OPINIÃO

O fetiche da arma de fogo

A polêmica acerca do posse e porte de arma nunca esfria. Poucos dias após tomar posse como presidente, Bolsonaro publicou seu primeiro decreto facilitando o acesso a armas de fogo. Sob a justificativa do combate à criminalidade já no início do seu governo, facilitou através de um decreto algo que deveria ser profundamente discutido no seio da sociedade. Uma resposta ao mercado armamentista que o financiou? Uma resposta ao clamor popular de possuir armas para sentir-se seguros? Nos parece muito mais um fetiche do que um desejo objetivo de solucionar o problema da (in) segurança. A arma possui um valor simbólico diretamente ligado à masculinidade, ao poder, à potência. Freud nos explicaria? Marx também? Sim. Vamos à reflexão.

O presidente Bolsonaro (PSL)assina um decreto que autoriza cidadãos comuns a comprarem armas. Rodeado de parlamentares que o aplaudem e fazem sinal de arma com a mão.

Fetiche é uma expressão comumente associada ao universo da sexualidade. Ele significa aquilo que as pessoas desejam fazer e que culturalmente é proibido ou interditado. É algo que foge da normalidade, um segredo. No sentido freudiano, o fetiche é algo que se cultua e é capaz de provocar satisfação, prazer, excitação. É um objeto ou parte do corpo que pode ser erotizado para satisfazer os desejos de alguém.

Tornar a arma um objeto icônico, objeto de desejo, de potência, de controle, da vida e da morte, é torna-lo um objeto de fetiche. O homem portador de uma arma assume-se detentor do controle, da razão e da verdade. A arma confere ao sujeito uma mudança de papel social, uma realocação na pirâmide de subjetivação. Freud diria que a arma seria uma extensão do pênis, a potencialização da virilidade, o desejo de dominação do outro. Deputado Waldir, do PSL, mesmo partido de Bolsonaro, circula pelos corredores do Congresso com seu coldre, o suporte para colocar a arma e munição. No espaço onde a palavra deve ser a maior arma, sua potência está na arma imaginária que carrega na sua cintura.

Recentemente, o presidente decretou a permissão de compras de armas de cano longo, o que inclui a venda de fuzis. Os fuzis são classificados como as armas das pessoas mais poderosas numa hierarquia armamentista. As imagens de policiais realizando a ronda ostensiva com fuzis apontados para o alto, de traficantes circulando nas favelas e bailes funk com seus fuzis apontados para o alto, impõem e dizem muito sobre poder, potência e virilidade. São homens mais poderosos e viris pelas armas que portam.

O delegado Waldir (PSL-GO), líder do partido de Jair Bolsonaro na Câmara, faz o sinal de arma com a mão direita diante de câmeras de emissoras de televisão e fotógrafos, rodeado de outros políticos, comemorando o decreto presidencial que facilita o acesso a compra de armas. O deputado mostra o coldre vazio na sua cintura, suporte utilizado para guardar a sua arma. Em terceiro plano, deputados batem palma e fazem expressão de comemoração. Foto: (Pedro Ladeira/Folhapress)

E Marx, demonstraria claramente que o fetiche pela arma representa o acesso a um objeto dotado de vida própria, com poder misterioso e mágico. Neste sentido, ninguém discute o que acontecerá após o acesso às armas. Parece que a criminalidade desaparecerá num estalar de dedos. Pessoas armadas desarmarão criminosos? O contrato social que confere ao Estado o monopólio da violência será em parte desfeito, ignorado. Qual a responsabilidade do Estado num país em que as pessoas estão autorizadas a utilizar a arma para solucionar seus conflitos? As consequências reais e objetivas não importam. São menos importantes do que a autorealização imaginária.

Em um país machista, fundado e forjado pelo uso da violência, a arma ocupa um lugar de centralidade. Pesquisas de opinião sobre a flexibilização do Estatuto do Desarmamento demonstram que o acesso a armas existe sobretudo para o grupo de homens, tanto ricos quanto entre os pobres. As mulheres sempre são as que demonstram maior preocupação, mas entre aquelas que apontam ser favoráveis, justificam o desejo de ter mais poder.

O que causa espanto em meio a um contexto de profundos contrastes sociais, é que o grupo de pessoas favoráveis ao acesso às armas com maior poder econômico justificam a opinião com o discurso da garantia da propriedade privada, da segurança patrimonial, familiar e autosegurança. Outrossim, nos bairros onde as pessoas morrem vítimas de arma de fogo causada pelos conflitos entre facções, entre a polícia ou conflitos domésticos resolvidos com violência, também são favoráveis ao porte e posse de armas. As maiores vítimas desejam ter acesso às armas que os extermina?

O presidente Bolsonaro situa-se ao centro, fazendo sinal de arma com as duas mãos. É aplaudido e recebe apoio dos pastores que o rodeiam. Todos vestem a camisa da Marcha para Jesus, com estampa de um crucifixo com as cores da bandeira do Brasil, as mesmas cores utilizadas na campanha presidencial. Foto: Nacho Doce / Reuters.

Nesta jornada em busca de apoio para garantir o acesso a armas de fogo aos cidadãos, o presidente Bolsonaro também encontrou alento nos setores religiosos. Na Marcha para Jesus de 2019, o maior evento evangélico do Brasil, o presidente discursou e mencionou que as famílias estão sendo destruídas pelo que ele chama de “bandidagem”. Ouvindo gritos de apoio, fez o sinal de armas com as mãos e foi aclamado tanto pelo público quanto pelos pastores de diversas denominações evangélicas que o rodeavam. O que significa o amplo apoio às armas entre os evangélicos? O mesmo desejo freudiano de controle, de poder, de potência que apresentamos. Um fetiche ou fantasia silenciada por uma interdição cultural: o desejo de dominação da vida. O desejo de ser Deus? Oremos que não seja.

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Francisco Augusto
Francisco Augusto Cruz de Araújo é cientista social, professor universitário e especialista em Segurança Pública e Violência Urbana. Escreve aos sábados.

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