OPINIÃO

O humor em tempos de Coronavírus

Panfletos, libelos, pichações e gritos de ordem talvez possam ser considerados, dentre outros enunciados e/ou textos, como práticas que tomam posição em determinadas relações de poder e assumem, assim, uma força de reação. Não chegam a ter o caráter “contundente”, digamos assim, de outras práticas de desobediência civil (guerrilhas armadas, por exemplo). Mas, de qualquer modo, manifestam o que afirmou Foucault – “ali onde há poder, há resistência”. Quando, então, agregam o ingrediente do humor, talvez possam ser considerados ainda mais revolucionários.

Comentei em outro artigo como o humor, além de prática política de resistência, pode também ser visto como uma atitude de defesa psíquica, à maneira do que propôs Freud. E, assim, talvez possamos então pensar que o humor, em tempos de pandemia, possa ser um modo de se defender e se rebelar.

A esse respeito, não há como não falar do fenômeno Bruno Sartori, cujo canal no Youtube já conta com 148 mil inscritos. Os vídeos do jovem Sartori, fazendo uso de recursos da Inteligência Artificial (em que atores da cena política brasileira são reconfigurados em outras personagens, com reprodução “exata” de suas feições faciais e de articulações verbais), bebem sobretudo em um recurso clássico da linguagem humorística: a paródia (Vladimir Propp já falou dela há tempos, bem como charges e caricaturas mostram também há tempos sua efetiva existência). O humor dos vídeos de Sartori, assim, ao tempo em que seguem uma regularidade de procedimentos linguageiros e discursivos do campo do humor, repetindo essa condição humana nossa de ser e existir no mundo por meio da luta e do riso, “retrata” também um mundo em franca descontinuidade.

Os “alvos” preferenciais das paródias de Sartori têm sido os tipos políticos ligados ao atual governo de Jair Bolsonaro. E, nessa esteira, o Coronavírus tem sido utilizado também como mote, dada forma leviana e despreparada como a gestão bolsonarista tem tratado o caso de pandemia.

Comento rapidamente dois desses vídeos:

Lave as mãos com a mesma frequência com que eu falo besteira!

O vídeo mostra o presidente, como se em pronunciamento oficial, intercalado a outros nomes de seu quadro (o ministro Weintraub, a ministra Damares e o agora ex-ministro Moro), e juntos cantam a canção infantil que serve de manual de higiene. Além de destituir a imagem “séria” dos governantes, o uso do procedimento de duplo sentido atrelado à expressão “uma mão lava a outra” sugere o ditado em que a troca de favores (escusos) seria uma prática própria da gestão da Pátria Amada Brasil.

Estudo é coisa de esquerdista!

Neste vídeo, o presidente aparece transmutado no palhaço Tiririca e canta uma versão da sua canção Florentina para falar da Cloroquina, medicamento defendido pelo governante como supostamente eficiente no tratamento da Covid-19. Este vídeo, a meu ver, é o que melhor simboliza uma visão carnavalesca de mundo (no modelo que propôs Bakhtin): um mundo risivelmente ambivalente em que o que antes era tido como “sério” aparece francamente invertido em ridículo.

Há outros vídeos hilários de Bruno Sartori, inclusive não restritos ao tema da pandemia e da forma como o governo brasileiro, particularmente o nome maior do Estado, tem tratado a questão. Fica a dica, para quem não conhece, ir visitar o canal. Inclusive, consta que Sartori teria recebido ameaças por conta de seus vídeos, exemplo emblemático para se pensar a relação entre humor e resistência política.

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