OPINIÃO

O peso da noite

O comandante Fidel Castro sempre duvidou da chamada “via democrática” para o socialismo. Mesmo diante de muitos leitores de Marx, vinculados a propostas “etapistas” como as de Karl Kautsky, defendida na época da segunda Internacional, que advogava ser possível em países com tradição democrática consolidada (já tendo passado por uma etapa revolucionária burguesa) um avanço pacífico para o socialismo, Fidel, que nunca foi um teórico, mantinha seu ceticismo.

Naquela altura da disputa ideológica da guerra fria, a questão de se haveria possibilidade de uma economia socialista surgir por meios democráticos liberais, sem a necessidade de uma ruptura revolucionária, tirava o sono de Henry Kissinger. Mesmo que sempre declarasse em público o seu receio de que a eleição do socialista Salvador Allende em 1970 fosse a última do Chile e que o país andino estivesse seguindo o mesmo rumo de Cuba, Kissinger advertia o presidente Nixon privadamente de que “o modelo chileno” era potencialmente muito mais perigoso para os EUA do que o cubano, porque retirava o monopólio do argumento de que só é possível democracia política em uma economia liberal capitalista. Ou seja, enquanto Fidel esperava o fracasso da experiência chilena, Kissinger temia seu sucesso.

E era justamente como uma demonstração prática da insuficiência do argumento liberal de monopólio capitalista da democracia, que o presidente Salvador Allende buscou articular seu governo.

Médico e líder estudantil, Allende foi sensibilizado pelas demandas sociais dos chilenos quando firmou amizade com um sapateiro anarquista, ainda no tempo de faculdade. Foi através dessa amizade que o futuro candidato socialista, candidato por três vezes a presidência do Chile, conheceu de perto a miséria do povo de seu país.

Allende foi eleito em 1970, por uma coalização heterodoxa de esquerda, que se equilibrava entre duas tendências conflitantes. De um lado social democratas e socialistas moderados, defensores de “revolução vinda de cima”, marcada pelo legalismo e pelo respeito as instituições democráticas burguesas; de outro lado, grupos mais radicais que lutavam por uma “revolução vinda de baixo”, marcada pela busca de uma apropriação violenta dos meios de produção da riqueza, que seria completamente ilegal, mas “moralmente justa”.

Com um objetivo claro de protagonizar uma “revolução com empanas e vinho tinto”, Allende procurou a conciliação, tentando acalmar a elite chilena com a promessa de que um médico que fez o juramento de Hipócrates não seria o artífice de uma revolução que contasse com o sacrifício sangrento de vidas humanas. Nessa toada, o presidente chileno acreditava realmente que poderia atuar como um mediador. Negociando com a burguesia chilena com uma mão e com outra tentando manter sob rédea curta o PCC (Partido Comunista Chileno) e o MIR (Movimento Revolucionário de Esquerda).

Ambos eram articuladores da chamada “revolução de baixo” a apostavam na organização popular e na tomada do controle feita a margem das regras da democracia liberal. Enquanto o PCC em 1971 organizava 257 acampamentos ao redor de Santiago através dos “Comitês dos sem casa”, que congregavam ao redor de meio milhão de pessoas, cerca de 1/6 da população do Chile; o MIR, por sua vez, se articulava para uma guerra de guerrilha no estilo cubano.

Esse impasse entre os que acreditavam em uma via democrática e os que defendiam uma ação revolucionária direta foi um dos elementos que paralisou o governo de Allende.

Mas não foi só isso.

Allende subestimou dois traços que parecem recorrentes na história da América Latina: (1) o reacionarismo da elite e (2) a subserviência das forças armadas ao ideário de Washington.

Em seu discurso expresso na mensagem ao congresso chileno em 21 de Maio de 1971, Allende apontava para um “caminho pluralista” de transição rumo a uma economia de base socialista, imaginando que suas ações e palavras seriam suficientes para dar um sinal de conciliação a homens e mulheres bem vestidos e moradores dos bairros de classe média alta, que adquiriram um gosto de sangue e uma fascinação feroz pela violência tão logo o governo começou sua tentativa de mudar privilégios históricos.

