OPINIÃO

O Leblon pode ser aqui em Natal

Acompanhamos todos o que se viu na cidade do Rio de Janeiro, onde o prefeito Marcelo Crivella autorizou a reabertura de restaurantes e bares. Na primeira noite com bares abertos, nos chocamos com os vídeos de gente aglomerada no bairro do Leblon, conhecido pelo alto padrão de vida e elitismo.

O que percebemos das imagens também é que não se tratou, em grande parte, de pessoas aliviadas por saírem da fadiga do confinamento e querendo uma válvula de escape de maneira segura. Era gente negacionista mesmo, afrontando o isolamento, fazendo questão de não usar máscara e aglomerar. Em um dos vídeos um homem gritava com termos e posturas do presidente: “Ei, Corona, vá tomar no cu!”. Outro, também reverberando o dito cujo, ria que o Covid era um exagero, enquanto debochava dos garçons de máscaras e bebia gostosamente seu chope. Triste. Para não dizer canalhice mesmo.

Agora, vamos ao nosso rincão potiguar. O Governo do Rio Grande do Norte confirmou na segunda-feira passada a retomada das atividades econômicas do Estado, tendo iniciado por diversos setores na quarta-feira (1º), e pelo cronograma, outros estabelecimentos poderão voltar a funcionar nesta terça, 7, e quarta, 8. Entre eles, bares e restaurantes.

O decreto é específico e detalhista: estão autorizados a abrir serviços de alimentação de até 300m² (restaurantes e food trucks); com máximo de quatro pessoas por mesa e distância mínima de dois metros entre as mesas e de um metro entre pessoas, retirando-se ou identificando-se as mesas e cadeiras que não poderão ser utilizadas; e também a proibição de venda e consumo de bebida alcoólica no estabelecimento. Pelo decreto,  somente deve ser autorizado o acesso ao estabelecimento do cliente que estiver fazendo uso de máscaras e retirá-las somente para as refeições e haver aferição de temperatura de clientes e fornecedores, antes de qualquer contato com os colaboradores.

Bem, as normas parecem rigorosas e dentro das recomendações da OMS e dos especialistas. Mas, minha pergunta é: o natalense médio pretende ou irá cumpri-las? Vai respeitar os chamados protocolos de segurança?

Estamos falando de um lugar onde donos de veículos não respeitam vagas de estacionamento de pessoas com necessidades especiais. Onde boa parte dos motoristas não respeita um sinal vermelho. Onde tem gente que briga com gerente de supermercado para entrar sem máscara.

O Brasileiro médio tem horror a protocolos. E o natalense médio ainda mais, da mesma maneira que detesta qualquer ideia de ação ou bem estar coletivo.

No Leblon, onde o isolamento foi meia boca, como em grande parte do Rio de Janeiro, o retorno dos bares e restaurantes foi uma ação coletiva (ops) de desrespeito aos mortos e aos internados, assim como aos profissionais da linha de frente. Por que em Ponta Negra, Petrópolis ou Tirol, lugares de Natal em muito assemelhados ao Leblon (em termos de comportamento humano) o quadro seria diferente? Natal e o RN como um todo vem fazendo também um isolamento social de araque.

Com distanciamento social oficializado por decreto e bares fechados, já observávamos em Natal e muitas cidades do Estado, feiras livres lotadas, gente caminhando nas ruas como se não houvesse amanhã, festas, praias mais cheias do que o desejado. Graças à falta de pulso do Estado, à complacência cínica de prefeitos e do poder econômico e sob o espectro negacionista e genocida de um (des)governo federal. Mas, de qualquer maneira a população tem sua culpa no cartório. A chamada elite sócio-econômica, que tem recursos e sabe que não precisará entrar na filha do SUS para ser entubado, ainda mais.

Desejo estar errado e que eu seja obrigado a engolir este texto, o que farei com prazer, mas, a julgar pelo meu conhecimento das elites sócio-econômicas de Natown, cidade que respira ares americanizados e que deu maioria de votos a Bolsonaro, para o quadro dos nada inocentes do Leblon ser reproduzido aqui nos citados bairros, não precisa muito.

Torço que não. Esperemos. Com máscara e álcool em gel.

 

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