OPINIÃO

O jornalismo contra a prepotência

Há uma espécie de acordo extraoficial na imprensa no qual jornalista não fala de jornalista. Nem para criticar e muito menos elogiar o trabalho dos colegas, especialmente se estiverem em veículos distintos, concorrentes ou não. Um acordo sem pé nem cabeça e que só reforça a tese segundo a qual jornalistas se vêem como entidades imune a críticas.

Como se erros não fossem comuns provocados por má-fé, radicalismos contaminados pela polarização da sociedade ou em razão do exercício de uma profissão cada vez mais precarizada e subvalorizada, haja vista a enxurrada de demissões em veículos de comunicação, como a que vitimou recentemente 22 funcionários da Tribuna do Norte, sendo oito jornalistas somente da redação.

Apesar de tudo, e contra empresários cujo cérebro tem o tamanho aproximado de uma ervilha, o jornalismo não apenas resiste, como insiste. É o caso da série de matérias publicadas pelo jornalista Dinarte Assunção, em seu blog do Dina, sobre os custos e os contratos divulgados pela prefeitura de Natal com o hospital de Campanha a ser instalado onde funcionou até há pouco tempo o hotel Parque da Costeira.

Assunção usou dados oficiais, publicados no Diário Oficial do Município, conversou com fontes oficiais da própria prefeitura e cruzou informações para apurar suspeitas ligações de familiares do prefeito Álvaro Dias (PSDB) com a empresa de mão de obra terceirizada que venceu a licitação para prestar serviço no hospital de Campanha durante a pandemia.

Pessoas com grau de parentesco com Álvaro Dias figuram como sócios da empresa vencedora do certame contratada por R$ 19,3 milhões o que, segundo a legislação, é proibido.

Por exercer o jornalismo, Dinarte Assunção foi agredido e desrespeitado pelo próprio prefeito de Natal que, além constranger o jornalista colocando em xeque sua ética e credibilidade, se recusou a cumprimentá-lo na bancada de uma rádio local onde estavam o proprietário da rádio e um blogueiro. Uma postura indecente e infantil para alguém que administra uma cidade com quase 900 mil habitantes.

Na ocasião, Dias foi convidado para explicar os gastos com o hospital de mais de R$ 28 milhões, segundo os próprios extratos publicados no Diário Oficial, contra os custos de apenas R$ 9 milhões divulgados pelo próprio prefeito.

Em sua defesa, Álvaro Dias insistiu que os R$ 19,3 milhões da mão de obra contratada não poderia entrar na conta do custo do hospital de Campanha por se tratar de pagamento de pessoal, como se o município fosse gastar a mesma soma caso o hospital não existisse.

Como as explicações do prefeito foram tão pouco convincentes e as informações trazidas a público pelo blog do Dina constrangeram tanto a administração municipal, nesta quarta-feira (22), após sentir a pressão subir com pedidos de explicação pelo Ministério Público, por sindicatos, como o Sinsenat, e também pela sociedade civil, Álvaro Dias anunciou suspensão do contrato de R$ 19,3 milhões e uma nova licitação a ser deflagrada em curto prazo.

Na segunda-feira (20), o presidente Jair Bolsonaro chegou a dizer à imprensa que ele, o presidente, era a Constituição, num arroubo que lembrou o rei da França Luiz XIV para quem ele, o rei, era a própria lei.

Bolsonaro, o presidente, não é a Constituição; Luiz XIV, o rei, não é a própria lei; nem Álvaro Dias, o prefeito, pode passar por cima da legislação para contratar quem quiser, ainda mais beneficiando familiares próximos.

Fica a lição e o recado: o jornalismo insiste e resiste. A prepotência, não.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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