OPINIÃO

O presidente da elite predatória

As pesquisas que medem a popularidade da gestão (sic) do presidente Jair Bolsonaro vêm deixando, cada vez mais claro, que ele é o presidente dos ricos, dos endinheirados, dos banqueiros, dos empresários, daqueles que, mesmo sendo classe média, pensam como os ricos e com eles se identificam. O presidente Bolsonaro, em seu desprezo pelos pobres, pelos trabalhadores, pelos negros, pelos índios, pelos mais necessitados e vulneráveis, é uma perfeita encarnação de como pensa e sente as elites plutocráticas e proprietárias desse país. Foi dessa camada social, e dos setores das classes médias que a mimetiza, que saiu a raiva e o ódio de classe que se espalhou pelo país, com a ajuda dos meios de comunicação, que a ela serve, fazendo com que ele chegasse a conquistar setores das camadas populares, notadamente aqueles mais conservadores por motivos religiosos. Bolsonaro em sua irresponsabilidade de moleque mimado, que nunca cresceu emocional e mentalmente, é o retrato perfeito de uma elite econômica e política, constituída de filhos de papai, como Aécio Neves, Rodrigo Maia, Luciano Hulk, filhotes acostumados à vida fácil e que possuem tudo nas mãos. Embora o capitão tenha vindo de camadas desprivilegiadas da sociedade, absorveu em sua formação os valores dessa elite, até como forma de se afastar de qualquer identificação com os setores de onde veio, num gesto de denegação de suas origens. Seu discurso antissistema apenas encobre o fato de que ele apenas encarna a cara mais violenta e incivilizada das elites brasileiras, que podem fingir em público que dele diferem, mas em privado se veem nele.

Bolsonaro encarna, sobretudo, a face predatória de nossas elites. Quando confessou publicamente que faria um governo de destruição, muito mais do que de construção, ele estava apenas verbalizando aquilo que move há séculos as nossas elites endinheiradas, o que elas procuram esconder e disfarçar. O apoio explícito ou implícito do presidente a que se viole as leis, a que se cometa infrações, a que se desrespeite a Constituição, a que se despreze as instituições, é a explicitação de uma prática comum entre os poderosos brasileiros. Eles sempre fizeram as leis em benefício próprio, como sempre as driblaram, desobedeceram, quando isso favorece a seus interesses. As queixas do presidente contra o fato de que existem muitas leis no país, que ele tem que obedecê-las, que a Constituição limita seu desejo de poder pessoal e discricionário, seus rompantes autoritários se colocando acima das instituições, de suas regras e ritos, é a encarnação perfeita do modo de se comportar dos nossos homens bons, dos nossos homens de bens e fortuna, desde o período colonial. A institucionalidade no Brasil, a observância republicana da legislação e da liturgia dos cargos públicos, o respeito a hierarquias e procedimentos, nunca foi o forte de uma elite acostumada a viver de expedientes, do jeitinho, do privilégio, ao arrepio da lei, acostumada, inclusive, a ser ela a lei, a autoridade, a ordem. Bolsonaro é apenas a encarnação de nossos mandões, donos da vida e da morte. O capitão é a reencarnação no twitter dos coronéis, espaçosos, donos de terras a perder de vista e das vidas pobres e subalternas que ali viviam. Seu desejo de poder sem limites e sem peias, que inviabiliza qualquer regime democrático, seu desejo de tudo ser na base do “aqui quem manda sou eu”, “eu sou o presidente, eu demito e admito quem eu quiser”, expressa o desejo de poder de uma elite autoritária, que não admite qualquer contestação a suas ideias, a seus modos de vida, privilégios, interesses e poder. Bolsonaro é apenas a encarnação mais grotesca de uma elite colonizada, que despreza o próprio país e seu povo, que cultiva uma admiração embasbacada e subserviente em relação ao centro do império do momento (ontem a Inglaterra, a França, hoje os EUA), que mimetiza de maneira brega e deslocada as formas de vida que julgam ser civilizadas, modernas, up to date.

