OPINIÃO

O Flamengo é “tábua de salvação” do futebol nacional

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Vibrando desesperadamente, completamente tomado pela emoção com esse título da Libertadores, conquistado pelo Flamengo, na vitória deste sábado, 2 a 1, de virada, sobre o poderoso River Plate, de repente, comecei a imaginar as mudanças, muitas vezes radicais, que acontecem em nossas vidas. Quem diria que aquele garoto cego de paixão pelo Botafogo, que vivia às turras nas esquinas da Cidade Alta bradando ofensas a jogadores do rubro-negro, negando, acreditem, até mesmo o talento daquele tal do “Galinho de Quintino”, classificando-o de amarelão, entre outros absurdos, se transformasse num defensor intransigente do maior rival?

Meus amigos flamenguistas Cuíca, Zinho, “Pequeno das Cachorras (in memoriam), Carlos, Welber, entre outros,  lendo o que escrevo hoje, mesmo assim, acreditem vão duvidar de tamanha mudança. Minha “paixão” pelo time da Gávea, hoje, tem uma razão de ser, que se sobrepõe a qualquer coisa menor. Entendo que está em jogo a salvação do futebol brasileiro. Pareço exagerado? Mas é isso mesmo. O antigo “time da urubulhada” é a tábua de salvação do futebol nacional. Um tapa de luva nesse monte de retranqueiro formado na “maldita” (me perdoem!) era Parreira, formadora de profissionais de prancheta, que acreditam muitos mais nos números de seus computadores que nos talentos dos jogadores e só jogam para não perder.

Só vendo os jogos do Flamengo – fazia tempo, confesso, que não assistia uma partida inteira de jogos do Brasileiro, apenas melhores momentos – é que voltei ter a alegria de apreciar uma equipe montada para a vitória. Variando, criando para cima, marcando gols e querendo mais.  Tudo bem, os chatos vão dizer que é fácil, como tantos craques e tanto dinheiro, não, não é não. Quando a direção anunciou Rafinha e Filipe Luís disse (por ignorância) que eles seriam um fracasso no futebol do Brasil. Poucas vezes havia visto o ala direito em ação, pois não acompanho campeonatos da Europa, e o ala da esquerda critiquei pelo que analisei dele na seleção perdida de Tite. Errei longe e hoje me pergunto como tendo Rafinha, treinadores da seleção insistiram com o engodo Daniel Alves?

Se era tão fácil, volto a falar, porquê Abel Braga, tão elogiado pela imprensa, campeão do Brasil, do mundo, não fez o time dar liga? Não, não foi só o componente dinheiro e grandes nomes, tanto é fato que garotos como Reynier, Lucas Silva, Lincoln, Thuller, Renê vêm dando conta do recado. É o algo mais que nossos treineiros deixaram pelo caminho com  a obsessão pelo defensivismo. Foi com essa covardia que o bom time do Santos, com Neymar e Ganso, jogando lindamente, não andou em campo e foi goleado pelo Barcelona. Se, naquela época, tivéssemos um treinador de verdade, não um retranqueiro, não teríamos passado vergonha tamanha, o mesmo que já havia se passado com o mesmo Santos de Robinho e Diego.

Joel Santana, Murici Ramalho, Abel Braga, Jair Pereira, Celso Roth, Antônio Lopes, Cuca, Tite, Felipão,  Mano Menezes, Leão, Levir Culpi, Dunga,  Oswaldo Oliveira, Waldemar Lemos, alguns até que vieram antes do Parreira, adeptos do zagallismo e todos os jovens formados pós 1994 transformaram o futebol do Brasil num ajuntamento de peças de marcação em tabuleiros congestionados por volantes brucutus, o que considero, sem medo de errar, a “praga das últimas décadas”. A minha esperança depositada no Flamengo, em Jesus, é que seu exemplo vitorioso, jogando bonito, possa influenciar e mudar a cabeça dos treineiros de discursos prontos, bonitos, e esquemas feios, marcados pelo antijogo.

Saudosista, vi sim, de novo em campo, através do Flamengo de Jesus, o Santos de Pelé, o Botafogo (meu) de Mané Garrincha, de Jair, Gerson, Marinho Chagas e Paulo César, o Cruzeiro de Tostão, o Flamengo de Zico, Adílio, Geraldo Assoviador, o Fluminense de Pintinho, Rivelino e depois Assis e Washington. Foi bonita a festa do Flamengo, emocionante e importante, conquista maiúscula sobre os argentinos, coisa rara de acontecer, vale lembrar. Que esse bando de enganadores pare de implicar, de ter inveja de Jesus e do Sampaolli e comecem a extrair de suas equipes a criatividade, o talento, a vontade de vencer, abolindo de nosso futebol esses gritos que têm sido ouvidos pelos atletas, desde as categorias de base: o “pega-pega, marca-marca, volta-volta-volta, solta a bola!!!”

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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