OPINIÃO

O fim do futebol profissional

O futebol profissional, no modelo que é hoje, do RN, talvez de todas os estados mais pobres do Nordeste – Paraíba, Maranhão, Sergipe, Piauí e Alagoas – está com os dias contados. Vamos voltar, sem dúvida, muito em breve aos tempos do semi-amadorismo, quando os atletas tinham uma outra atividade remunerada, e o futebol era “bico”. Absurdo o que digo?

Dá uma repassada rápida do que já perdemos de público nos últimos anos. Anota o tempo de atividade de uma equipe de futebol. E por outra, vê, conta nos dedos se os clubes de nossas cidades fazem, ainda, aqueles amistosos super interessantes, de grandes públicos pelos interiores do Estado, até mesmo confronto interestaduais que rendiam uma boa grana para ambos. Não tem mais.

Quem imaginaria, vamos colocar dez anos para trás, América, clube centenário, figurante costumeiro até mesmo de Brasileiro da Série A, com cadeira quase cativa na B, no mínimo, encerrando suas atividades no mês de maio, sem passar adiante numa competição de baixo nível como a Série D? E o ABC não muito distante, encerrando sua temporada no início do mês de agosto e, pasmem, com seus torcedores festejando a permanência na Série C.

Ainda de nosso futebol, quem poderia imaginar que o povo de Caicó, apaixonado por futebol, iria pouco se lixar de ver o primeiro campeão do interior, Corínthians (2001), encerrar suas atividades como um todo? E como ele, os representantes sempre presentes de Currais Novos, Santa Cruz, Parnamirim e Pau dos Ferros, entre outras.

Qual o torcedor do time verde, centenário Alecrim, sete vezes campeão do Estado, que já esteve na elite do futebol brasileiro em 1986, estaria, 30 anos depois, na Série B de nosso Estadual sonhando, mas com pouca condição, voltar à primeira divisão de nosso Estadual? Duvido que o mais pessimista dos alecrinenses imaginasse essa situação atual.

O nosso futebol vive exclusivamente do seu campeonato Estadual e das competições bancadas pela CBF.  Única coisa absolutamente nossa e que ninguém – CBF, Liga do Nordeste ou FIFA – nos tira é o nosso campeonatozinho. Um dia quando não tivermos Copa do Nordeste (já houve o sinal) e nossas equipes não figurarem mais em grandes competições vamos viver de nosso que, o atual, eterno, parece, presidente José Vanildo acabou transformando em torneio relâmpago.

Os nossos clubes, endividados, sem ter como manter plantel, fazer, a cara, manutenção de estádio e nem mesmo infraestrutura para manter uma base revelando atletas, que é muito dispendioso – vai sim voltar a ser formado por atletas que têm outros empregos. Os clubes não terão rendimento para bancar nem mesmo salários baixos, talvez nem mínimos.

E não tenho dúvida, se o amor persistir, tomara que sim, vamos voltar a ter um grupo de  estivadores vestindo a camisa do América, os pescadores do ABC, os empregados da rede Ferroviária do Ferrin, dos eletricitários do Centro Esportivo Força e Luz, o fuzileiros navais do RAC e até dos aeronautas que formaram um time chamado ASA de Parnamirim, exemplos do que tivemos um dia.

Sem tevê, sem patrocinadores, cada vez mais escassos ajuda de governos, a CBF, desmoralizada, não vai ter dinheiro nem mesmo para manter mínima ajuda aos participantes de uma Série D? E quem vai querer participar de uma Série D sem receita nenhuma?

Sinceramente, não sei se esse recomeço será ruim. Também não sei, confesso, se haverá disposição, amor, determinação e a mesma alegria e vontade de jogar futebol como antigamente. Se não, aí sim, será o fim. Mais ou menos o que aconteceu com o nosso futsal, hoje apenas exportadores de valores e que sobrevive, às duras penas, com campeonatos com a participação quase que exclusivamente de equipes do interior.

O futebol será o da tevê. Mas somente de Série A e B, Copa do Brasil, Libertadores, e já sofrendo horrores com a concorrência dos grandes certames da Europa, acho eu e, claro, sem representatividade nenhuma de nossa região. Parece mau presságio, péssimo, diria, mas é a realidade que enxergo para um futuro não muito distante.

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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