OPINIÃO

O não-lançamento do ano

Natal está surpreendentemente bem servida de estreias no cinema esses dias, com filmes interessantes como “Vice” e “Infiltrado na Klan”, o mais recente de Spike Lee. O anúncio do não lançamento de um filme, porém, foi o grande assunto da semana, depois que a Universal anunciou que não iria lançar “Boy Erased – Uma verdade anulada” nos cinemas do país.

Estrelado por Nicole Kidman, Russell Crowe e Lucas Hedges, “Boy Erased” é baseado no livro autobiográfico de Garrard Conley, que aos 19 anos viu a família reagir negativamente ao anúncio de sua homossexualidade. Filho de um pastor da igreja batista, é obrigado a entrar num programa de terapia que promete “curá-lo”.

A opção pelo não lançamento nos cinemas causou espanto: elogiado pelas atuações de Kidman e Hedges, indicado inclusive a um Globo de Ouro por sua atuação, o filme estava programado para estrear por aqui no último dia 31 de janeiro. O assunto virou tópico nas redes sociais no último domingo (3), depois que o ator Kevin McHale, da série Glee, postou no Instagram a seguinte mensagem:

“Queridos brasileiros, Boy erased acabou de ser banido no Brasil. Seu presidente está CENSURANDO conteúdo LGBT+. Banir um filme sobre os perigos do conservadorismo é PERIGOSO! Bolsonaro é uma ameaça à vida dos LGBT. Amo o Brasil e vou lutar com vocês”.

O presidente veio às redes sociais e desmentiu o fato. Disse que a acusação era mentirosa e concluiu com um “Tenho mais o que fazer”. A Universal, distribuidora do filme no Brasil, afirmou, por meio de nota, que não lançaria o filme nos cinemas “única e exclusivamente por uma questão comercial baseada no custo de campanha de lançamento versus estimativa de bilheteria nos cinemas”.

Tive a sorte de assistir a uma entrevista concedida por Conley ao jornalista Jorge Pontual, exibida na última segunda-feira (4) pela Globonews. Nela, ele comenta como funciona a terapia de conversão, que iguala gays, pedófilos e zoófilos, e explica como pôde se reconciliar com os pais, apesar do “insucesso” da tentativa.

Em determinado momento, ele explica porque considera que a experiência contada no livro é motivo de identificação pelo mundo. “Jovens gays me dizem que vêem a vida que levo em Nova York, os bares gays, a parada gay, e tudo isso para eles parece fantasia”, diz Conley. Segundo ele, para muitos garotos, a realidade que ele viveu no passado, no interior do Arkansas, é a realidade de hoje.

E é a realidade para muitos jovens no Brasil. No país que mais mata LGBTs no mundo, o Congresso chegou a discutir a proposta de um deputado da bancada evangélica que pretendia anular trechos de uma resolução do Conselho Federal de Psicologia (CFP) que proíbe os profissionais da área de colaborar com eventos e serviços que ofereçam tratamento para a homossexualidade. O CFP proíbe, desde 1999, que profissionais da área tratem a homossexualidade como doença ou desordem psíquica. A proposta discutida pretendia reverter esse trecho da resolução. O assunto voltou à tona em 2017, quando a decisão de um juiz federal autorizou que psicólogos ofereçam terapias de reversão sexual.

As terapias de conversão, ou “cura gay”, são informalmente realizadas em muitas igrejas no Brasil, que pregam que orientações sexuais, identidades de gênero e expressões de gênero não-heteronormativas são anormalidades ou pecado grave.

Neste cenário, promover o lançamento de “Boy Erased” deveria ser uma bandeira em defesa dos direitos civis. Uma manifestação de garantia de direitos, exercício de cidadania. Mas os argumentos da distribuidora revelam uma autocensura dos novos tempos: para que contrariar um público conservador, que elegeu uma bancada religiosa que mais que dobrou, desde 2006? Pode não ter havido censura expressa, mas o medo do prejuízo é sintomático.

Em tempo: “Boy Erased – Uma verdade anulada” será comercializado no Brasil, em Dvd e Blu-ray, a partir de 17 de abril.

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