OPINIÃO

O equilíbrio desconectado

Pode parecer estranho, mas uma das gigantes da telefonia celular resolveu alertar os usuários dos seus aparelhos sobre a busca do equilíbrio entre a vida digital e o mundo ao nosso redor. Em um video de 22 minutos, três personagens aceitam o desafio de ficar dois dias sem usar o telefone ou qualquer outra conexão à internet.

Não são dois dias de folga. São dois dias de trabalho.

São três personagens: um estudante carioca, uma bailarina argentina e uma organizadora de casamentos mexicana. Todos sofrem bastante sem seus aparelhos e apresentam sintomas semelhantes aos da abstinência de substâncias. Ficam ansiosos, suam além do normal e se espantam pelo fato de não saberem mais se relacionar com o mundo sem a mediação do telefone celular conectado.

Sem internet, tarefas simples como conseguir algumas fotos da Patagônia, fizeram com que Victor tivesse que andar até uma livraria para comprar um guia turístico ilustrado. Macarena perdeu uma aula e um teste por não conseguir se localizar na cidade. Gema teve que voltar a usar o telefone fixo, além de perguntar a outros motoristas como chegar até um fornecedor.

O vídeo termina com a promessa de todos os participantes de que vão buscar o equilíbrio entre a vida digital e o mundo ao redor. Nenhum deles me convenceu.

Eu mesmo passo bastante tempo conectado e tenho a exata noção da dependência do aparelhinho no dia a dia. O despertador, o horário do ônibus, a música para ouvir no caminho, os relatórios do trabalho, as notícias do minuto, o aplicativo para pedir comida, o aplicativo para chamar um motorista, a agenda de compromissos, as anotações daquela reunião, as fotos do encontro com os amigos, os telefones dos amigos, dos parentes, dos contatos de trabalho, a conta no banco, o cartão de crédito, a hora de beber água, paquerar (ou dar match), os filmes e as séries, os ingressos do cinema e do teatro e da festa, a videochamada com as crianças e os irmãos que moram longe, curtir, compartilhar… Tem aplicativo pra tudo guardado no celular e, assim, reorganizamos nosso cotidiano.

A vida fica mesmo mais complicada sem o celular. Depois de conectados, adicionamos inúmeras camadas de informação às nossas vidas cotidianas, quase como uma consciência coletiva, como lembra o neurocientista André Rieznik. Deve ser por isso que 52% dos brasileiros não aguentariam ficar um dia inteiro sem o telefone celular, segundo dados do Ibope, divulgados em fevereiro.

Por sorte, sou de uma geração que ainda viveu sob o signo do offline. Ainda uso a memória para muitas das tarefas cotidianas, mantenho um bom GPS instalado na própria cabeça e até sei os telefones da minha mãe decorados – o fixo e o celular. De vez em quando, faço questão de ficar horas fora do ar. A sensação é libertadora. Quando meu telefone quebrou então! Parecia que o peso do mundo havia saído das minhas costas.

Fora do ar nas redes, é muito bom descobrir que há muitas conexões a fazer lá fora.

Não deixem de experimentar!

 

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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