OPINIÃO

 O jornalismo vendido (ou como vender a reforma da previdência)

O Bradesco comprou um jornalista. O espanto tomou conta das redações, das redes sociais e das casas de família. Muitos vão ficar saudosos da cara de bom moço de Dony de Nuccio no Jornal Hoje, da Globo. Afinal, branco, bem apessoado, com um currículo exemplar na área econômica e com uma ascensão meteórica no jornalismo, Dony reunia todos os pré-requisitos para ser o rosto de confiança da dona de casa brasileira. Ele era o cara certo para fazê-las acreditar que a reforma da previdência era necessária e, mais ainda, era urgente.

Nas horas de folga do jornalismo, Dony usava seus “superpoderes” para convencer funcionários do Bradesco Vida e Seguros a vender novos produtos aos clientes do banco. Curiosamente, o vídeo que vazou e que gerou toda a polêmica era justamente sobre um novo produto: “mais uma vez a Bradesco Vida e Previdência sai na frente e lança um novo plano de Previdência Privada que traz muito mais facilidade para nossos clientes”, afirmava ele no vídeo revelado pelo blog Notícias da TV.

O rapaz faturava alto, na casa dos milhões de reais, o que sugere que o tal serviço era bem mais valioso que a simples apresentação de vídeos de treinamento para funcionários. No pedido de demissão, feito com “aperto no coração”, o jornalista deu a entender que “não sabia” que a atitude feria o código de conduta dos jornalistas da globo. A mesma “inocência” que poderá usar no caso do plano de saúde. Isso mesmo, Dony também prestou serviços de assessoria de imprensa ao plano de saúde Amil, orientando a empresa a como oferecer “sugestões” de matérias à Rede globo.

Dony também não é o único na Globo a fazer negócios com o Bradesco. Novos documentos já apontam a participação de outros jornalistas da empresa em contratos com o banco, como Renata Vasconcelos e Rodrigo Bocardi. Os valores são mais modestos (mas ainda generosos) e a Globo garante que os casos são diferentes.

A própria Globo foi mais flexível ao vender o seu jornalismo ao banco Bradesco. Basta lembrar da Caravana JN, série de reportagens patrocinada pelo banco que percorreu o país de ônibus no período pré-eleitoral de 2006, e do JN no ar, atualização da caravana, só que agora de jatinho de luxo, às vésperas das eleições de 2010. Naqueles tempos, ao menos, a Globo era mais honesta em apresentar a marca do banco durante as reportagens e nos intervalos do Jornal Nacional.

Honestidade que faltou na Cobertura de todo o debate sobre a Reforma da Previdência, solenemente comemorada por âncoras no rádio, na TV e nas manchetes da internet, quando da aprovação no Congresso no primeiro turno.

O jornalismo na mídia brasileira simplesmente ignorou ativamente todo um espectro de fontes que apontavam para cenários diferentes do apocalipse previdenciário criado na cabeça (e na conta bancária) de Paulo Guedes. Não havia espaço para fontes que questionassem os números apresentados pela equipe econômica do governo sobre o falso déficit da seguridade social brasileira, nem para críticos das falsas soluções propostas pelos banqueiros aquartelados no Ministério da Economia e no Banco Central. No jornalismo, os adjetivos eram os mesmos da campanha publicitária que enganou os brasileiros sobre a necessidade da reforma. A reforma era necessária e urgente para garantir a aposentadoria dos Brasileiros.

A operação para “comprar” coberturas jornalísticas nem precisa ser complexa ou dispendiosa (afinal, o que são R$ 7 milhões para um banco que lucrou R$ 21,5 bilhões no ano passado). Basta garantir que a “causa” esteja vinculada aos valores das elites nacionais ou planetárias. O investimento pode ser em dinheiro para os empresários ou até em comida ou presentinhos baratos para os jornalistas, o que costuma ser suficiente aqui nas terras potiguares. Depois, é só dar um jeito bem charmoso, com um design arrojado e uma linguagem leve para garantir que tudo pareça verdade, ainda que esteja afundando num profundo atoleiro de mentiras.

Pronto, está comprado o jornalismo. Está vendida a sua causa.

E assim seguimos na nossa fictícia democracia, baseada em fatos fabricados artificialmente para parecerem reais.

 

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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