No mesmo sentido, outro erro fatal foi o de acreditar na leitura do General Carlos Prats, comandante militar das forças armadas chilenas, de que o exército não romperia a legalidade constitucional.

Marcada por uma influência rígida da hierarquia prussiana, o exército chileno só se prestaria a um golpe que fosse liderado pelo chefe do Estado Maior. Diante da pressão de setores conservadores que pediam a cabeça de Prats, Allende foi convencido pelo seu próprio Comandante em Chefe das Forças Armadas, a nomear o general Augusto Pinochet como seu substituto.

Admirador incondicional de Diego Portales, um líder conservador que no começo do século XIX derrubou governos liberais e que discorreu amplamente sobre a necessidade de fazer desabar o “peso da noite” sobre o “populacho chileno” para poder colocar o país “em ordem”, Pinochet estranhamente parecia a Carlos Prats um “grande soldado, apolítico e respeitador da hierarquia”.

Triste engano.

Sob seu comando Allende foi deposto, mais de 120.000 chilenos foram presos e torturados. Aproximadamente 3.000 foram assassinados ou desapareceram.

Sempre comparada com a Gestapo nazista, de onde buscava modelo e inspiração, a DINA (Direção de Inteligência Chilena) gerou mais de mil câmaras de tortura secretas. Em uma das mais famosas desses centros de terror, a Vila Grinaldi, uma mansão luxuosa em Santiago, onde a ex presidente chilena Michele Bachelet foi torturada, os agentes de Pinochet atuaram selvagemente para manter a repressão política ativa, fazendo os torturadores do DOPs brasileiro parecerem sofisticados cirurgiões em comparação as práticas brutais dos agentes de terror de Estado de Pinochet.

Allende não acreditava na formação de milícias populares e, também influenciado por Carlos Prats, crente na suposta capacidade do seu auxiliar em controlar as forças armadas, aprovou uma legislação para desarmar a população e permitir as forças de segurança buscar armamento ilegal a qualquer hora do dia e da noite, inclusive junto as organizações populares e campesinas. Ao contrário de Lênin, abandonou a “revolução de baixo” apostando na capacidade democrática das instituições chilenas e nas boas intenções de sua elite econômica e militar.

Curiosamente, o seu grande referencial na política chilena, o presidente liberal José Balmaceda, que entrou em choque com os conservadores no final do século XIX e tentou peitar os interesses britânicos no Chile, acabou sendo deposto e cometendo suicídio.

A tragédia chilena não era algo difícil de prever.

Em 29 de Agosto de 1973, às vésperas do golpe que derrubaria o governo eleito de Allende, Radomiro Tomic, um líder do PDC (Partido Democrata Cristão), de origem croata, escreveu no jornal La Nación “Todos sabem o que vai acontecer mas cada qual faz exatamente o necessário para que aconteça a desgraça que pretende evitar”.

Essa dimensão trágica da chamada “via chilena” deixou muito evidente os limites de qualquer democracia liberal: o voto pode até ser a consequência de uma revolução, mas muito dificilmente será a causa dela.

Quando visitou o Chile para dar apoio ao governo socialista recém eleito e tentar romper o isolamento no continente americano imposto pelos EUA à ilha de Cuba, Fidel Castro deu de presente um AK-47 ao colega chileno e escreveu, como dedicatória: “Ao meu bom amigo Salvador, de Fidel, que por meios diferentes tenta atingir os mesmos objetivos”.

No dia 11 de Setembro de 1973, enquanto as forças armadas bombardeavam o palácio La Moneda pra jogar a experiência do socialismo democrático chileno na longa noite de uma ditadura de 17 anos, foi carregando esse fuzil que Allende transmitiu pelo rádio seu último discurso ao povo do Chile e saiu da vida para entrar na história.

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Pablo Capistrano
Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.