OPINIÃO

O país da chibata

O historiador Durval Muniz escreve aos domingos na agência Saiba Mais
Anúncios

            Os cientistas sociais sabem que há imagens, há cenas que sintetizam uma dada época, uma dada ordem social. Essas imagens servem como emblemas de dados momentos e dadas circunstâncias sociais. Como observaram o filósofo alemão Walter Benjamin e o historiador da arte Georges Didi-Huberman, há imagens que sobrevivem a seu tempo e, como restos, como fragmentos, como cacos de sua época, reaparecem num tempo posterior, promovendo um encontro revelador entre o passado e o presente. A imagem que, vinda do passado, relampeia no presente, serve como um facho de luz para iluminar o que se passa à nossa volta. Nesse choque entre tempos, nesse pedaço de passado que atravessa a cena do presente, Freud via a possibilidade de entendermos as dimensões inconscientes que governam nossas vidas individuais e coletivas. Recalcadas, amortecidas como brasas cobertas de cinzas, essas imagens emergem, vêm à tona em um dado momento de conflito, que Benjamin chamou de “um dado momento de perigo” dando acesso à camadas profundas da vida social, estruturas de valores, estruturas sociais e culturais marcadas por uma longa duração. Essas cenas, pois elas implicam uma dada dramaturgia, uma dada forma de aparecer, de se expor, elas tem o condão de resumir os traços mais definidores de uma dada sociedade, em um dado momento histórico.

O fotógrafo Guilherme Santos, do jornal Sul21, flagrou o momento em que um fazendeiro gaúcho, munido de um relho, chicoteava simpatizantes do ex-presidente Lula. Imagem arcaica, imagem saída dos porões do nosso passado escravista. Fazendeiro a espancar pessoas a quem, possivelmente, considera não terem o direito de existir, de ser e pensar diferente, talvez que não tenham sequer a condição de humano. Possivelmente para esse representante do latifúndio secular, aqueles homens e mulheres sejam vistos como gado, podendo ser chicoteados, como se fazia com o gado humano trazido à ferros da África. A chibata, o rebenque, o relho, foram durante quatro séculos a encarnação do poder discricionário, absoluto, sem peias, dos potentados senhores de terra, de quem esse agressor é um descendente e continuador. O chicote contra a carne, contra o lombo, contra qualquer parte do corpo, deixava impressas as marcas de um poder sem contestação, um poder de vida e morte protegido pela legislação, amparado pelo Estado, considerado legal. O relho, a palmatória, o chicote eram vistos como pedagógicos, como instrumentos de ensino e educação. Somos um país onde ainda se espanca crianças todos os dias, em nome da educação. Os espancados serão os espancadores de amanhã. O fazendeiro que maneja o relho contra petistas, bem pode ter sido o menino que aprendeu a ser “homem” debaixo de peia. Significativamente, o ex-presidente que é motivo de tanto ódio, foi aquele que enviou ao Congresso Nacional, um projeto de lei proibindo o espancamento infantil, para a revolta de muita gente que se perguntava como os pais poderiam educar seus filhos sem espancá-los. A lei da tapinha, como ficou conhecida, foi um daqueles gestos dos governos do PT que mexeu em nervos expostos da sociedade brasileira, que atingiu o âmago de nossa vida social, ainda profundamente marcada pelas relações escravistas. Pais espancadores e torturadores são apresentados como educadores e se revoltam contra o que seria a ingerência indevida do Estado “no jeito dos pais educar os filhos”. O mesmo enunciado que serve de base para a demagogia da chamada “Escola sem Partido” apresentado à Assembleia Legislativa pelo deputado Jacó Jácome. O princípio republicano exige que o Estado (e a escola é uma instituição do Estado, mesmo quando privada, pois por ele é fiscalizada e deve seguir as regras gerais que dele emana) participe da educação dos cidadãos e partilhe com a família essa educação, em benefício da defesa de interesses gerais da sociedade e em detrimento dos interesses privados das famílias, que podem ser antisociais e antirepublicanos.

