OPINIÃO

O melhor dos mundos possíveis

Alex de Souza escreve às terças-feiras

Mais alguém sentiu falta de minha coluna na quinzena passada, além de Rafael Duarte e Oswaldo Ribeiro? Pois bem, a questão é: eu travei. A realidade às vezes é muito cruel e pesada demais para mim, então não consegui me animar para escrever sobre nada. Ou melhor, há quinze dias havia um assunto inescapável: o assassinato da vereadora carioca Marielle Franco, do PSOL, e seu motorista, Anderson Gomes, numa ação com cheiro, cara e cor do crime organizado do estado do Rio de Janeiro. E, sinceramente, eu não tinha ânimo, estômago, vontade ou qualquer coisa que o valha para dar, também, meu pitaco.

Porque, pior que o crime e seu simbolismo, foram as reações provocadas pela repercussão do acontecimento. Hoje, no Brasil, todo mundo é especialista em tudo, principalmente naquilo de que não entende. E as pessoas, parece, perderam a capacidade de se comover e solidarizar com o sofrimento alheio, principalmente quando se identifica, no outro, um adversário, que não deve ser apenas combatido: deve ser silenciado e apagado.

Então, pior do que o baque da morte da Marielle, foi presenciar o esforço descomunal empreendido por várias pessoas, seja por quais motivos, para diminuir sua figura, questionar sua história de vida e, principalmente, caluniar alguém que, por motivos óbvios, é incapaz de se defender. Enjoado e enojado, confesso que joguei a toalha e desisti do mundo.

Mas, calma, se você está lendo essas linhas, isso significa que não apelei ao suicídio. Apenas me senti pequeno, inútil e acho que meu silêncio contribuiria bem mais com a discussão. Na falta de um mundo melhor, fui atrás de outro. “Mas mundo é que nem mãe: só tem um”, você pode argumentar. Mário Ledo Ivo engano, amigo leitor. Na falta de grana para uma passagem para os países escandinavos, ou mesmo por acreditar que nem lá é essas coca-colas todas, muita gente tratou de imaginar mundos mais interessantes, justos, bacanas. Tem quem chame isso de “literatura”, eu chamo de “terapia grátis”.

Na verdade, fui atrás daquele que serviu de inspiração a todos os outros mundos melhores já pensados – deu até origem ao termo usado para tais lugares: a ‘Utopia’, do inglês Thomas More. O sujeito era um carola católico que escolheu um período meio ruim para ser quem foi (como se, olhando em retrospecto, houvesse um bom).

Vindo de uma família de legisladores abastados na Inglaterra, teve uma carreira meteórica como estadista. Em seis anos, passou de representante na Casa dos Comuns a Lorde Chanceler do rei. O problema, como disse antes, foi de timing: era o auge do Renascimento e, na Inglaterra, não tão de boa ser um católico fervoroso. Veio a Reforma Protestante e Henrique VIII, doido para se livrar da esposa, Catarina de Aragão, resolveu que o jeito mais fácil seria fundar a própria Igreja, a Anglicana, que coincidentemente tinha como chefe supremo o rei da Inglaterra.

Homem de princípios, More se recusou a reconhecer a presepada toda, faltou ao casamento do rei com Ana Bolena e perdeu o cargo. Mais adiante, recusou-se a jurar fidelidade à nova igreja – e perdeu a cabeça. Porém, nesse ínterim, produziu um punhado de obras, entre elas a ‘Utopia’, que você encontra fácil naquela velha coleção ‘Os Pensadores’ que tá mofando aí na sua casa (se você não tem em casa uma coleção Os Pensadores, incompleta, um ‘A Cura pelas Plantas’ e uma ‘Bíblia Sagrada’, você não é brasileiro e não sei o que está fazendo lendo isso aqui).

Era o Renascimento, né? E More era um renascentista dos quatro costados. Um dos grandes chapas dele era um tal de Erasmo de Roterdã (outro carola lá dos Países Baixos, que escreveu o ‘Elogio da Loucura’) e traduziu a autobiografia de Pico Della Mirandolla, o italiano meio pirado que praticamente inventou essa onda de Renascimento.

