OPINIÃO

O novo Coronavírus não morreu

Lockdown, calamidade pública, isolamento social ou libera geral: seja em que estágio se encontra o estado onde você reside no país, certo é que ninguém está preparado para o “novo normal”, assim como o mundo não estava preparado para esta pandemia. Esse período da história transformou de vez as nossas vidas, desde os pequenos hábitos até todo o resto da existência em sociedade, e ainda não entendemos exatamente o quanto. Só sentimos. E se temos alguma certeza com relação a como será o mundo pós-pandemia de Covid-19 é que “o futuro não é mais como era antigamente”, como tentou avisar o profeta Renato Russo em um dos versos mais enigmáticos da canção “Índios”, lançada em 1986.

A começar pelos próprios sentidos e pesos das palavras. Mesmo sem qualquer definição concreta do porvir, as frases mais repetidas dos últimos tempos começam, fatalmente, com “quando tudo isso passar” seguidas das mais diversas promessas, daquelas que nem ousamos fazer a cada ano novo, de tão absurdas, porque ninguém faz ideia de quando ou se poderão ser cumpridas. “Tudo bem?” é outra expressão que já nasceu retórica e atualmente não tem nem a menor vergonha de admitir isso. De fato, ninguém está muito bem faz mais de seis meses e o foco nem é mais “estar bem”, mas sim “sobreviver”.

Eu, por exemplo, tenho sobrevivido à base de surtos leves duas ou três vezes ao dia, porque ficou caro demais pagar a dose extra de ansiolítico e o tempo no ritmo whatsappiano voa sem ligar se é feriado ou final de semana, transformando tudo numa interminável segunda-feira, dessas que têm se multiplicado em looping infinito, sem descanso, nem piedade. Aliás, enlouquecer vez em quando já é um novo hábito que se une às demais fobias, hipocondrias, e manias, intensificadas pelos olhares fiscalizadores de raio-x que a vigilante sociedade, mesmo que ainda não tenha aprendido a olhar o próprio umbigo, usa para policiar e recriminar quem acaso ousa deixar de seguir, por um minuto, qualquer recomendação da OMS ou protocolo de segurança fixado em lei.

Dia desses minha filha saiu de casa depois de tempos totalmente reclusa, pegou o elevador, e ao deixar o prédio, deu de cara com outros moradores das proximidades que a olharam com censura imediata, o que bastou para ela perceber o crime que cometia: estava sem máscara e retornou rapidamente para resgatar o indispensável acessório (e certa dignidade). Com seus múltiplos modelos, alguns de efetividade duvidosa no quesito proteção, apesar de belíssimas, as máscaras são as novas roupas íntimas do ser-humano, e algumas até se confundem mesmo com elas. Sair de casa sem máscaras equivale hoje, então, àquele pesadelo recorrente de ir pra escola sem ter vestido as calças.

Mas o uso de máscaras e de álcool em gel são apenas detalhes dentre tantos outros hábitos que nos vimos obrigados a adotar. A cada passo fora de casa, damos início uma verdadeira ginástica necessária à adaptação a esses dias insípidos. Uma rotineira crise de espirro por exemplo, própria de quem sofre de rinite, pode ser vista como um ato terrorista, se não for seguida de uma manobra arriscada para conter as gotículas, mesmo de máscara, com uma espécie de golpe de jiu jitsu envolvendo um rápido levantamento de um dos braços até a boca, o que pode trazer graves consequências para a lombar ou o ciático.

E se for num transporte público então, nem adianta justificar a quem estiver ao redor que se trata de uma simples alergia. Por outro lado, essa pode ser uma ótima arma para afastar pessoas desagradáveis ou conseguir um vaga na lotação. Enfrentar a ida ao trabalho e a volta pra casa também tem sido um desafio à gravidade, inclusive, visto que no metrô todo passageiro parece paralisar no momento em que precisa escolher se segura ou não em alguma barra para se apoiar quando o trem pára nas estações. Eu mesma já levei duas quedas nessa dúvida cruel: pego na barra e pego Covid, ou só deixo a vida me levar?

Tive também que largar a minha velha mania de me encostar nos lugares, feito lagartixa, desde cantos de parede até balcões de lojas ou mercados. E andar de elevador também se transformou num risco evitável, com recomendação expressa do condomínio para uso exclusivo de no máximo duas pessoas de máscara. Com isso, minhas pernas estão mais resistentes, já que frequentemente subo ou desço quatro lances de escada. Aliás, admiro muito os meus vizinhos de andar, que rapidamente providenciaram um sapateiro nas portas para largar os calçados “Covidizados” do lado de fora da casa. Juro que tento fazer o mesmo, mas confesso que sinto uma certa vergonha da possível contaminação do ar ambiente por um eventual chulé.

E por falar em vizinhos, em todo condomínio existe lá ao menos um ou dois que declararam abertamente ter pego Covid-19, se tornando uma espécie de bruxa do novo milênio, mesmo que resguardado o sigilo da identidade, que na verdade todo porteiro e zelador sabe exatamente de quem se trata, já que instruídos para sanitizar de forma mais caprichada o andar do contaminado. E pelo jeito uma coisa que a Covid-19 não é capaz de matar é mesmo a tal curiosidade, que nesses tempos nos transformaram naquela fofoqueira da janela da vila, onde: ninguém mais pode morrer sem que se pergunte se “foi de Covid-19”.

Mesmo sabendo que a vacina não parece ser coisa para tão cedo, infelizmente, muitos de nós já têm enfrentado, sem máscara ou qualquer cuidado e proteção, o risco de contrair a doença. E o que me preocupa mesmo é saber que existe até quem acredite que proteger-se ou não da Covid-19 é uma questão política, quando não é disso que se trata. Por mais incômodo e cansativo que seja esse estado de exceção, o sabemos necessário e, portanto, até que haja a vacina ou a cura, esse é sim nosso novo normal.

E a quem pensa diferente disso, eu desejo apenas uma chuva de espirro terrorista bem na sua cara, desprotegida do que você acha que não te mata, mas que está aí, pertinho, doido pra desafiar essa empáfia de quem se imagina imune ou com histórico de atleta. Porque, acredite: o novo coronavírus não morreu. Mas você pode…

 

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