Nossas elites, foram formadas no período colonial, através de atividades econômicas e militares predatórias. O processo de acumulação de riqueza e capital se deu através da ação predatória em relação aos recursos naturais, da destruição e desestruturação das comunidades e culturas indígenas, do genocídio sistemático das populações nativas, da exploração desabrida e sem peias dos corpos negros trazidos da África, açoitados, torturados, vilipendiados, humilhados. Como diz Gilberto Freyre, a casa-grande colonial foi uma escola de arrogância, prepotência, insensibilidade, de despreparo para a vida material mais comezinha; foi uma escola de ócio e de ódio, foi uma escola de privilégios e de poder sem contestação. Nossas elites se deformaram no desfrute de uma forma de vida no qual estavam rodeados de serviçais e de escravos, de chaleiras e puxa-sacos, de agregados e de compadres, cultivando um sentimento de superioridade, reforçado pelas teorias raciais do século XIX, que colocavam os brancos acima das demais etnias. A estrutura fundiária brasileira, nunca modificada por uma reforma agrária, se constituiu através de práticas de predação como a invasão de terras indígenas, de aldeamentos jesuítas, da destruição de quilombos, da grilagem, do jaguncismo, dos assassinatos recorrentes de camponeses, de lideranças sindicais. As mercês reais vieram legalizar e premiar o genocídio, a depredação, o desrespeito constante às próprias disposições e ordens do reino, a Lei de Terras de 1850 veio reconhecer e dar estatuto legal a todas as irregularidades na aquisição de terras como nossos cartórios sempre fizeram.

Hoje a Amazônia arde sob o fogo criminoso, predatório e ilegal provocado por fazendeiros, madeireiros, mineradores, toda sorte de gente movida pelo ódio e desprezo aos índios e seus direitos sobre a terra, movida pela cobiça e pela ganância sem limites, incentivadas e liberadas pelos discursos e ações de um presidente que nunca escondeu seu preconceito contra a agenda ecológica, contra os órgãos e instituições de preservação do meio ambiente. A Amazônia arde, pois temos um presidente incendiário em todos os sentidos, um irresponsável que diz o que lhe vem na cabeça, sem atentar para o cargo que ocupa. As barbaridades que diz, dia sim e outro também, sempre se dirigem a açular conflitos, a provocar dados setores da sociedade, a alimentar o ódio e o desejo de morte e de sangue das matilhas que o seguem. Hostiliza governadores e regiões inteiras do país, usa informações de órgão públicos para atacar seus adversários políticos, demite cientistas e pesquisadores e desqualifica o conhecimento científico sempre que esse contraria seus pontos de vista tacanhos, preconceituosos e interesseiros, junto com o Ministro da Educação (sic) calunia e constrói uma péssima imagem das universidades. Produz diariamente fake news, mente de maneira descarada diante de jornalistas da imprensa internacional e estrangeira, calunia pessoas e instituições sem apresentar uma única evidência do que afirma. Seu egocentrismo, seu narcisismo, a incapacidade de ouvir ou de respeitar o outro, o diferente, o adversário, que já o caracterizava, desde que quis usar bombas para fazer reivindicações salariais em seus tempos de caserna (ou de caverna), que o fez notável quando deputado, se aguçou ainda mais a medida que, por ter sido eleito, se acha mesmo ungido por Deus, que teria lhe atribuído uma missão messiânica, que faz com que tudo que faça e pense se legitime, imediatamente. Seu desapreço pela democracia e pela República, se explicita no tratamento da coisa pública como se fosse coisa de família, coisa de vida privada e de decisão conforme o gosto e a opinião pessoal. O familismo, a confusão entre o público e o privado, o tratamento da coisa pública como coisa nostra e para atender interesses privados e pessoais é um traço longevo da política brasileira, que Bolsonaro apenas encarna com mais despudor e convicção.

Desmatar, queimar, destruir nunca foram ações estranhas as elites brasileiras, movidas pela cobiça, como as definiu Paulo Prado, um rico fazendeiro do café, que deveria saber do que falava, já que a cultura cafeeira foi responsável pela devastação das florestas paulistas, fluminenses, mineiras, paranaenses, como antes a cana-de-açúcar fora pela destruição de quase toda a Mata Atlântica, do Rio Grande do Norte ao Rio de Janeiro. Culpar as Ongs pelos incêndios é mais um exercício de cinismo tão característico de nossas elites e de quem as representa. Assim como a ira militar, acompanhada de bravatas guerreiras, contra a pretensa ameaça a nossa soberania representada pela reação internacional a inação do governo brasileiro diante das queimadas ilegais e criminosas (fazendeiros do Pará chegaram a marcar pela internet um dia do fogo e o presidente diz de maneira cínica que a Amazônia é muito grande e não pode achar os culpados), não deixa de ser curiosa já que esses militares apoiam um governo que vem fragilizando a soberania nacional, entregando setores estratégicos da economia, inclusive para nosso sistema de defesa, para empresas estrangeiras, além de desmantelar os principais programas voltados para o aparelhamento e modernização das Forças Armadas. Falar de soberania num governo que tem uma política externa totalmente subordinada aos interesses norte-americanos e em que o presidente, de maneira extravagante, presta continência a bandeira de um outro país, é no mínimo piada de mau gosto.

