DEMOCRACIA

Corrupção na política potiguar tem raiz no sistema oligárquico

A investigação de deputados e senadores do Rio Grande do Norte por crimes de corrupção que vieram à tona durante a semana revelam uma ligação estreita da política tradicional potiguar com a atividade ilícita. Levantamento da agência Saiba Mais publicado terça-feira mostra que mais da metade da bancada federal é investigada por crimes de corrupção no Supremo Tribunal Federal. Um dia depois, o procurador geral da República Rodrigo Janot apresentou denúncia contra o senador José Agripino (DEM) por cobrar propina na obra da Arena das Dunas. Na quinta-feira foi a vez do ex-deputado Henrique Eduardo Alves aparecer com destaque na denúncia de Janot como membro da organização criminosa do PMDB.

Para o cientista social Willington Germano, 70 anos, o envolvimento de políticos tradicionais do Estado com esquemas de corrupção confirma a manutenção de um sistema oligárquico no Rio Grande do Norte e revela a dificuldade de renovação política no Estado. É que o ex-deputado Henrique Alves, os quatro deputados da bancada federal (Felipe Maia, Walter Alves, Fábio Farias e Rogério Marinho) e os dois senadores (Garibaldi Alves e José Agripino Maia) investigados no STF representam famílias com peso histórico na política potiguar.

O senador José Agripino Maia, que responde a quatro inquéritos no STF, é pai do deputado federal Felipe Maia, que também deve explicações ao Supremo sobre uma ação. O senador Garibaldi Alves que responde a um inquérito no STF é pai do deputado federal Walter Alves, também investigado em um inquérito pelo mesmo tribunal. Já o deputado federal Fábio Farias, outro parlamentar investigado numa ação no Supremo, é filho do atual governador do Estado Robinson Faria, que não é deputado nem senador mas também teve este ano uma investigação aberta a pedido da procuradoria geral da República no Supremo. Por fim, o deputado federal Rogério Marinho, recordista de inquéritos abertos no STF, é filho do ex-deputado federal Valério Marinho.

Outra “coincidência” da bancada parlamentar apontada pelo cientista social está no poder midiático. Os deputados e senadores na mira do STF detém concessões de rádio e televisão espalhados pelo Estado ou financiam os próprios espaços nos meios de comunicação da imprensa tradicional.

– Esse percentual alto de 54% da bancada é do sistema oligárquico, que aponta a dificuldade de renovação política no Estado. Todos são donos de mídias, canais de televisão, jornais impressos, ou seja, possuem o monopólio midiático, o que não é possível em nenhum país do mundo. Nos EUAs, por exemplo, é proibida a propriedade cruzada, quando uma pessoa ou família é dona de mais de um veículo. Aqui não. E com isso, fazem circular um discurso único.

Germano faz uma relação entre as investigações abertas contra parte da bancada potiguar e a atuação desses parlamentares em votações-chave nos últimos dois anos.

– São parlamentares atuantes, mas a serviço de interesses que não são os mesmos interesses do povo. Esses deputados e senadores estão votando propostas que aumentam a concentração de renda, destroem a cidadania e liquidam com os trabalhadores. Isso só aponta para a falácia do discurso moralista. Como eram contra a corrupção ? Quem foi clamar em favor do moralismo foram os mesmos que estão aí investigadas.

Na atual conjuntura, o caso do senador José Agripino Maia é emblemático. Germano lembra que as pessoas que pedem a volta do regime militar esquecem que o investigado Agripino tem origem na ditadura.

– Essas denúncias confirmam tudo o que estamos dizendo. Mas é importante destacar o senador José Agripino. Investigado por corrupção, que entrou para a política apoiado pelos militares.

 

Elite sem projeto

Analisando a política de forma geral, o cientista social Willington Germano só enxerga uma alternativa: a mudança do atual sistema político, o que precede uma ampla reforma no modelo vigente. Segundo ele, a política é uma mercadoria no Brasil.

– Isso (percentual de políticos investigados) dá conta do sistema político e eleitoral que precisa ser revisto. O que existe na verdade é uma “mercadorização” da política numa escala sem precedentes, que fere de morte a democracia e nos mostra uma necessidade de fazer uma verdadeira reforma politica, para restringir esses aspectos.

A restrição do poder do dinheiro na política precisa acontecer de fato, avalia o cientista social da UFRN. E essa etapa só poderá ser cumprida com uma mudança radical no sistema político do país.

– As sociedades mercantis são suscetíveis à corrupção desde o mundo antigo, mas a situação se agrava em determinados momentos, como na sociedade brasileira, porque é uma sociedade muito desigual. Os políticos que se voltaram para o povo, para as escalas mais humildes, foram todos acochados do poder. Foi o caso de Vargas, de João Goulart e da Dilma. Tudo por causa de uma elite que se locupleta e não tem projeto para o país. Esse sistema político brasileiro é movido para defender interesses dos poderosos, do ponto de vista interno e externo, voltado para o mercado. O (Michel) Temer, por exemplo, comprou deputados no mercado político, na conta de um sistema político que precisa ser modificado radicalmente.  

O discurso moralista conservador que ganhou força e apoio da imprensa tradicional é duramente criticado por Germano. Para, uma operação de combate à corrupção que vem quebrando empresas brasileiras não pode fazer tão bem assim para o país.

– Todo tipo de corrupção deve ser combatido, em qualquer lado. Agora a Lava jato faz mais mal do que bem ao país porque está quebrando as empresas. A Alemanha não deixaria nunca que se quebrasse a Volkswagen nem os EUA deixariam que se fizesse isso com a Ford. Aqui no Brasil a indústria naval foi aniquilada. Porque o mundo quebrou em 2008 ? Por causa de operações criminosas nos bancos dos EUA. Qual foi a imprensa que disse que aquilo era corrupção ?

Germano também chama a atenção para os interesses geopolíticos externos que ainda permeiam o golpe. A venda de territórios nacionais, a exemplo da Amazônia, fazem parte do pacote.

– Não podemos esquecer nesse momento da geopolítica, especialmente das nossas riquezas naturais. É bom lembrar que existem fatores externos ao golpe e os políticos têm avalizado tudo, vendendo o país. Além dos ataques aos direitos sociais trabalhistas, o aumento da concentração de renda e à perda da soberania nacional, a venda de territórios, a entrega do nosso patrimônio a grupos internacionais, tudo isso está em jogo. Com o apoio da bancada do Rio Grande do Norte, com as raras exceções da senadora Fátima Bezerra e da deputada Zenaide Maia.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"