OPINIÃO

O obscurantismo bolsonarista corrói o debate democrático

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De acordo com o dicionário Michaelis, ideologia pode ser definida como a “maneira de pensar que caracteriza um indivíduo ou um grupo de pessoas, um governo, um partido etc.” Pois bem, o discurso vergonhoso de Bolsonaro na abertura da Assembleia Geral do ONU mostrou que ideologia é mais um conceito básico que o Presidente não conhece. Para Bolsonaro, ideologia é a dos seus adversários, nunca a dele. Em um discurso cínico, levantou uma série de teses atrasadas de extrema direita, que nada se conectam com a realidade complexa do mundo, e que só tem ressonância entre o bolsonarismo mais retrógrado, já acostumado com o obscurantismo e a pós-verdade. Usou de um palco global, onde a diplomacia brasileira sempre teve destaque, para falar para os cada vez mais poucos brasileiros que pensam como ele. Ou seja, diminui o país mais uma vez.

Em desacordo com o tempo e o espaço onde o discurso foi feito, Bolsonaro parecia que discursava na década de 70. Ele faltou com a verdade sobre o Mais Médicos e falseou sobre o compromisso para a proteção na Amazônia. Atacou o Cacique Raoni, de 89 anos, liderança global em defesa dos povos da floresta. Para tentar dar viabilidade ao seu discurso insensato contra a demarcação de terras indígenas, e sedento pela exploração mineral dessas terras, fabricou uma liderança indígena que tem ativismo contra os interesses de preservação da floresta.

O discurso simplório de Bolsonaro é sintoma de um mal muito maior. Assusta o crescimento dessa interpretação simplificada da complexa aldeia global onde todos nós estamos. Eles negam a ciência, as mudanças climáticas, o formato da Terra e tentam revisar, na base do grito, a história sobre o Nazismo e sobre a ditadura militar brasileira. Isso para ficar só em alguns exemplos.

A ignorância avança dentro e fora do governo, expondo as entranhas de como pensa uma parte menor do Brasil. Tão reacionários que nem podemos chamar mais, apenas, de conservadores.

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É preciso repudiar a maneira como o debate público tem se deteriorado atualmente. Num ambiente democrático, o que deve prevalecer são os argumentos, a contraposição de ideias. Contudo, o bolsonarismo tem no ataque pessoal e na desumanização dos opositores uma das suas principais engrenagens sociais. Assim, para o Presidente é natural responder ao Presidente da OAB atacando o pai morto em tortura. E é sem constrangimento que Bolsonaro fala da ex-presidente do Chile trazendo, para o meio da conversa, as memórias mais indignas da perseguição que ela sofreu. Longe de ser ingênua, a fala do Presidente se conecta com o discurso de tantos outros que preferem a desconstrução grosseira ao debate democrático.

O discurso, precisamos lembrar, quando é feito por alguém em posição de poder e influência, muitas vezes, autoriza que outras pessoas repitam o tom e os mesmos argumentos grotescos. Não é incomum também, na história da humanidade, o uso de discurso de ódio para instrumentalizar a violência física contra opositores e minorias.

Faço aqui só mais um chamado à reflexão. Todos nós perdemos enquanto sociedade quando preferimos chafurdar na lama do obscurantismo e na desconstrução agressiva de pessoas, não das ideias. Bolsonaro e o bolsonarismo passarão, nosso papel enquanto sociedade é nesse ínterim não ceder a ignorância e ao ódio gratuito.

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