Essa imagem que poderia ser tomada como isolada, como sendo o documento de um ato espúrio de um celerado, foi amplamente apoiada pelos setores da oposição ao PT, mostrando que ela é a explicitação de tendências bem mais profundas de nossa sociedade. Uma senadora da República, uma mulher, uma senhora de classe média alta, uma avó, formada no meio urbano, jornalista ligada por décadas ao grupo midiático mais poderoso do sul do Brasil, o grupo RBS, usou o palanque da pré-convenção de seu partido, o PP – que lembremos é um restolho da Arena, o partido que apoiou a ditadura militar, com seus relhos e rebenques, com suas botas, fuzis, cães amestrados, com a tortura e assassinato de presos políticos, também na época chamados de terroristas (o mesmo nome que os grupelhos de direita e extrema-direita que perpetraram vários atos de ataque e agressão a caravana do ex-presidente Lula, chamam aqueles a quem agridem, chicoteiam e tentam matar) – para defender o uso do relho feito pelo seu conterrâneo. Ela disse, como uma boa representante dessa elite brasileira, branca, que nunca saiu da casa-grande, que nunca retirou o pé do latifúndio, da monocultura e da escravidão, bases de nossa colonização: “levantar o relho, o rebenque não é violento”. Possivelmente porque violência seja empunhar uma bandeira vermelha, querer ouvir um ex-presidente, querer saudá-lo, ir para as estradas recebê-lo, portar uma estrela no peito. Possivelmente, para essa gente, violência é reivindicar reforma agrária, divisão dos enormes latifúndios, que nessa região do Rio Grande do Sul, como em tantas outras no país, remontam ao período colonial e escravista. Para essa senadora levantar o relho e o rebenque deve continuar sendo pedagógico, educativo, deve ser legal e legítimo. A senadora da República pretende fundar a República no uso da chibata, como afinal foi fundado o Estado brasileiro. O Império brasileiro esteve por décadas fundado na escravidão, na lei do tacão e do chicote. Foi preciso que, no início da República, os marinheiros se revoltassem contra o uso sistemático da chibata na Marinha brasileira. Não é de espantar que muita gente ainda queira fundar a própria existência política da nação no uso “não violento” do relho.

A senadora cumprimentou Bagé, Santa Maria (uma das cidades mais militarizadas do país), Palmeiras das Missões, Passo Fundo, São Borja e Santana do Livramento, “que botou para correr aquele povo que foi lá, botando um condenado para se queixar da democracia”. Notem a muito particular noção de democracia da senhora senadora: democracia é a prevalência da opinião dela e dos seus, nem que para isso tenha que se fazer uso do chicote, do soco inglês, da pedra, do sopapo, do tiro. Democracia não é a convivência necessária com a diferença, com um outro que é diferente de mim, que pensa diferente de mim, mas que tem os mesmos direitos de existir que o meu. Quando qualquer um de nós chega à terra, já encontramos outros, já encontramos muita gente com línguas, costumes, religiões, ideias políticas diferentes da nossa, o que temos que fazer é buscar coabitar com toda essa diferença. Com que direito eu que cheguei depois, quero fazer da terra algo só meu ? É esse tipo de postura que a existência da propriedade privada, que a existência da propriedade da terra causa. Quem nasce dono de terra tende a se achar dono da Terra, tende a se achar aquele que é dono do mundo, não tendo lugares para outros existirem. Além do dono da terra, só existe o gado, até mesmo as demais gentes são gados, a que se deve dar uma ração e algumas bordoadas quando não obedecem. A senadora Ana Amélia, quando foi candidata ao governo gaúcho, deixou de declarar que era proprietária de uma fazendola de 1,9 mil hectares. Ou seja, fica claro de que lado ela está do chicote, ela está empunhando o cabo, não do lado de quem recebe a lambada. Sua solidariedade com os portadores de chicote é uma solidariedade de classe. Mesmo tendo suas atividades na cidade, como é comum no Brasil, as elites urbanas, quando já não são ou descendem de proprietários de terra, que se acham donos da Terra, tornam-se proprietários, usando o acúmulo de propriedades rurais como reserva de valor, como investimento, já que os baixíssimos impostos cobrados sobre a terra no país, um dos privilégios conferidos a uma elite agrária que ainda tem enorme poder no aparelho de Estado, torna esse investimento tremendamente lucrativo, sem que seja preciso, inclusive, torná-la produtiva.

