OPINIÃO

O novo normal

Quando era criança, costumava acompanhar o meu pai na rodada diária de notícias à noite. Sempre depois do jantar, um telejornal após o outro. Não lembro mais a sequência, mas certamente estavam na lista o Jornal da Manchete, o TJ Brasil (com o novedoso âncora Boris Casoy) no SBT e o Jornal Nacional, da Globo – único que nos acompanha até hoje. Os rituais noticiosos do meu pai incluíam ainda uma assinatura da Folha de São Paulo, aos domingos e/ou uma das revistas semanais, por uns tempos Veja, em outros Istoé – para desespero da minha mãe, ele fazia questão de colecionar tudo (exceto os telejornais, claro) dentro do apartamento do Bairro Latino.

Acho que foi dali que comecei a olhar o mundo além dos horizontes das dunas de candelária: a política, os grandes acontecimentos esportivos, a inflação, a vida cultural, as guerras. Lembro de temer o fim do mundo com as imagens ao vivo de Bagdá na primeira guerra do Golfo. Se a guerra tava passando ali na televisão, logo logo, as bombas cairiam no parquinho na frente do prédio. E meu pai achava graça das minhas preocupações.

Aí eu virei jornalista e, com um empurrãozinho de Josimey Costa, fui trabalhar em televisão. E tomei gosto. Só que o horário da transmissão do telejornal da TVU, seguido da viagem de ônibus de volta pra casa – o que, até antes da pandemia, incluía esperar o Circular do Campus, me impediam de ver os notíciários da televisão como eu fazia lá atrás. Terminei foi perdendo o costume de ver TV ao vivo e cedendo à maquina do tempo da internet.

E quando tudo estava muito acomodado, vem a tal da Covid-19 e nos impõe uma nova rotina, ou como anda tão em voga dizer: um novo normal.

No começo, era tal e qual a guerra do golfo e as bombas em Bagdá. Uma doença misteriosa em uma cidade menos famosa na longínqua China. Só que agora tudo circula muito rápido nesse mundo. Ou melhor, tudo não, os ricos e endinheirados circulam prá lá e prá cá e logo estava o vírus no parquinho do prédio, que não é mais em Candelária.

O novo normal me fez ficar muito mais tempo em casa do que gostaria, especialmente nas horas mais quentes do dia. Impôs novos hábitos, determinou novas disciplinas. E me fez recuperar o velho hábito de sair correndo atrás de telejornais na televisão. Começo no canal 05, claro. Tem o TVU Notícias e, logo depois, o notíciário oficial do Bolsonaro. Depois vou pra Band, que segue indencisa entre a cara moderninha e o coração conservador. Depois vem a Globo, com um jornalismo tão ativista que lembra meus tempos de movimento estudantil (só que com outros objetivos, claro! Bem outros). Se a paciência e os comentaristas deixarem, vejo o final do Jornal da Cultura.

Nada disso parece novo. Para mim, é só o normal de sempre com algumas adaptações para garantir o distanciamento social entre os trabalhadores da notícia e as fontes das reportagens. De distanciamento social, a televisão já entendia bastante. Basta notar a cara de incompreensão dos apresentadores quando veem as filas na Caixa ou no Cadastro Único e pedem para as pessoas resolverem tudo por telefone. Como se não tivéssemos um dos serviços mais caros do mundo e como se mais de 53% dos telefones celulares do país não fossem pré-pagos e, muitos deles, sem créditos para realizar chamadas ou baixar aplicativos na internet.

Talvez a novidade seja que eu não estou sozinho nesse retorno à televisão. Com muita gente em casa, não só a audiência, como a confiança nos telejornais e no jornalismo em geral aumentaram. Um sopro de esperança a quem enxergava um mundo engolido pela desinformação.

Mas ainda falta uma coisa fundamental para os leitores e espectadores: a compreensão de que o jornalismo é um serviço público, que deve ser defendido quando houverem ameaças à liberdade de imprensa, que deve ser apropriado por todos quando ameaçarem a liberdade de expressão. Mas a culpa não é do cidadãos. Talvez os donos do jornalismo brasileiro tenham se deixado seduzir pelos jogos do poder e tenham abandonado sua missão original, talvez a democracia nunca nem tenha sido um valor compartilhado por eles.

Aí, num dia que nem hoje, aparece um camarada que parece não entender bem de gestão, de eleição, muito menos de caminhão, para pedir censura ao Saiba Mais.

Tenha paciência.

Isso não pode ser normal. Nem velho, muito menos o novo.

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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