Nossos endinheirados, assim como os colonos de quem descendem, sempre viram o país como um território a ser explorado o mais rápido possível, a ser desprovido de suas riquezas naturais, sendo fonte de lucro fácil e de acumulação de fortunas da noite para o dia. Uma terra a ser deixada assim que suficientemente explorada. Nossas elites preservam o desamor que a maioria dos primeiros colonos, de todos os tempos, devotavam a uma terra estranha, uma terra de oportunidades, uma terra de enriquecimento, mas que nunca eram deles. Esse estranhamento, essa incapacidade de amar um país que não vê como seu, no máximo como um país de adoção, que mais se critica e que, na comparação com a terra de onde se vem, parece ter todos os defeitos, continua a fazer efeitos até hoje. Nossas elites, crescidas e formadas num país imenso, de riquezas que parecem inesgotáveis, vivendo em latifúndios que pareciam mundos (José Lins do Rêgo confessa que quando criança achava que seu avô era dono do mundo), morando em casas ou apartamentos enormes, com quintais e jardins, com áreas de serviço e lazer, em condomínios fechados do tamanho de bairros inteiros, se tornaram elites sem limites na ambição, na cobiça, no desejo de poder e de privilégio, no desejo de exploração e acumulação. Casos como o do ex-governador Sérgio Cabral, alguém tomado por um desejo sem limites de riqueza e poder, são a consequência psicológica e subjetiva de uma elite espaçosa, que nunca está conformada com os limites e as fronteiras do que possue. Invadir terras, derrubar cercas, colocar gado nas terras alheias, grilar ou se apossar de terras públicas, desapropriar na bala o posseiro ou o pequeno proprietário, se apossar de áreas de matas através de incêndios criminosos, matar índios para tomar suas terras, se apropriar de parte da calçada ao fazer a construção da casa, ocupar uma vaga e metade de outra na garagem do shopping, ocupar as vagas de idosos e deficientes, estacionar sobre as calçadas e em fila dupla, se apropriar da calçada em frente a seu restaurante, bar, lanchonete, são práticas que indiciam essa psicologia da espaçosidade que caracteriza as elites brasileiras. Não há ninguém mais espaçoso do que Bolsonaro, ele entra sempre onde não é chamado, ele é um bicão de estádios e gramados de futebol, ele dá palpite nas eleições de outros países, até ameaçou de invasão a Venezuela no início de seu governo. Seus filhos se notabilizam pela falta de limites e por não respeitarem as fronteiras entre o público e o privado, eles são os famosos entrões, papagaios de pirata, querendo sempre estar onde não deveriam: um quer ser embaixador nos EUA e vive dando pitaco em política externa sem dela nada entender; o outro fez da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro a continuidade de sua casa e de seus negócios privados, empregando parentes, aderentes e assemelhados; o outro se impôs como porta-voz da presidência com o uso de seu computador doméstico e do seu smartphone.

A queima da Amazônia é fruto de uma elite predatória que, deixada a solta e legitimada pelo atual mandatário do país, se acha no direito de cruzar todos os limites e desrespeitar todas as fronteiras, transformando em cinzas, como sempre fizeram, as possibilidades de um futuro de autonomia, soberania e desenvolvimento para o país. Embora sempre digam que o Brasil é o país do futuro, para nossas elites só existem presente, elas têm urgência em explorar, enriquecer, acumular, mesmo que isso signifique o comprometimento do futuro do país e da própria espécie. Só uma elite despreocupada com as consequências futuras de seus atos é capaz de apoiar-se num deputado corrupto, de financiar um golpe sem crime, de colocar na presidência um personagem como Bolsonaro. Essa gente, como mostra bem a atuação de Paulo Guedes, outra encarnação perfeita de nossas elites da rapinagem, não está preocupada com as consequências sociais e até econômicas, a longo prazo, que os desmontes de direitos sociais e trabalhistas vão causar, como mais miséria, mais exclusão social, mais violência, mais desigualdades e, portanto, reduzir o consumo, reduzir a circulação de riqueza e de mercadorias, gerando um encolhimento da economia, que voltará a girar em torno dos trinta por cento da população de rendas mais altas.