Anúncios

Alguns dos municípios que mereceram o efusivo cumprimento da senadora da lambada (não a dança, claro!), ficam nas regiões de fronteira do Rio Grande do Sul, tendo uma longa história de conflitos com os vizinhos uruguaios e argentinos, sendo zonas muito militarizadas, com uma cultura marcada pela presença da violência e da escravidão. Nessa região a presença da grande propriedade pecuária é acompanhada por uma forte presença do Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST), o principal movimento social do país, nas últimas décadas, que tem sua origem nesse estado, que reivindica a desapropriação para fins de reforma agrária dos grandes latifúndios com baixa produtividade nesses municípios. O ódio dos ruralistas ao MST, os conflitos em torno da terra, é o caldo de cultura para explicar a formação dos grupos que tentaram impedir a passagem da caravana de Lula pela região. O uso de tratores, colheitadeiras, deixa claro a origem social dos manifestantes. No entanto, o candidato a presidência da República pelo PRB, o empresário Flávio Rocha, disse que as manifestações eram do povo e que elas demonstravam a irresponsabilidade do STF por deixar um condenado, no caso, Lula, solto. É interessante que manifestações de minorias intolerantes sejam transformadas em rejeição popular, quando o que se viu foi o uso do rebenque para tentar impedir que a população acorresse até o presidente. O empresário que se revolta contra a justiça quando ela apenas investiga possíveis irregularidades de suas empresas, que tenta sob ameaças intimidar o Ministério Público, que usa de manobras para tentar anular o processo em relação a questão das facções é o mesmo que cobra celeridade da justiça e da punição no caso de Lula. O empresário da Riachuelo também quer que o chicote da justiça só atinja o lombo daqueles que contrariam seus interesses. Ele é mais um que segura o cabo do chicote com gosto, mas acha um absurdo se a folha da chibata vira para o lado de seus costados. Seus trabalhadores têm que aguentar, sem reclamações trabalhistas, a força de seu tacão, têm que sair como rebanho a defender os seus interesses, tangidos por sua chibata invisível: a chibata da ameaça da demissão, do desemprego, da miséria e da fome, os tradicionais instrumentos de acicate ao trabalho no capitalismo.

A senadora, orgulhosa, ainda utilizou um argumento de identidade regional para louvar as chibatadas “não violentas”: disse ela, talvez em nome de um Centro de Tradições Gaúchas, “atirar ovos, levantar o relho, levantar o rebenque para mostrar o Rio Grande, para mostrar onde estão os gaúchos”. Como em todo discurso identitário, toma-se uma parte pelo todo: o fazendeiro espancador, o atirador de ovos, aqueles que fizeram levantamento de rebenque (talvez uma modalidade olímpica no futuro) são os gaúchos, representam todos eles. Aqueles milhares de vermelhinhos que foram ver Lula por onde ele passou, não são gaúchos, quedam alijados da identidade regional. Gaúchos machos devem ser os que usaram soco inglês para agredirem uma mulher grávida, em Cruz Alta, pois, afinal, todo macho é misógino e odeia mulheres. Mas a senadora parece não ter a menor identidade com o seu gênero, ela sabe de que lado estão os verdadeiros gaúchos: eles são machos, latifundiários, reacionários e seguram o cabo do relho e do rebenque, mesmo que urbanamente usem saia e frequentem o Parlamento nacional. Gaúchos machos devem ser o promotor que impediu que o reitor da Unipampa, uma universidade criada por Lula, pudesse receber o ex-presidente, e o próprio reitor que se escondeu para não recebê-lo, dois machaços. Como eles poderiam se identificar com a presidente deposta pelo golpe, uma gaúcha por adoção, uma mulher forte, digna, honesta, mas que se negava a ficar do lado dos verdadeiros gaúchos, aqueles que empunham a macaca pedagógica. O ódio a Lula repercute o enorme preconceito regional, de parte das elites e da população dos estados do Sul do Brasil, contra os nordestinos e o restante dos brasileiros como um todo. É preciso notar que Lula percorreu os estados do Nordeste e do Sudeste sem ter encontrado essas manifestações organizadas de hostilidade e de violência. Foi no sul que estivemos à beira de uma tragédia, com os ônibus da caravana tendo sido emboscados e alvejados por tiros, após grupos extremistas usarem a internet para prepararem o ataque. O separatismo de setores das sociedades desses estados, embora minoritário, seu desprezo e ressentimento pelo Brasil e pelos moradores de outras áreas do país, notadamente pelos nordestinos, de quem Lula é um representante simbólico, explica parte da violência e do ódio que assistimos. Tendo sido colonizados por imigrantes europeus, que aqui chegaram fugindo da miséria e da guerra, nesses estados foi cultivado mitos compensatórios para essa desterritorialização forçada, como a pretensa superioridade racial e cultural, como a pretensa superioridade quando se trata de disposição para o trabalho e, inclusive, o mito de que são mais conscientes politicamente, embora estados como Santa Catarina e Paraná estejam politicamente, há décadas, nas mãos de oligarquias inéptas e corruptas, que embora não sejam consideradas compostas por coronéis, como se costumam chamar as oligarquias nordestinas, para deixar claro o seu atraso, são responsáveis pelo declínio relativo da importância do sul na economia nacional e pela miséria e atraso de dadas áreas de estados como o Rio Grande do Sul, atraso e declínio que são demagogicamente atribuídos ao fato de que o governo federal roubaria o sul e transferiria o fruto de seu trabalho para os “vagabundos e preguiçosos do Nordeste”, do bolsa família, para eles votarem no PT. A falência de um estado como o Rio Grande do Sul, da qual políticos como a senadora Ana Amélia é responsável, é atribuída à transferência de recursos e empresas para fora da região, que teriam sido estimuladas pelos governos do PT.