Para além da vida política e religiosa atribulada, ser inglês não era grande negócio naquela época. Como consequência das Grandes Navegações, milhares de camponeses foram expulsos dos campos, agora usados para a produção de lã, levando hordas de pobres e desempregados para as cidades, o que pavimentou o caminho para a vindoura Revolução Industrial. Era uma pobreza fudida, enquanto chegavam relatos e mais relatos de ‘selvagens’ que viviam num bem-bom danado do outro lado do Atlântico.

More achava tudo o que via muito errado e como ele era esperto, mas não era doido de criticar as instituições das quais fazia parte, resolveu criar um lugar imaginário onde essas mesmas instituições ou não existiam, ou existiam de acordo com o que ele considerava melhor. Assim surgiu a Utopia, um lugar maravilhoso, mas que nunca existiu nem existirá (a palavra vem da raiz grega U+Topos, não+lugar).

Um dos aspectos mais interessantes da Utopia moriana é, pela primeira vez no mundo ocidental, alguém defender que o grande problema desta civilização seja a propriedade privada. Isso faz de More uma espécie de ancestral dos socialistas, ou, por que não?, um santo padroeiro, já que o sujeito foi canonizado no comecinho do século 20. Outro lance causava arrepios eróticos nos soviéticos era que tudo se resolvia por meio do Estado, que se não era tão centralizador, como pensou Lênin, era inquestionável, como fez Stálin.

Mas o engraçado é que, entre as fortes declarações que More coloca na boca de seu personagem-narrador, é possível encontrar germes de pensadores tão díspares como o anarquista Bakhunin e a rainha dos liberais, Ayn Rand.
Vejamos o primeiro caso:

“Qual o homem que mais deseja uma revolução? Não será aquele cuja existência atual é miserável? Qual o homem que revelará maior audácia em subverter o Estado? Não será aquele que com isso só pode ganhar por nada ter a perder?”

E agora o segundo:

“A riqueza e a liberdade conduzem à insubordinação e ao desprezo da autoridade; o homem livre e rico suporta com impaciência um governo injusto e despótico”.

Parece até duas pessoas diferentes brigando pelo Facebook, mas querendo algo parecido.

O mais interessante é que o melhor lugar do mundo que se possa imaginar é fruto do período onde se vive, a gente tá mergulhado na lama da história para onde quer que se vire. Assim, a Utopia não é perfeita, ela tem problemas e contradições que fazem muito sentido quanto mais a gente se afasta época em que ela surgiu. Por exemplo, apesar de sutil, o papel das mulheres nessa sociedade ideal é um tanto quanto subalterno. Lá também se faz uso de mão de obra escrava, afinal uma terra de esclarecidos precisa de alguém para executar aquelas tarefas consideradas indignas. More também fala abertamente no uso da força como direito legítimo dos povos, apesar de os utopianos fazerem uso de seus tesouros (que não têm validade alguma em sua sociedade) como instrumento para a contratação de exércitos mercenários para fazer a guerra em seu lugar. Perfeito não é, mas é o que temos para hoje.

O que me incomoda é que hoje parece termos perdido a capacidade de imaginar um mundo onde as coisas podem dar certo. Vá na lista de mais lidos entre os jovens e adolescentes: até um dia desses, era ocupada por várias distopias, ou seja, mundos imaginários onde tudo deu mais errado do que já é. Nem aqueles que deveriam carregar a tocha escapam da tentação de usá-la para tacar fogo em tudo, em vez de acender uma fogueirinha no meio da noite.

É cada vez mais difícil surgir um livro como ‘Os Despossuídos’, de Ursula K. Le Guin, que se esforça em imaginar que as coisas podem sim dar certo. Ninguém quer mais ter o trabalho de construir um mundo diferente, nem que seja na imaginação. Porque aqueles que tentam construí-lo, de verdade, esses a gente já sabe como terminam…

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Alex de Souza é jornalista e escreve aos sábados