OPINIÃO

O nosso dilema de Henfil

Em meados de 1976, Henfil, o cartunista da Graúna, do Bode Orelana, do Zeferino de Andrada e de tantos outros personagens incríveis, veio morar em Natal. Henfil tinha 34 anos, retornava de uma temporada nos E.U.A. e seus desenhos podiam ser vistos no carioca Jornal do Brasil, na revista “Fradim”, editada pela Codecri, entre outros.

As tirinhas com seus personagens passaram a ser publicadas na Tribuna do Norte a partir do dia 1o de setembro de 1976. Nesse dia, um retângulo que ocupava o espaço de quatro colunas do jornal estava ao pé da página 4, do lado esquerdo. No alto do retângulo, no canto esquerdo, letras cursivas anunciavam: “Henfil do alto da Caatinga” e, logo abaixo, um misto de letras cursivas e desenhadas apresentava o personagem principal e o título da estória: “Zeferino de Andrada em O Radicão”. A história dos quadrinhos era, mais uma vez, uma zombaria ao suposto “atraso” da Caatinga em relação ao “Sul Maravilha”. Por dois anos, os potiguares se deliciaram com a arte de Henfil sendo feita no (e referindo-se ao) sertão nordestino, que ele quis conhecer in loco, embora, como bom mineiro, tenha preferido passar mais tempo na beira da praia.

Certa vez, ouvi o jornalista Woden Madruga, muito amigo do cartunista e que com ele manteve estreita convivência antes, durante e depois da passagem por Natal, contar que, quando foi apresentado ao prefeito da cidade, o Sr. Vauban Bezerra de Farias, Henfil teria feito a ele um pedido solene: “Senhor prefeito, por favor, não deixe Natal crescer!”. Todos riram muito e entenderam o que atraía o cartunista em Natal.

Durante sua estada aqui, continuou trabalhando para o Jornal do Brasil e, para enviar desenhos e receber pautas, Henfil utilizava uma novidade recém-inaugurada no RN: o fac-símile, conhecido como “fax”. O aparelho enviava e recebia imagens através de linha telefônica (explico, porque pode haver leitores que não os conheceram). A rede de telefonia do RN vinha sendo modernizada pelos governos militares a ponto de receber essa e outras novidades, como os orelhões, por exemplo. Os telefones públicos, conhecidos assim por causa do formato, também foram tema das sátiras de Henfil. As tirinhas sobre o orelhão na Caatinga são impagáveis!

Para estar atualizado com os fatos que seriam matéria-prima de suas charges, Henfil assistia ao Jornal Nacional da Rede Globo na casa do compositor Mirabô Dantas, seu vizinho na Praia do Meio, que tinha uma TV em preto e branco suficientemente boa para o propósito. Nem a linha de fax nem a transmissão de TV funcionavam com a constância necessária para o artista manter a regularidade nos seus compromissos de trabalho. Não deve ter sido fácil cumpri-los com a tecnologia que tinha à mão. Ainda que não desejasse ver Natal crescer e igualar-se às demais capitais, Henfil precisava das modernidades para manter-se trabalhando para o “Sul Maravilha” e vivendo na paradisíaca Natal dos anos 70. E, muito embora eu não possa afirmar, imagino que perdeu seu lugar no paraíso por falta de tais facilidades.

Hoje, quarenta anos depois que Henfil deixou de morar na cidade, nós que aqui vivemos temos os mesmos desejos contraditórios do cartunista mineiro: gostaríamos de viver nesta cidade linda, próxima ao mar, a rios, a mangues, a matas, gostaríamos de poder trabalhar da forma que a vida moderna exige, e gostaríamos, principalmente, de viver em segurança – problema que Henfil não encontrou aqui nem quando chegou nem quando deixou Natal.

Onze prefeitos estiveram à frente da cidade depois de Vauban Bezerra; nenhum deles pode atender o pedido feito dramática e jocosamente por Henfil, em 1976. Inexoravelmente, Natal cresceu. E eu fico imaginando o que, em 40 anos, poderia ter sido feito para que a cidade pudesse ter encontrado uma maneira mais humana de crescer e se modernizar, e nós pudéssemos viver desfrutando o melhor deste paraíso.

 

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1 Comment

  1. Só Deus sabe a sensação que tive quando conheci Natal, ainda criança, trazida pelo meu pai para uma consulta médica, ainda nos anos 60, e vi o mar, aquele navio que ele me levou para conhecer e aquela cidade ainda rasteira. Voltando em 78 para me inscrever no vestibular, subi a ladeira do sol em cima de um caminhão que uns amigos de meu pai tinham e no qual me trouxeram de Candelária para a Praia do Meio. Quando vim morar definitivamente aqui, fiquei em Petrópolis por uns dez anos descendo e subindo aquela mesma ladeira em busca de diversão, a pé, sem nenhuma vez sequer sermos importunadas(os). Nesse período, tínhamos uma biblioteca, um teatro e dois cinemas ali pertinho, dava pra ir a pé para todos esses lugares, fora três boates, inúmeros bares e restaurantes, barraquinhas de praia e campeonatos de surf, além da faculdade na esquina do Atlântico, vendida pelo sr. Ivanildo Rêgo, reitor da UFRN na ocasião, para a especulacao imobiliária. Que mais podia querer uma caicoense ávida de saber e de alegria? Todas as exposições de arte aconteciam na biblioteca, atualmente fechada, projeto Seis e Meia e Pixinguinha, Cia Stabanada de Teatro com os geniais Chico Vila, Marcos Bulhões, João Marcelino, Clotilde Tavares, no teatro Alberto Maranhão, cinema de arte no Cine Rio Grande, shows no Juvenal Lamartine e no Palácio dos Esportes, e aquele mar, a barraca da marlene, o casa velha, iara bar….tudo a pé. Hoje, o que resta desses espaços culturais da cidade? Li outro dia no Facebook: ” Onde falta cultura, a violência se torna espetáculo”. Tenho muita pena dos jovens de hoje, que se encapsulam dentro dos carros que os levam pra escola, de lá pro shopping, de lá pra casa, sem pisar nesse chão que pisei.

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