OPINIÃO

O pior cego

Quando de repente, as pessoas em todo o mundo se viram obrigadas a se enclausurar em suas próprias idiossincracias num isolamento sem precedentes na história, começou a pipocar pelas redes sociais as mais diversas teses, teorias e, pasmem, o surgimento de entendidos em tudo; principalmente de medicina, farmacologia, ciências da natureza, religião… Numa verdadeira epidemia de opiniões sobre tudo e sobre todos.

O vírus que surgiu na China e se espalha pelo mundo de maneira avassaladora se abrigou no Brasil polarizado pela política, individualista na desigualdade social que alimenta o ódio e a discriminação, principalmente contra os mais desvalidos – que continuam à margem de uma sociedade egoísta e cada vez mais isolacionista – faz surgir no território “democrático” das redes sociais um conflito de opiniões, não centrado na racionalidade, no debate civilizado ou na lógica elementar dos fatos e temas que se apresentam. Mas, sobretudo, em sofismas fabricados com o objetivo claro de provocar discórdia, escancarando abruptamente mazelas, pensamentos espúrios, e o escárnio com quem simplesmente pensa diferente ou se contrapõe, com argumentação sólida e lógica.

Assistindo e acompanhado, às vezes mais de perto, mas procurando manter a distância necessária à observação racional, o festival de nulidades que povoam o ambiente da internet em suas mais diversificadas redes de socialização, me vem à lembrança o escritor português, José Saramago em seu “Ensaio sobre a cegueira”, quando uma epidemia de cegueira branca se espalha por uma cidade, causando um grande colapso na vida das pessoas e abalando as estruturas sociais. Mera coincidência ou premonição do primeiro escritor em língua portuguesa a receber o prêmio Nobel de literatura? Essa questão ainda vai permear por muito tempo o pensamento mais racional sobre o momento que enfrentamos nesse Brasil desigual não só social, mas, na diversidade das pessoas em sua própria natureza.

As redes sociais não são o território livre e democrático que se preconiza. Pelo contrário, ao mesmo tempo em que permite que cada um se coloque e exponha os seus pensamentos, ainda que sejam os mais abjetos, provoca uma inversão de valores que tumultua a vida social, provocando estragos em larga escala na vida e no cotidiano dos cidadãos.

O filósofo italiano Humberto Eco proferiu uma sentença que cada vez mais se revela atual, ao declarar: “as redes sociais dão o direito à palavra a uma “legião de imbecis” que antes falavam apenas em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”. Tal afirmação, sem qualquer preconceito ou discriminação, pois entendo que os imbecis têm direito a se expressar, reafirma, nesses tempos de pandemia que nem tudo que está posto é realmente a verdade. Está difícil isolar a intenção ou o real sentido daquilo que oportunistas estão transformando uma situação real em intenção ideal. Política e ideologizada. E aí, me vem à lembrança um adágio que minha mãe costumava repetir: o pior cego é aquele que não quer ver.

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