Se o fascismo grita nas ruas e desvãos do sul do país (ele está presente no país como um todo) temos que lembrar que aí imigrantes italianos e alemães simpatizaram com o nazi-fascismo e grupos neonazistas têm militância permanente e pública, sem que nada seja feito a respeito. Os imigrantes de várias nacionalidades tenderam a se agrupar em organizações comunitárias que construíam suas identidades enquanto grupos reivindicando uma ancestralidade europeia, uma ancestralidade branca, não brasileira, não mestiça, não indígena, não negra. O orgulho racial somado ao isolamento comunitário é um caldo de cultura para a formação de subjetividades reativas ao diferente, para a formação de uma visão de mundo hierárquica, em que outro é colocado em posição de subalternidade. A desqualificação do outro, seu não reconhecimento, passa a ser um perigoso princípio identitário. Quem levanta uma chibata para bater num outro, não o reconhece como igual, como semelhante, como humanamente tendo o direito de existir. A chibata animaliza, rebaixa à condição de animal (já que os humanos ainda se acham no direito de espancar os animais por eles serem pretensamente inferiores). Assim como os nazistas rebaixavam os judeus à condição de ratos, cães, pulgas, porcos para justificarem seus atos, nos emails que prepararam o ataque assassino a caravana de Lula e que comemoravam, depois do ocorrido, que com isso foram parar no Jornal Nacional (deixando claro outra fonte de nosso fascismo, já que com ele o fascismo se identifica), o ex-presidente é reduzido a um saco de bosta que seria explodido com uma bomba em seu avião. O fascismo é justamente essa rejeição passional e reativa à existência do outro na sua diferença. Outro presidenciável, Jair Bolsonaro, em mais um gesto que revela o seu estatuto político e moral, foi a cidade vizinha a Curitiba, onde Lula finalizava sua caravana com uma gigantesca manifestação contra o fascismo (deixando claro que milhares de pessoas no sul não concordam em serem representados pelo relho “não violento” da senadora da lambada), fazia no palanque um gesto indicando que se devia atirar na cabeça do ex-presidente. Essa é a plataforma de Bolsonaro, o extermínio daquele com quem ele não concorda. Afinal, além da chibata, a tocaia, a emboscada, sempre foram tecnologias muito utilizadas por nossas elites, rurais e urbanas, para resolver de forma “não violenta”, de forma “republicana e democrática” os conflitos, notadamente com os trabalhadores negros e pobres. Marielle Franco e seu motorista foram vítimas dessa sofisticada tecnologia de extermínio do diferente, do opositor, daquele que denuncia os desmandos, a exploração, a ganância, a corrupção, a violência, a prepotência dos poderosos desse país, em todas as áreas. A tocaia talvez seja uma evolução da tecnologia da chibata, por ser mais letal e resolver de forma definitiva um problema. Normalmente bastava o poderoso chegar para seu braço armado e dizer: “é preciso tomar providências em relação a fulano”. “Pois não coronel, não se preocupe”. Hoje esse diálogo foi modernizado, ele se dá nas redes sociais: “ Vá numa loja de arma, compre uma puma 38 ou 44, é mais fácil do que vc imagina”. Emoticon com uma carinha piscando, matreira. “Aí é só se posicionar do outro lado do rio e mandar uma bala certeira”. Retorno do recalcado, imagens sobreviventes.