Desmantelar e desmoralizar as instituições públicas, como vem fazendo esse governo, cercear a atuação dos órgãos de fiscalização, controle e transparência do Estado, privatizar setores públicos estratégicos, como gás, petróleo, educação, ciência e tecnologia, é não ter projeto ou visão de futuro para o país. Como no governo Fernando Henrique Cardoso, trata-se de resolver o problema fiscal do Estado queimando a curto prazo e sem nenhum planejamento, os ativos que esse possui. A farra das privatizações vai fazer fortunas no presente, vai enriquecer ainda mais os já endinheirados, vai deixar nosso país mais dependente de e exposto aos interesses externos, mas vai comprometer o nosso futuro como país. A perseguição as universidades, o desrespeito constante a autonomia universitária, a busca de inviabilizá-las financeiramente para privatizá-las se coaduna bem com uma elite que nunca foi amante do investimento a longo prazo; o predador não espera pelo futuro, encara o investimento como gasto, quer o lucro e o efeito imediato. Por isso também pouco importa para essa gente que Bolsonaro destrua nossas instituições voltadas para o financiamento e apoio da produção científica, onde se exige investimentos continuados e a longo prazo, e com resultados incertos. Nossas elites imediatistas sempre preferiram importar a tecnologia, importar conhecimento, mesmo que isso signifique a transferência de riqueza para outros países. O curso           à distância, aligeirado, em poucos módulos, o ensino recebido em casa, a pós-graduação de fim de semana, aquele curso e colégio que basta pagar e passar, são o espelho de uma elite que sempre pensou a educação como uma fornecedora de prebendas, de ornamentos, de diplomas para ser exibidos como troféus. O importante é ter o título de doutor o mais rapidamente possível, afinal o emprego, o consultório, o escritório, já está garantido por papai mesmo que se saiba de algo ou não. Educação pensada como modificadora da sociedade e não como uma mercadoria, educação pensada como uma questão de cidadania nunca foi aceito por essa gente. Se hoje o CNPq pode vir a ser fechado, isso se deve ao fato de que nossas elites nunca efetivamente valorizaram a ciência, a cultura, as artes. Sempre tiveram uma relação utilitarista com as descobertas científicas, e uma relação de atribuição de status e destaque com as artes e a cultura.

Bolsonaro e sua política de destruição do Estado, das instituições, da vida política, da educação, da cultura, da ciência, das artes. Seu gozo perverso com a destruição, com o conflito, com a morte (nesse particular o governador do Rio de Janeiro é um caso de extrema patologia), é a expressão de um desejo coletivo de predação formador de nossa população e de nossas elites. Depredar é um esporte nacional, que atravessa todas as classes sociais, ainda mais porque amplos setores da nossa sociedade, jogados na mais absoluta miséria só têm na predação e depredação a sua forma de sobreviver. Moro e Dallagnol atuaram como depredadores das empresas e instituições brasileiras. Caoolocando-se a serviço de nossas elites predadoras, fizeram da justiça um meio de destruição de reputações, instituições, empresas, empregos, da própria Constituição. Egos inflados, espaçosos, agindo ao arrepio da lei, para a consecução de objetivos pessoais e objetivos escusos. A depredação é, inclusive, uma forma recorrente de manifestação de descontentamento, de revolta, de raiva, de ódio, daqueles mais impotentes, diante da predação dos poderosos. Saquear sempre foi um gesto político dos pobres em épocas de grande penúria provocada pelo abandono por parte dos poderes públicos e por parte daqueles que mais têm. Num governo que, expressando os desejos nem tão secretos de nossas elites, resolveu encher o país de veneno, fogo e morte, resolveu incentivar e praticar a predação, podemos terminar por ter como resposta a depredação, a convulsão social. Ontem soaram as panelas e as imprecações, pode ser que, a continuarmos nesse caminho, terminemos por ouvir o som do saque, do quebra-quebra, da depredação como resposta política, notadamente se a oposição não conseguir articular um projeto político que canalize o crescente descontentamento com esse desgoverno.

 

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Durval Muniz de Albuquerque Jr. é professor, historiador e escreve aos domingos

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