acalorada nas redes sociais entre os defensores do “Dia do Saci” contra os apoiadores do “Dia das Bruxas”. Claro que também havia quem interpretasse esse debate como inútil. De fato, com o passar do tempo, essa disputa ideológica foi arrefecendo.

No dia 5 de fevereiro de 2021, o Saci chegou às telas de streaming na série “Cidade Invisível”, do cineasta Carlos Saldanha. Em um dos capítulos da série de suspense, crime e mistério, o Saci aparece como o jovem Isac, que não tem uma perna e usa um lenço vermelho na cabeça no episódio “É um caminho sem volta”. A produção brasileira já alcança números impressionantes: chegou a 40 países, obteve a nota 7.3 na Base de Dados para Filmes na Internet (IMDb), em que a nota máxima é 10[3]. É uma prova de que as lendas nunca morrem. A primeira temporada da série baseada no folclore brasileiro já conta com mais elogios do que críticas, enquanto o público já aguarda pela sua continuidade para 2022.

Gilmara Benevides é doutora em Direito, interessada em história e relações culturais internacionais.

[2]https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra;jsessionid=3F1681CE2E36828DEDFDA88D09D6A591.node2?codteor=301007&filename=Avulso+-PL+2479/2003

[3] https://www.ospaparazzi.com/entretenimento/series/cidade-invisivel

Clique para ajudar a Agência Saiba Mais Clique para ajudar a Agência Saiba Mais
Artigo anteriorPróximo artigo
Gilmara Benevides é doutora em Direito, interessada em história e relações culturais internacionais.