OPINIÃO

O meio e a mensagem

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É difícil ser pedestre no Brasil. Digo mais, o pedestre no Brasil é um herói. Andar pelas calçadas, ruas e avenidas está cada vez mais perigoso. Principalmente, pelas calçadas. Tudo pode ser estacionamento hoje em dia. O cidadão – seja de mal ou seja de bem – sofre com a falta de vagas.

Curiosamente, este não é o caso do dono ou da dona de um celta branco que vejo sempre estacionado no mesmo lugar quando passo no caminho do trabalho. Fico imaginando a metódica tarefa de sair sempre no mesmo horário, só para não perder a vaga. Talvez ele precise fazer escolhas muito sérias: um café da manhã reforçado ou o carro numa região movimentada, com sombra e, o melhor, sem taxas?

Não restam dúvidas: trata-se de alguém sistemático, como dizem no interior. Ou um compulsivo resolvedor de problemas, um aficionado detalhista. Seu carro passa essa mensagem. Essa e outras mensagens. Tudo começou com uma bandeira do Brasil, coisa pequena, um adesivo na parte traseira. Era copa do mundo e, embora a seleção já tivesse reduzido nossas ilusões a pó, há otimistas por toda parte.

Pois veio agosto, setembro e as mensagens se tornavam mais explícitas. Primeiro um “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”; depois um, pasmem, “Brasil, ame-o ou deixe-o” e teve até o grotesco “Sérgio Moro, livrai-nos de todo o mal” junto de um usual “Mito”. O ano acabou, chegou 2019 e o veículo mais parecia um carro alegórico. E tudo bem. Tirando a grosseria e até a cafonice de alguns recados, esse ainda é um país livre. Assim como é livre o pensamento.

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Por isso não pude deixar de reparar quando os enfeites foram ficando mais tímidos. Os rostos famosos deram lugar a mensagens genéricas e a um patriotismo desesperado e oportuno. “Meu partido é o Brasil”; “Pátria amada, Brasil”. Surpreendentemente, a bandeira brasileira, que cobria todo o banco da frente, saiu de cena. É melhor ser discreto… e patriota.

De tão comedido, já não o vejo há semanas. Terá perdido a hora todo esse tempo? Ascendeu financeiramente e já não precisa barganhar vagas? Largou o trabalho? Mudou de carro? Não sei o que é feito desse cidadão. Mas onde estiver, certamente estará torcendo pelo Brasil.

 

 

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Ana Clara Dantas
Ana Clara Dantas é jornalista e escreve às sextas-feiras

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