OPINIÃO

O predestinado Baltazar Germano de Aguiar

Uma conversa de uma tarde inteira com Baltazar Germano de Aguiar, um dos maiores volantes da história do futebol potiguar, que começou a jogar como atacante, “oito e meio”, como ele se definiu. Iniciou seu sonho nas bases do ABC, sofreu pra caramba com falta de oportunidades, saiu, venceu, voltou e encerrou sua carreira com muita moral, aos 39 anos, no América. E isso se deu antes do que ele queria por conta de uma contusão, não fosse assim teria jogado em grande forma até mais de 40.

No encontro, com a participação do treinador Francisco Diá, em sua casa confortável no Bairro Nordeste, o “Conde Drácula” rememorou muitas histórias e uma certeza que sempre teve: “nunca pensei em desistir da bola, mesmo com as injustiças sofridas no começo da carreira, com a perseguição de parte da torcida do ABC. Muitas vezes cheguei a levar laranjadas nas costas e outras vezes escutava dizer que eu não era Baltazar, mas sim ‘botazar’ quando ia entrar em campo”, rememora sorrindo.

Ainda sobre sua confiança, disse que sempre falava para sua mãe: “confio no meu futebol”, e por isso, venceu. E o destino é uma coisa impressionante. Baltazar já tinha sofrido no ABC, uma passagem rápida pelo Cosern, em 1973; passado apertos no Central de Caruaru, e atendendo apelo da mãe voltou a Natal, mas não desistia. Resolveu tentar a sorte de novo viajando para Alagoinhas, onde alguém da equipe do Atlético sinalizou oferecendo uma oportunidade. Outros tempos. O cara sequer mandou dinheiro da passagem. Mas isso não foi problema para quem tinha muita personalidade e confiança. “Não vá meu filho, isso não tem futuro”, advertiu sua mãe. “Eu vou, mãe, disse a ela, e foi uma das poucas vezes que não ouvi seu conselho”, confessou.

Baltazar viajou para João Pessoa, onde pensava pegar um ônibus para Recife e de lá, único lugar com conexão terrestre direto para o interior da Bahia. Chegou na rodoviária de João Pessoa o transporte para a capital pernambucana tinha acabado de sair e só sairia outro na manhã seguinte. Não tinha jeito, precisava arrumar um lugar para dormir e viajar no dia seguinte. Pesquisou nas pousadas simples por perto. Preço X sem ventilador e dois X com. Não tinha condição de pagar nenhum dos dois. Sem ter com quem contar, falou com o vigia da rodoviária, perguntando se podia dormir num dos sofás. Atencioso, o senhor atendeu ao pedido, mas disse que ele só poderia deitar quando o movimento fosse encerrado.

Baltazar, com muita fome, dinheirinho curto, comprou uma espiga de milho, comeu, encheu o bucho com água do bebedouro e ficou fazendo hora. Um jovem senhor foi passando, olhou para ele uma, duas vezes, voltou e perguntou: “seu nome é Baltazar?”, intrigado, questionou: “Baltazar de onde?” O senhor, que era, vejam só, supervisor do Botafogo/PB, respondeu que o conhecia de ter visto jogar, e quis saber o que ele estava fazendo na rodoviária. Ouvindo a explicação e sabendo da pretensão do potiguar perguntou se ele não queria fazer parte do elenco do Botafogo que estava disputando um torneio promovido por um político da cidade e que estava servindo para a comissão técnica testar e observar alguns jogadores.

Naquele mesmo dia já seria disputada uma primeira partida, portanto, ele não poderia ser utilizado, esclareceu o supervisor, afirmando, no entanto, que dois dias depois, como era um torneio, na segunda apresentação da equipe ele já poderia, quem sabe,  ser aproveitado. Baltazar afirmou na hora que topava, mas explicou sua situação, esclarecendo que não tinha onde ficar e tudo o mais. Na mesma hora o funcionário do Botinha o encaminhou para uma pensão. Baltazar atuou, foi bem, agradou ao treinador Miruca (que foi atacante do São Paulo). No final da partida, ele viu o técnico conversando com os dirigentes. Ele os procuraram para assinar contrato, afirmando que o treinador queria contar com ele. Mas ainda jogando de ponta de lança, na época, o tal do “oito e meio” e assinou com o time paraibano, um grande clube, por sinal.