O governador do estado mais rico do país, representante da nossa indústria mais moderna, saído da burguesia que teria levado o país para a modernidade, o centro da inteligência nacional, o estado com os eleitores mais politizados do país, livres de coronéis, governados por gente que domina a “gestão”, território à parte no domínio populista, bolivariano, esquerdista do PT, território do tucanistão, não podia deixar de se associar à política entendida como uso do relho e da bala. Se a política implica sempre uma dada violência, a violência simbólica, verbal, da troca de ideias, da crítica, ela existe desde os gregos para evitar a violência direta, sanguinolenta, carnal. A democracia surgiu para que as diferenças entre os homens pudessem coexistir, pudessem ser negociadas, pudessem ser objeto de discussão e deliberação. O governador Geraldo Alckmin, outro presidenciável, disse uma frase muito sábia: “Lula colheu o que plantou”. Ou seja, nosso governador confunde disputa verbal, política, de ideias, embates eleitorais, críticas e dissensões políticas com chicote e bala. Que me conste nem Lula, nem o PT, jamais usou o chicote ou a bala para atacar nenhum adversário. O que Lula plantou foram 14 novas universidades federais, mais de 240 novos institutos federais de educação, mais de 20 milhões de empregos, milhares de casas populares, a redução da miséria para milhares de brasileiros, milhares de cisternas, centenas de UPAS, farmácias populares, UBS, permitindo que milhares de brasileiros negros tivessem acesso ao ensino superior. É por causa disso que ele e seus partidários merecem ser tratados no chicote e na bala? Nem mesmo se ele tivesse cometido os crimes que lhe imputam era para receber esse tratamento. O processo civilizatório criou o direito e a justiça para se evitar que as pessoas resolvam suas diferenças usando a violência. O PT dividiu o país por defender um projeto político distinto daquele que nossas elites e parcelas da classe média estão dispostos a aceitar, mas isso se resolve nas urnas e não na bala e na lambada.

É significativo que a senadora do uso “não violento” do relho tenha sido jornalista e tenha trabalhado na RBS, afiliada da Rede Globo. Talvez nenhuma instituição tenha feito mais para a instalação desse clima de caça às bruxas que vivemos. Nem mesmo o Judiciário, onde a Corte Suprema do país está à beira do uso da chibata e do clavinote, onde as punhaladas pelas costas têm sido o pão de cada dia, tenha feito tanto quanto a mídia para que a besta fascista esteja mostrando os seus dentes sedentos de sangue, como a intervenção na segurança pública do Rio de Janeiro mostra claramente. Sangue nos dentes vindo de um governo vampiresco não é de espantar. Nem mesmo a república de Curitiba, com o tacão das conduções coercitivas e das prisões preventivas indefinidas, fez mais para instalar o desejo de morte coletivo, desejo que caracteriza o fascismo, do que o jornalismo de guerra praticado pelos principais meios de comunicação do país. O destilamento diário de ressentimento, inveja, preconceito, má consciência, ódio, desrespeito ao próximo, aos direitos humanos, somados à mentira, à armação, à calúnia, à fabricação de versões parciais e desonestas, produziram essas subjetividades intolerantes, violentas, agressivas, assassinas. No Jornal Nacional todo dia passou a ser dia de Rei do Gado. Todas as estatísticas mostram, nunca se bateu tanto num partido, numa pessoa como a de Lula. Lula leva anos a ser chicoteado em praça pública todas as noites. Seu poder de resistência e resiliência desorienta os senhores da casa-grande platinada. Quando torceram que o câncer o matasse, quando se regozijaram com a morte de Dona Marisa, ficou claro que para essa gente vê-lo morto é um desejo indisfarçável. A Rede Globo, seus jornalistas, suas afiliadas, os órgãos da grande mídia são eles que empunham o cabo do relho que desceu violento sobre o lombo dos petistas e simpatizantes no Rio Grande do Sul. Todos os dias os programas policiais descem o relho no pobre, no preto, no bandido, no marginal, no meliante, no da favela. Eles não são humanos, são bestas que merecem ser violentadas. Direitos, que direitos podem ter ? Aprendemos todos os dias, com esses programas fascistas, como as velhas lições e imagens do passado já nos mostravam, que para quem não concorda comigo o que se deve ter é peia, pau nos bostas que vivem, pensam, desejam diferente da gente, tal como dizia um post na internet. Assim se afundará a República e a democracia, mas os donos dos relhos e das chibatas terão seus privilégios garantidos. Quem segura no cabo do chicote pouco está se importando com a dor de quem está levando sua folha e sua ponta no lombo. O golpe foi dado para que o relho continue a vibrar sobre as contas dos trabalhadores, dos negros, das mulheres, dos pobres, dos marginalizados, do diferentes. O relho senhorial sobrevive, a chibata do senhor de escravo ainda ressoa entre nós, as carnes laceradas dos negros de ontem continuam sendo as carnes mais baratas no mercado hoje, sujeitas à lambadas e a serem varadas de balas quando resistem, quando se rebelam, quando se revoltam, quando apelam até para o crime para ver se são vistas e têm existência.

Anúncios
Artigo anteriorPróximo artigo
Avatar
Durval Muniz de Albuquerque Jr. é professor, historiador e escreve aos domingos