CULTURA

Potiguar Ítalo Ferreira ganha a primeira medalha de ouro olímpica do surfe: “Queria que minha avó estivesse viva para ver o que eu me tornei”

Na madrugada desta terça-feira (27), o surfista potiguar Ítalo Ferreira fez história na modalidade, estreante nos Jogos Olímpicos. Ele conquistou o lugar mais alto do pódio ao vencer o japonês Kanoa Igarashi na final.

Em entrevista à TV, pouco após a vitória, o filho de Baía Formosa/RN disse, emocionado que chegou ao Japão com uma frase “diz amém que o ouro vem”. Ele contou que treinou muito nos últimos meses e que tinha entrado na água sem pressão.

“Eu queria que minha avó estivesse viva para ver o que eu me tornei e consegui fazer, pelos meus pais e pelas pessoas que estão ao meu redor. Almejei bastante e sonhei. A frase que falei está ao lado da minha cama. Todos os dias eu orei às 3h da manhã, pedindo a Deus que realizasse meu sonho”, contou.

A prova
Com um minuto e meio de prova, o brasileiro tentou uma manobra que acabou com sua prancha sendo rachada ao meio. Insatisfeito com a segunda escolha, ele fez uso de uma terceira prancha na prova final. Essa não foi a primeira vez que Ítalo teve que superar imprevistos no Japão. Em setembro de 2019, o surfista ganhou a etapa de Miyazaki no mundial de surfe após ter problemas no pouso do voo em que estava. Ítalo desembarcou na cidade minutos antes do horário marcado para entrar na água, foi direto para a praia, chegou faltando nove minutos para o fim da sua bateria e surfou com uma prancha emprestada e de bermuda jeans.

Na final olímpica, Ítalo Ferreira aproveitou ao máximo as boas ondas da praia de Tsurigasaki, e fez valer a sua condição de atual campeão do mundo da WSL (World Surf League). Logo abriu vantagem sobre o japonês e faltando 18 minutos para o fim da prova já somava 12,50 contra 5,56 de Igarashi, ampliando a vantagem sobre o japonês que horas antes havia vencido o também brasileiro Gabriel Medina. Ítalo Ferreira fechou a campanha nas Olimpíadas com clara superioridade: 15,14 a 6,60.

A história
Natural de Baía Formosa, distante 98,2 quilômetros de Natal, Ítalo se apaixonou pelo surfe graças à influência dos primos e dos amigos. Entretanto, sem estrutura para praticar o esporte, dependia da prancha emprestada dos primos para poder praticar. Diversas vezes, ele ia para o mar com tampas de caixas de isopor onde o pai, o comerciante Luiz Ferreira de Souza, armazenava peixes para revender.

“Ele ficava de dia no mar e a noite na escola. Mas sempre preferiu o surfe e nós temos muito orgulho de tudo o que ele conquistou”, disse o pai de Ítalo, conhecido na região pelo apelido de Luizinho, em entrevista à Folha de S. Paulo em 2019, quando o surfista foi campeão mundial.

No início dos anos 2000, Luiz Pinga, então diretor de marketing de uma das principais marcas de surfe, foi à Baía Formosa para avaliar um surfista que haviam indicado para ele como promessa da geração. Na cidade, acabou vendo Ítalo surfar, ainda moleque, e se surpreendeu. A partir daí, a carreira do potiguar não parou mais de crescer.

Ítalo logo venceu duas etapas do Mundial Júnior em 2011, foi vice-campeão da categoria, ganhou o Campeonato Brasileiro e em 2014, enfim, se classificou pra integrar o WCT (World Championship Tour), a elite do circuito. Logo na primeira temporada, em 2015, foi eleito novato do ano com um impressionante sétimo lugar e um estilo de surfe mais agressivo, com aéreos que surpreenderam o mundo inteiro.

Nos anos seguintes, em 2016 e 2017, Ítalo sofreu com lesões e ficou de fora de parte da temporada do surfe. Mas, em 2018, o potiguar conseguiu deixar para trás a maré de azar e venceu três etapas do mundial, o que o colocou no quarto lugar do ranking. A expectativa para ganhar o campeonato mundial cresceu, e veio no circuito de Pipe Masters, no Havaí, em 2019.

Antes mesmo do título, o potiguar já era influência para os jovens de Baía Formosa. No retorno à cidade após ser campeão, Ítalo foi recebido por centenas de moradores – entre eles, muitas crianças. “Eu penso que um dia posso ser como ele. Também quero conquistar o mundo”, disse também à Folha uma das surfistas da nova geração da cidade, Maria Clara, no dia em que o campeão foi recebido na cidade.

 

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