OPINIÃO

O império da mentira

No final de 2014, multidões protestavam em Paris contra a reforma trabalhista proposta pelo então ministro da economia Emmanuel Macron. A medida flexibilizava as normas trabalhistas e permitiria a abertura do comércio em quatro ou cinco domingos por ano. Sim, cinco! Por ano! A indignação dos franceses era contagiante e foi assim que passei a não gostar de Macron.

Até o dia em que ele afirma o óbvio e chama Bolsonaro de Mentiroso. Mais precisa e educadamente, ele afirma “pode se dizer que ele não me disse a verdade”. O que no fundo é a mesma coisa.

Bolsonaro tem esse magnetismo. Desde que começou o mandato, ele me forçou a rever o posicionamento relativo na escala dos adjetivos de muitas figuras do mundo da mídia e da política nacional e internacional. Assim, voltamos a achar simpáticos Reinaldo Azevedo, Rodrigo Maia e até Macron.

No fim de semana, a vítima das mentiras presidenciais foi Merval Pereira, jornalista de O Globo e que, apesar de não ter ganhado muitas posições adjetivas, não merecia ser vítima da máquina de fake news da família Bolsonaro. Ninguém merece.

Não é difícil perceber como Bolsonaro tem apreço pela mentira, pela imprecisão e pela distorção de informações. Há quem compare o discurso do presidente Bolsonaro às falas do candidato Bolsonaro. Pode parecer despropositado, pueril ou até impensado.

Para mim, parece muito mais um movimento friamente calculado para mobilizar o exército de míticos seguidores internet afora. E que segue ativo mesmo depois das eleições.

O fato é que Bolsonaro é a “fonte da verdade” para muita gente. Não adianta argumentar, mostrar fatos, fotos nem vídeos. Nem mesmo a NASA é capaz de provar que a terra é redonda para um terraplanista mítico. Essa parcela da sociedade está perdida.

Temos que direcionar nossas energias em conquistar (ou reconquistar) a parcela da sociedade que ainda não ultrapassou a linha da racionalidade civilizatória e que ainda compartilha valores democráticos.

Assim, nem adianta falar com aquele tio que segue aplaudindo as bravatas do presidente. Também é preciso parar de xingar o Carluxo na resposta ao twitter raivoso dele. É preciso ir atrás daquela prima que anda meio alheia ao mundo, indo com as outras por aí. Também dá pra conversar com as pessoas no ônibus e apontar os prejuízos que as medidas tomadas pelo governo trazem para a maior parte da população.

O que importa é não tentar ultrapassar o muro feito de mentiras que separa parte da população. Pelo menos por enquanto, até encontrarmos uma forma eficiente de abrir brechas e reestabelecer o diálogo com o lado de lá.

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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