OPINIÃO

O golpe como ele é

O Processo estreou em Natal, no último 21 de junho, não sem batalha. Documentário realizado nas coxias do processo de impeachment da presidente da República Dilma Rousseff, em 2016, e exibido pela primeira vez ao mundo no Festival de Berlim, em fevereiro deste ano, o filme recebeu certo rechaço do circuito comercial, como costuma acontecer com exemplares do gênero. Em Natal, só ganhou uma sessão diária após intensa negociação de movimentos culturais com uma multinacional do cinema. Para ser exibido em uma sessão “de arte”.

A diretora Maria Augusta Ramos entrega sua narrativa ao espectador como se ele houvesse acabado de aterrissar no Brasil e visse imagens de uma Esplanada dos Ministérios dividida entre vermelhos e coloridos, como times num dos países mais apaixonados por futebol do mundo. A torcida, no entanto, revelava algo inusitado na história do Brasil: uma disputa entre os que queriam e os que negavam a cassação de uma presidente da República eleita dois anos antes, o segundo do país após a redemocratização.

A saga começa na abertura do processo de cassação na Câmara dos Deputados, em maio de 2016, e termina em 31 de agosto, quando a presidente foi definitivamente deposta. O recorte escolhido expõe a intenção de narrar uma guerra: com cartelas explicativas, o prólogo relembra as eleições acirradas em 2014, a Lava Jato e as acusações contra Eduardo Cunha, que redundariam em uma abertura de processo disciplinar no Conselho de Ética da Câmara. Cunha, em resposta, declara aberto o processo de impeachment. As batalhas a partir daí são travadas na comissão de impeachment e no Plenário do Senado.

Os filmes de Maria Augusta sobre o sistema judicial brasileiro que antecedem este trabalho, Justiça (2004) e Juízo (2007), expõem sua opção radical dentro universo do documentário: o registro observacional, sem diálogo direto com o entrevistador. Os planos são médios, e se movem apenas se os personagens se deslocarem. Todas as cenas de O Processo são tomadas de ambientes do Senado Federal, com exceção de algumas imagens captadas pelas ruas de Brasília ou raras cenas dos corredores do Palácio do Planalto. A ausência de trilha sonora e de uma marca de presença da diretora reforçam a tentativa de dar ao filme um tom asséptico. Nessa tentativa, Dilma, personagem central, acaba ironicamente relegada a segundo plano.

Ao contrário de outro saudoso expoente do documentário nacional, Eduardo Coutinho, Maria Augusta não tenta sensibilizar o espectador a se afeiçoar ao objeto que escolheu retratar. Observa, registra, opta por não apresentá-lo. Faltam legendas que identifiquem os senadores e assessores que se digladiam na guerra.

Sua narrativa claramente não se pretende isenta, apesar das tentativas de explorar as vozes dos personagens que estão em oposição. Ela teve, da parte de Eduardo Cunha, todas as negativas possíveis de filmar as articulações do processo na Câmara dos Deputados. De outra parte, teve a receptividade dos senadores da bancada do Partido dos Trabalhadores, que são os soldados em sua narrativa. O resultado bonito, no qual mocinhos se mostram simpáticos e gentis, e os vilões, ridículos, é conquistado por uma edição primorosa.

As escolhas da diretora – principalmente as de não apresentar seus personagens, mas também a de não explorar as aflições pessoais dos protagonistas dos fatos – podem ser vistas sob dois vieses. O primeiro é o de que o filme é uma narrativa para a esquerda, que conhece os peões e que a partir de agora ganhou, com o filme, uma narrativa organizada dos acontecimentos que antecederam a saída da presidente.

O segundo, de que o documentário, por meio de uma edição hábil – Maria Augusta filmou 400 horas e as reduziu a 2h20 de projeção – organiza registros e apresenta uma narrativa que ainda não foi contada, para um grande público, destacando as batalhas daqueles que perderam a guerra. Nesse sentido, a fala de Gilberto Carvalho, ex-ministro de Dilma, é definitiva: “Se a gente cair, estamos caindo sobretudo pelos acertos nossos, por termos contrariado os grandes interesses do capital. Isso pra mim está muito evidente. Agora, por outro lado, é inegável que nós de alguma forma facilitamos a estrada deles através de erros graves (…)”.

Carvalho se refere, a seguir, ao fechamento de rádios comunitárias e ao pagamento de verbas publicitárias milionárias aos veículos de comunicação comerciais no Brasil. Na fala do ex-ministro, percebemos a armadilha que os governos petistas armaram para si: ao arrastarem com a barriga uma legislação de regulação de meios de comunicação, permitiram que a atual estrutura de mídia colocasse o governo na cova dos leões do Congresso.

Não à toa, o filme de Maria Augusta é chamado de esquerdista. Ele ousou ser um Davi em terras de Golias e contar uma narrativa histórica, de forma como a TV ou um cineasta que dirige séries para a Netflix nunca o fariam. Talvez aí esteja a razão do rechaço comercial e das tímidas críticas que o filme tem recebido em jornais e programas televisivos. O Processo é uma pérola no meio da lama em que os porcos chafurdam no universo midiático brasileiro.

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