OPINIÃO

O Ministério Pícaro do Tempo

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Imagine-se voltando ao passado para consertar um erro. Agora se imagine sendo designado para uma missão oficial, do governo, que envolva ir a outra época impedir que um fato histórico seja alterado. Pode ser a mudança no desfecho de uma guerra, a morte de uma figura importante ou o resultado de uma eleição. Imaginou? Pois essa é premissa de O Ministério do Tempo, série espanhola que, em suas três temporadas, já impediu a morte de Lope de Vega, o roubo do Guernica e salvou a guerra de independência da Espanha de ser vencida pela França.

Produzidas pela TVE, a televisão estatal espanhola, as duas primeiras temporadas tiveram um orçamento tímido, se comparado ao de séries norte americanas. Aspecto compensado pelo inventivo roteiro e fortalecido na terceira e mais recente temporada, enriquecida com a co-produção da Netflix, plataforma onde todos os episódios estão disponíveis. Quando foi lançada, em 2015, a série teve grande aceitação de público, que nas redes sociais levou as menções à produção aos trending topics.

Apesar da temática afeita à ficção científica, O Ministério do Tempo não envolve teorias complexas e não se propõe a explicar detalhadamente como se processam as viagens no tempo. Tanto melhor. Basta que se saiba que o mistério, compartilhado desde os tempos da Inquisição como segredo de Estado, serve para evitar que ladrões e trambiqueiros alterem o curso da história. Questões como a idade dos funcionários, por exemplo, são explicadas com naturalidade ao longo dos episódios: o tempo passa para eles normalmente, como se estivessem em sua época, e não em 2015. Mas o ir e vir no tempo lhes provoca alguns malestares e dilemas.

Evitando adentrar em controvérsias políticas, a série se centra, principalmente, em motes culturais e consensos nacionais. O episódio em que os funcionários tentam impedir que o Guernica vá parar em um museu norte americano, por exemplo, é de um exercício imaginativo delicioso: em uma das cenas, Velásquez e Picasso tomam café, enquanto falam de suas preferências artísticas. Velásquez tenta arrancar de Picasso uma declaração de admiração e só ouve loas a Goya. Mas consegue arrancar um “Velásquez é um mestre” do interlocutor, que não sabe que está diante do pintor já falecido.

A produção é um deleite para admiradores de romances históricos e séries investigativas. Peca, em alguns momentos, pelo ritmo novelesco, um problema de outras produções similares daquele país, mas conquista por se aproximar de um gênero que em que a literatura espanhola foi particularmente bem sucedida: o romance picaresco. A sátira, o determinismo e o realismo estão todos ali. Não é raro ouvir do chefe do Ministério pérolas como: “improvisem, afinal de contas vocês são espanhois”.

Acompanhar cada aventura revela, curiosamente, o quão somos parecidos com nossos antepassados ibéricos. O improviso que virou “jeitinho”, as formalidades que redundaram em burocracia que se burla cotidianamente. E instiga à irresistível indagação quanto a como seria uma série nacional com a mesma premissa. Estariam os funcionários de um ministério do tempo tupiniquim aptos a impedir as mudanças no curso da história sem atuar em benefício próprio? Seriam bem sucedidos em seus intentos?

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