Em pouco tempo, no entanto, o Miruca foi demitido. Chega ao time Pedrinho Rodrigues, o homem do cachimbo, de quem já contei várias histórias hilárias. Ele, segundo depoimento de Baltazar, trouxe nada menos que onze jogadores. Como vinha das bases do Sport de Recife veio acompanhado de uma meninada de lá e mais alguns experientes para o elenco. A primeira medida que tomou foi sacá-lo do time. “Não reclamei, estranhei, pois estava jogando bem, mas não reclamei, não criei caso”. O tempo foi passando. O Botafogo faria uma decisão contra o Treze, em Campina Grande, o titular da posição de volante se machucou, outro que tinha chegado estava suspenso. No treino, o velho do cachimbo (já falecido) perguntou se ele já tinha jogado de volante. Na mesma hora, sem nunca ter atuado na posição nem em time de rua, respondeu: “já joguei várias vezes”. Pedrinho Rodrigues nada mais falou.

O mistério continuou. Na véspera da partida, já em Campina Grande, um repórter foi quem lhe antecipou sua titularidade na decisão. Era uma prática comum,  depois eu também ficaria conhecendo a maneira de agir do treinador pernambucano. A gente só ficava sabendo os onze que jogaria na última preleção antes de embarcar para o campo. Baltazar foi escalado com a camisa 5, o Botafogo venceu de 2 a 0, foi o melhor em campo  e ainda marcou um golaço com um de seus conhecidos foguetes de fora da área. Mesmo assim, vejam como é o futebol, na reapresentação, Pedrinho queria que Baltazar voltasse a jogar de “oito e meio”, colocando “seu jogador” de volta ao time. Mas, entendendo que havia “achado” sua real posição, se negou. Disse que ficaria no banco, treinaria no time de baixo, mas como volante. O velho treineiro ficou emburrado. “Você vai me arrumar problema”, adivinhou. No dia do coletivo, campo de treino lotado, quando os torcedores viram Baltazar no time reserva começaram a xingar o técnico. Ele chegou para Baltazar, de cara amarrada falou: “não disse que você ia me arrumar problemas”. Baltazar nunca mais saiu do time titular.

Foi no Botafogo que saiu a manchete que ficou famosa em todo o Brasil (eu pensava que ele já estava no Bahia, na época), na super lida Revista Placar, publicação nacional,  brilhante matéria com ele assim intitulada: “Nem Falcão, nem Chicão, Baltazar na seleção”, assinada por Martins Neto. Ao falar sobre isso, nosso herói tem uma certeza: ”se eu estivesse jogando num time de Recife ou no Bahia, certamente teria sido convocado, como Givanildo foi”.

Baltazar chegou para o time da estrela vermelha em 1974,  foi bicampeão estadual, nos anos de 75 e 76; em 1977 e 78 já estava no Bahia, voltou ao ABC, em 1979, depois foi para o CSA, das Alagoas, Ferroviário, de Fortaleza, finalmente resolveu voltar para Natal e não mais sair. Atuou por nove anos seguidos no América de Natal, conquistou cinco títulos estaduais,  encerrou a sua vitoriosa carreira de jogador e foi treinador, também conquistando títulos. Sobre treinadores, disse que trabalhou e aprendeu com muitos, aqui no RN destacou que o melhor de todos foi Pedrinho 40 e cita Francisco Diá como exemplo de grande conhecedor. Aliás, o ex-técnico do Ferroviário é seu fã e amigo. “Eu aprendi muito observando os treinamentos de Baltazar, ele cria jogada ensaiada até para arremesso de lateral, não tem igual”, afirmou Francisco Diá.

Seleção

Nesse período de Botafogo/PB e Bahia, Baltazar esteve muito perto de jogar em times de ponta do futebol do Brasil e até seleção brasileira, chegando a entrar na lista dos 40 convocados. O São Paulo o queria, o técnico Poy pediu sua contratação e tudo ficou acertado. Quando ia embarcar soube que o negócio foi cancelado. Poy caiu, Rubens Minelli assumiu o seu lugar e trouxe seu conterrâneo conhecido do Inter, Caçapava. Já reinando no Bahia, sob o comando de Orlando Fantoni, e quando  foi contratado pelo Vasco Baltazar foi a primeira contratação que pediu o “titio”, mas o endiabrado Paulo Maracajá não deixou ele sair. acabou prejudicando um bom segmento de sua carreira.

A história de Baltazar Germano dá um livro. O homem que descobriu Souza (que até hoje tem como um filho) e que, sem canudo, sem falar bonito, se tornou um dos treinadores mais conceituados (e também injustiçados) de nosso futebol encerrou sua carreira de forma precoce. Ultimamente sofre com problemas no joelho, tem dificuldade de locomoção e o baque recente, o maior que sofreu na vida: perdeu uma filha, vítima de Covid-19. Tem dois netos, o pré-adolescente gosta muito de futebol. Os dois são a alegria, o motivo para ele continuar lutando como sempre fez nos tempos de jogador de futebol. Baltazar Germano de Aguiar, uma lição de bola, de vida. Esse sim, merecia receber muitas homenagens.

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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