OPINIÃO

O luto de milhões de brasileiros

Escrevo estas linhas como uma forma de elaboração de um processo doloroso que nunca imaginei viver: na última quarta-feira, recebi a notícia do falecimento da minha tia Francisca, a mais nova entre as irmãs da minha mãe, vítima da Covid-19. Uma doença que transforma uma pessoa saudável em um paciente terminal em questão de horas.

Mas não é assim com todo mundo, pois, há quem seja infectado pelo novo coronavírus e não sinta nada, há quem sinta um grande mal estar e se recupere após algumas semanas, há quem precise de internação na Unidade Terapia Intensiva e sobreviva após uma árdua batalha pela vida. Por existirem esses casos é que a gente não entrega os pontos, não perdemos a esperança até o último minuto. Porém essa doença é implacável e a dor avassaladora, ao recebermos a notícia do óbito de um ente querido.

Após 10 dias na U.T.I. do Hospital de Campanha de Natal, minha tia Francisca nos deixou, aos 59 anos de idade. Ela iria completar 60 no dia 1º de abril e tinha muitos planos para quando essa pandemia acabasse. Semanas antes, no início de março, um colega de trabalho faleceu de uma hora para outra, também pela Covid-19. Na última vez que vi o Irmão Josenildo, ele aparentava plena saúde, com a alegria que lhe era característica, sem nenhum sintoma gripal. Mas por ter testado positivo para a Covid, era prudente ir para casa ficar em quarentena. Contudo, seu quadro se agravou, ele precisou ir para a U.T.I. e assim como tia Francisca, não resistiu às complicações da doença.

Como eles, já são mais de 310 mil pessoas que morreram após o contágio pelo novo coronavírus, um número que cresce a cada dia. E em tempos de negacionismo, cujo principal porta-voz das mentiras é o Presidente da República, é preciso enfatizar: esse não é um número abstrato, como uma conta qualquer que a gente imagina quando está aprendendo matemática. São pessoas reais, as quais ainda estariam vivas se tivessem tido condições de fazer o isolamento social. Isso, talvez, seja o que dói mais nesse luto, a evitabilidade dessas mortes, se não na totalidade, de uma grande parte delas.

As mensagens de pesar que recebi, vinham acompanhadas de frases como: “também perdi minha tia para essa doença”, “acabo de perder minha cunhada para a Covid também”, “perdi minha tia na última segunda-feira”, “há 15 dias perdi meu tio para a Covid”, “também perdi uma tia e sei o quanto é difícil”.

A forma como nos despedimos sem poder velar e render homenagens aos nossos entes queridos, sem abraços aos que ficaram, o distanciamento que precisamos manter para preservar nossas vidas, enquanto vemos uma pessoa que amamos ser enterrada, traduz a crueza de uma dor solitária, ao mesmo tempo compartilhada na sua singularidade, com milhões de brasileiros.

Mais uma vez, quando dizemos que são milhões de brasileiros em luto, não estamos nos referindo a algo inanimado, apenas uma somatória de grandes proporções, estamos falando de pessoas como nós, que precisam lidar com a profunda angústia que martela nas nossas cabeças a todo instante: “essa morte poderia ter sido evitada”.

Além disso, gostaria de dizer que não foi falta de ivermectina que levou minha tia a precisar de intubação para respirar, pois ela, assim como outras tias, e diversos parentes tomavam esse medicamento “preventivamente”. Vários deles, até mais velhos que ela, foram infectados pelo coronavírus e conseguiram se recuperar, mas minha tia não.

Temos a pesarosa prova que a única coisa que poderia ter salvo a vida da minha tia seria o isolamento social, até que fosse imunizada pela vacina, mesmo assim, tenho parentes que afirmam que seguirão tomando vermífugo na expectativa de prevenir complicações se contraírem a Covid-19.

Assim, concluo, que meu processo pessoal de assimilação dos acontecimentos parece me conduzir a um túnel, sem uma luz no fim, onde a impermanência da vida corpórea, infelizmente não tem significado o maior desafio da existência para todo mundo, a ponto de unirmos todas as pessoas pela preservação daquilo que temos de mais precioso, a vida.

 

 

 

 

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Aline Juliete
Aline Juliete de Abreu é advogada, Mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Urbanos e Regionais (UFRN), feminista negra e ativista pelos direitos humanos

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