OPINIÃO

O mundo me obriga a desconectar

Terminamos mais uma semana de tragédias em 2019. Não tenho provas, mas tenho convicção de que nunca sofremos tanta violência em tão pouco tempo. Em uma semana, 157 vidas caíram do céu na Etiópia, perdemos dezenas de esperanças em uma escola de Suzano, completamos um ano sem Marielle e sem saber quem mandou matar Marielle e ainda acordamos (ou sequer dormimos) aterrorizados com os massacres na Nova Zelândia.

O que antes chegava por escrito em uma edição de jornal, pelo rádio na mesa do café da manhã, ou ainda com sons e imagens à noite no sofá da sala, agora nos persegue em toda parte, sem um segundo de sossego. Os noticiários reportam tragédias em tempo real, sem parar para refletir onde tudo isso vai nos levar. Mal dá tempo de terminar uma tragédia e seguimos direto para a próxima.

Se antes, as notícias eram seguidas de comentários casuais entre parentes e amigos, nas redes sociais, os acontecimentos ganham camadas informativas que vão muito além do jornalismo. São doses de detalhes – alguns com requintes de crueldade – que inundam nossos sentidos e podem deixar a realidade insuportável.

Ainda somos os mesmos, mas não vivemos mais nas mesmas aldeias que nossos ancestrais. Quanto mais conectados e midiatizados vivemos, mais precisamos aguentar as dores do mundo. Mal sobra tempo e dinheiro para aproveitar as delícias que, dizem, por aí estão. A tragédia da vida cotidiana ocupa o topo das páginas, dos feeds, das timelines. Não adianta criar filtros e táticas para evitá-las, em algum momento, elas vão te acertar em cheio.

Talvez a única saída seja desplugar, desconectar, ficar fora do ar.

É quase como a meditação da vida contemporânea. Alguns instantes, horas ou até dias (para os mais afortunados) sem acesso à internet, sem televisão, sem rádio e sem notícias podem recobrar nossa capacidade de enxergar saídas para uma realidade marcada pela ascendência de facistas, supremacistas, terroristas e milicianos.

Uma pena que eu sou jornalista e, por essas horas, já estarei densamente atualizados das tragédias desta segunda-feira.

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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