OPINIÃO

O peso das palavras

Nesta semana, mais uma vez leio uma notícia típica de uma história de ficção científica de horror: o suicídio de uma “digital influencer” (outra nova expressão para nosso cabedal) um dia após “casar” consigo mesma e postar nas suas redes fotos do evento. Ao que parece, Alinne Araújo, que tinha mais de 300 mil “seguidores” na página de irônico nome @sejjesincera, manteve a festa de casamento programada para o domingo passado (14/07), mesmo tendo o noivo desistido menos de 24 horas antes da cerimônia. Bastou expor as fotos da festa para receber uma enxurrada de críticas de internautas. Assim, a jovem de 24 anos, que sofria de transtorno de bipolaridade, suicidou-se no dia seguinte.

Esse triste caso merece muitas reflexões, sobretudo aquela sugerida pela seguinte questão: por que precisamos expor nossa vida particular nas redes públicas? Mas não vou me enveredar por aí, mais uma vez citando o filósofo Ben Chul Han e seus ótimos livros “Sociedade do Cansaço” e “Sociedade da Transparência” que abordam também do mundo vertiginoso e ansioso das redes sociais. Vou, de maneira despretensiosa, falar sobre o peso das palavras.

Sim, não é só nosso mundo que anda pesado demais, as palavras também pesam. E, quase sempre, nós nem nos damos conta. Discute-se muito entre linguistas, aliás, a temática do “politicamente correto”. Deve-se ou não evitar alguns termos (“aleijado”, por exemplo) em função de outros menos agressivos, estigmatizantes e historicamente marcados (“com necessidades especiais”, por exemplo)?

E por que não? Se podemos ser mais leves pelas palavras que selecionamos, por que machucar um coração? Por que não podemos filtrar melhor as palavras que dizemos ou escrevemos? O argumento da “sinceridade” (sugerido, aliás, pela própria Alinne Araújo em seu Instagram) me parece cada vez mais frágil.

Eu mesma reconheço a minha culpa e aqui não tem ironia nenhuma, estou sendo literal: julgando agir de maneira pretensamente bem-humorada, muitas vezes sou desagradável e, ao contrário de ser engraçada, acabo me comportando mais é como uma idiota juvenil.

Por isso, Alinne me deu essa lição com sua triste história e que passo agora à frente: as palavras pesam. Se você que por acaso me lê agora aqui neste texto já ouviu (ou leu) de mim algumas palavras que soaram como ofensas, eu sinceramente peço desculpa.

O mundo pode ser mais leve. As palavras também.

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