OPINIÃO

O equilíbrio da balança

João Victor escreve aos sábados

Praticamente todos antecipam que as eleições de 2018 serão as mais importantes da nossa ainda cambaleante democracia. Antecipam também que a produção de informação, principalmente a de notícias falsas, causará impacto nesse processo. E se o público desconfia das informações que recebe de fontes duvidosas nas redes sociais, não se pode dizer que também tem extrema confiança na informação produzida pelos veículos tradicionais de comunicação. Numa democracia, a ausência de fontes confiáveis, que rompam com as conspirações que proliferam nas redes, é um grande problema.

A opção, por décadas, da mídia brasileira em negar suas posições, insistindo na ideia de que fazem jornalismo imparcial e independente, criou uma mídia refém das próprias mentiras que contou. Chegaremos em 2018, sabendo muito bem das posições políticas e econômicas dos principais veículos de comunicação, mas eles ainda vão insistir, editorialmente, que estão imparciais ao processo que se desenrola. O que só vai alimentar ainda mais a desconfiança de um público em disputa, que enxerga nas redes uma forma de romper com o discurso único da grande mídia, mas é facilmente seduzido pelo tom oportunista de publicações virais.

A partir da eleição de Donald Trump, os veículos da mídia tradicional, aqui e lá fora, tentam superar o criticismo da tendenciosidade de suas coberturas políticas, fortalecendo a ideia de que estes são os guardiões das fontes confiáveis e da veracidade da informação, o equilíbrio da balança. Aqui, porém, essa tentativa de se estabelecer como alternativa ao fake News esbarra na ausência de diversidade midiática e no fato de que a grande mídia teve papel fundamental no estabelecimento da polarização que vivemos hoje, interferindo agressivamente no caminho político do país desde as últimas eleições.

Por anos, veículos como Veja, Istoé e O Globo construíram uma narrativa tóxica sobre a organização dos setores progressistas e de suas lideranças, ao passo que reforçam uma defesa oficiosa de propostas impopulares, como a reforma da previdência. Forçando ao público uma agenda neoliberal e de retirada de direitos. A manipulação de pesquisas eleitorais, de debates na televisão, a tentativa de fortalecer nomes da centro direita no cenário nacional, tudo isso constrói sobre a grande mídia brasileira um caminho de pecados dos quais é difícil se livrar. Motivos não faltam para desconfiar.

As redes respondem instantaneamente as histórias que julgam mal contadas, expondo a credibilidade frágil dos veículos de comunicação. A mais recente delas é o caso das propinas pagas para obtenção dos direitos de transmissão de torneios internacionais de futebol, uma investigação do Departamento de Justiça dos EUA. No escândalo, a resposta da TV Globo foi dizer que não tolerava propinas e que fez sua própria investigação e descobriu, convenientemente, que não houve nenhum pagamento irregular. Versão da história que até o mais fiel de seus diretores de jornalismo deve ter tido dificuldade em acreditar.

A crise de credibilidade dos veículos tradicionais abre espaço para que se fortaleçam alternativas menores, mais próximas do controle social, e mais distante do lobby feito com governos e políticos. No Brasil, mesmo diante das dificuldades de financiamento, onde verbas públicas abastecem o monopólio de poucas empresas, estão surgindo iniciativas que buscam um jornalismo mais ligado ao interesse público, e que buscam dar transparência a tudo que fica esquecido das páginas dos grandes jornais e nos noticiários da TV. Não podemos aceitar a ideia de que os grandes veículos são o único filtro do que é bom jornalismo, pois muitas vezes o bom jornalismo sucumbiu aos interesses políticos desses veículos e a informação acabou como moeda de troca. Fortalecer espaços alternativos de comunicação é a nossa melhor chance de entender o que é real e o que é fake nas eleições do ano que vem.

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Jornalista e militante de direitos humanos