OPINIÃO

O péssimo hábito de se furar fila

No ano de 2017 o antropólogo carioca Roberto Damatta, professor da PUC/RJ, realizou uma pesquisa, juntamente com Alberto Junqueira, que resultou no escrito: “Fila e Democracia” (Editora Rocco). Na obra, Damatta, autor dos clássicos “Carnavais, malandros e heróis” e “Fé em Deus, pé na tábua”, mais uma vez se dedica a estudar a “alma brasileira” (ou a falta de originalidade dela) ou o que faz o “Brasil, ser Brasil”.

Ao observar a relação do brasileiro com a fila, para Damatta e Junqueira, a fila representa diversos elementos de como o brasileiro, numa sociedade desigual, vive o sistema democrático. Na fila encontram-se sentimentos como a paciência, o mérito e a frustração. Segundo Damatta, o brasileiro teria aversão a filas porque, na verdade, teria sido educado numa cultura de aversão à igualdade. Não há nada mais republicano e democrático do que ingressar na fila, respeitar os outros que chegaram antes e estão na sua frente e aguardar a sua vez. Entretanto, numa sociedade com um passado escravocrata e aristocrático, entrar na fila seria quase um demérito, uma vergonha, o sinônimo de inferioridade, e, furá-la, quase uma imperiosa necessidade.

Talvez pelas breves explanações da antropologia e menos pelo bom senso, possa então ser explicado porque cargas d’água o prefeito de Natal, Álvaro Dias, anunciou inicialmente que iria, segundo alguns, “furar a fila” de vacinação da tão desejada Coronavac que, finalmente, chegou no Rio Grande do Norte, sendo o primeiro a se vacinar na capital potiguar, ou que tenha recuado, abruptamente, após tomar conhecimento da avassaladora repercussão negativa de seu anúncio. Afinal de contas, não obstante o prefeito, além do exercício da função pública, ser médico de profissão, não é ele que está atuando na linha de frente, junto com milhares de profissionais de saúde, desde o início da pandemia, no contato direto com pacientes da Covid-19, em postos, unidades de saúde ou hospitais de campanha. Álvaro é prefeito (inclusive reeleito no primeiro turno, na eleição passada) para segurar uma caneta e assinar os atos necessários a uma boa vacinação na cidade, e não para prescrever medicamentos ou aplicar injeções, muito menos em si mesmo, tomando a frente de todo mundo numa fila. Seduzido pelo ranço aristocrático brasileiro, que falaria Damatta, o prefeito Álvaro quase furou o que queria furar.

Entretanto, mais grave e talvez mais impactante ainda foi não o Prefeito, mas um grupo de servidores municipais, dentre eles um chefe do setor de informática, e que não tem relação alguma com a área de saúde, ter se vacinado no último dia 20 de janeiro, um dia após a governadora Fátima Bezerra ter feito o lançamento oficial da campanha de vacinação. O Sindicato dos Servidores do Município denunciou o caso e o Ministério Público foi acionado. Parece não se tratar de um fato isolado atribuído a única pessoa, um único “furão”, mas sim um verdadeiro fenômeno social, quando várias pessoas aparecem furando a fila, inclusive passando na frente de idosos maiores de 75 anos, profissionais da saúde e pessoas com enfermidades crônicas. Esses profissionais, ligados ao setor de informática da Prefeitura e vinculados a outras secretarias, deram um péssimo exemplo, sob o suposto beneplácito do senhor prefeito, que tentou justificar a legalidade da vacinação dos comandados. Afinal de contas, se o próprio prefeito não pode se vacinar primeiro, a furada de fila cometida confirmou que ao menos seus auxiliares assim podem fazer.

Natal recebeu cerca de 12.000 doses iniciais do imunizante fabricado pelo Instituto Butantan de São Paulo, em parceria com o laboratório chinês Sinovac. É muito pouco para se vacinar uma população de um estado com mais de três milhões de habitantes, e que esta semana registrou 132.294 pessoas contaminadas e 3.192 mortes. Enquanto o governo federal inicia uma ciranda diplomática de pura incompetência, com dificuldades imensas de obter com brevidade mais imunizante, da Astrazeneca, através da ìndia, o Brasil, e o Rio Grande do Norte tem que se contentar com o que tem. E o que há disponível deveria ser prioridade absoluta para os grupos que realmente precisam, em caráter urgente, sem furadas de fila.

É claro que, se dependesse do presidente da república, Jair Bolsonaro, não haveria nem fila, muito menos para uma vacina chinesa, que ele tanto despreza e difamou. Afinal de contas, como dizem em mensagem que circula nas redes sociais bolsonaristas, ainda adeptas de um Santo Graal chamado cloroquina, para que tomar uma vacina que é como um paraquedas? Onde você tem 50% de chance de escapar ao pular ou 50% de chance de se esborrachar lá embaixo? Para um governo federal negacionista, que na pandemia inteira pregou o negacionismo e a desinformação, e para um presidente que disse que sequer vai se vacinar, pra que ter fila?

Voltando a Damatta, a fila envolve transparência, algo retirado do princípio republicano que pressupõe o trato com isonomia, publicidade e impessoalidade na prestação de serviços, principalmente no que tange à saúde das pessoas. No caso dos furadores de fila da vacina em Natal, a forma sorrateira ou mesmo a cara de pau com que alguns furaram fila, estimulados ou não pelas declarações de um prefeito, demonstra um retrocesso no processo democrático, numa reversão daquilo que a fila impôs na sociedade moderna republicana, que é uma forma de hierarquização em que a diferença sócio-econômica não é dominante. Isso quer dizer que tanto faz se alguém é rico ou pobre, homem, mulher, branco, negro, indígena, cisgênero ou transgênero. Ao entrar na fila todos obedecem a uma única lógica hierárquica: cada um respeita a sua vez; ou seja, os que estão na frente da fila devem ser atendidos primeiro e respeitados pelos que estão atrás. Parece uma lógica muito simples, quase singela, mas quando essa lógica é subvertida pelo egoísmo travestido de individualismo extremo e uma minoria quer subverter essa ordem, furando a fila a qualquer custo? Na verdade, no caso das filas de vacinação para imunização contra a Covid-19 o preço a ser pago é o de vidas alheias, centenas, milhares, vidas de pessoas idosas, doentes ou de profissionais que atuam diretamente no combate ao vírus e estão diuturnamente expostos à contaminação, que não respeitamos, quando resolvemos furar a fila e se vacinar no lugar deles. Será que prejudicar a vida do outro em prol do nosso benefício próprio vale tanto à pena? Será que é isso que iremos ensinar para nossos filhos?

Enquanto isso, sigo na fila dos esperançosos, acompanhando meus parentes idosos e com comorbidades até o local de vacinação, e vê-los aguardar sua vez na fila, daquilo que pode não ser apenas uma vacina, mas a esperança de vida, e de dias melhores a nos tirar de um pesadelo que até agora só fez um tipo de fila: a dos doentes nos leitos de UTI ou dos cadáveres amontoados nos cemitérios.

 

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