OPINIÃO

O problema não é o neoliberalismo. É o capitalismo

Manter a paz de espírito já não estava muito fácil no Brasil de 2020. Veio, então, a pandemia, fazendo com que tudo até então parecesse um exercício preliminar.

As projeções sobre o “novo normal” tornaram-se irritantes. Poucas delas, no entanto, preocupadas com os interesses corporativos que veem na crise a oportunidade perfeita para encher ainda mais seus cofres. Parte desses interesses gira em torno da vacina, um potencial manancial de lucros para as grandes corporações farmacêuticas – que não são “malvadas”, como a lupa moral nos induz a achar, mas apenas reprodutoras do incorrigível e destrutivo metabolismo do capital, para quem vidas não são nem mesmo um detalhe. Falar em “novo normal” sem falar em capitalismo e, sobretudo, na incapacidade das democracias liberais em administrar a crise sanitária é como tratar do fatídico sete a um sem abordar os sete gols da Alemanha.

Identificar o essencial é o primeiro passo. O problema, como parte da esquerda costuma apontar, não está no neoliberalismo. Quando a discussão toma esse rumo, as alternativas que surgem costumam girar em torno de formas que não sejam neoliberais, permanecendo presas, portanto, à moldura capitalista, que não perde a oportunidade de se colocar como imutável, natural e a-histórica.

Assim como não há capitalismo eterno, também não há capitalismo bonzinho (produtivo) e capitalismo malvado (neoliberal, financeirizado). Há capitalismo, sedimentado em quaisquer de suas formas na exploração impiedosa da classe trabalhadora e no roubo da riqueza coletivamente produzida.

Acreditar ser possível humanizar o capital, tirando-o da órbita neoliberal, nos leva à seguinte pergunta: as condições históricas de hoje são suficientes para pensarmos em uma reabilitação da matriz de produção fordista e seu Estado de bem-estar social, ferozmente atacado pelas formas neoliberais a partir do final dos anos 70? Definitivamente não, pois não há Guerra Fria, União Soviética, avanço do movimento socialista e o fortalecimento das forças sindicais; não há, enfim, a conjuntura de medo da revolução que não só forçou, como ainda força concessões do capital ao trabalho.

No mosaico das previsões sobre o mundo pós-pandemia, é certo que o futuro depende do que vem sendo feito no presente. Colorido ou cinzento, o novo normal carregará consigo as marcas das sequelas emocionais, físicas e financeiras infligidas pelo novo coronavírus, todas nascidas em um contexto no qual o instrumental apto a evitá-las não foi posto em campo porque “a economia não pode parar”. Não há capitalismo que, movido pelas mais belas intenções, discorde da essência dessa assertiva.

Teríamos sorte se a fonte das mazelas pandêmicas estivesse apenas no enclausuramento – um privilégio em uma sociedade tão desigual. Abrir mão do convívio com amigos e familiares é duro. Mas se torna ainda mais difícil quando se percebe que, como apontou a última pesquisa Datafolha, Bolsonaro está crescendo em popularidade apesar do desdém com que vem tratando a crescente pilha de cadáveres. E mais: não só manteve, como aparentemente ampliou a coesão de seu núcleo de apoio na sociedade. Sinais de que não se trata de um governo fraco, como alguns de seus opositores, entre desejos e diagnósticos, costumam afirmar.

Reconhecer que Bolsonaro conseguiu emplacar sua versão genocida dos fatos, contribuindo para que governos municipais e estaduais flexibilizassem as medidas restritivas antes mesmo do pico da pandemia, é fundamental para que se faça um freio de arrumação a partir de uma realidade na qual, se há os que podem ficar em casa mas saem, há também os que saem porque não podem ficar em casa. Uma realidade na qual parte dos 100 milhões de brasileiros e brasileiras que sobrevivem com R$ 413 mensais passaram a receber R$ 600 de auxílio emergencial.

Se algum trecho da história foi pintado em tom de cinza, então foi esse, afirmou Marx em “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”. Publicado em 1852, o texto traz uma refinada análise do xadrez político que tornou possível que um medíocre e autoritário sobrinho de Napoleão chegasse ao poder na França. Nove anos antes, o pensador alemão escrevera a um amigo que “a situação desesperadora da época na qual vivo me enche de esperança”.

Ainda há tempo para dar cores ao novo normal, por mais cinzentos que sejam seus primeiros rascunhos. Pular a vala da barbárie, porém, requer que se coloque em xeque o próprio capitalismo, que do seu nascimento até hoje escorre sangue e lama por todos os poros, como também ensinou Marx.

A direção desse pulo só pode ser uma: a do socialismo.

* Gustavo Freire Barbosa, advogado e professor universitário, mestre em direito constitucional e garantia de direitos pela UFRN

 

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