CULTURA

Macambira: o que a primeira mostra de cinema feita só por mulheres no RN diz à sociedade machista

De Marcela Freire e Tatiana Lima*, especial para a agência Saiba Mais

A Mostra Macambira de Cinema é um marco no Rio Grande do Norte. É o primeiro evento audiovisual feito por mulheres no qual todos os filmes também foram dirigidos por corações e mentes femininas. A mostra ocorreu nos dias 10,11 e 12 de março exibindo 31 filmes, sendo 12 filmes potiguares e 19 de outras regiões do país. A realização foi do coletivo Mulungu Audiovisual e Salobra Filmes.

Além da obras audiovisuais, vários debates propiciaram a aproximação entre realizadoras e público. A Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Norte esteve na mostra, com uma cobertura também exclusivamente feminina, pela primeira vez.

Nas sessões realizadas no auditório do Nepsa I, no Centro de Ciências Sociais Aplicadas da UFRN, o auditório esteve lotado. De acordo com Diana Coelho, uma das produtoras, esta é a primeira mostra mais longa com esse foco no Rio Grande do Norte.

“Mas há uma rede forte de festivais do tipo no Brasil”, destaca a produtora.

A idealizadora da mostra ainda em 2015 foi Pipa Dantas: “Em 2018 fui ao FINCAR, em Pernambuco, e o festival se tornou nossa maior inspiração”, explica.

O Festival Internacional de Cinema de Realizadoras (FINCAR) estava, então, em sua 2ª edição, com uma programação com mais de 70 filmes.

Em 2018, elas inscreveram o projeto em um edital do Sebrae, mas não foram selecionadas. A aprovação e o patrocínio saíram em 2019, por meio do Fundo de Incentivo à Cultura (FIC) da Prefeitura do Natal.

Diana se juntou, ainda, a Rosy Nascimento, do Coletivo Mulungu Audiovisual, que realizou a mostra. O toque de Rosy foi dado na coordenação, produção, curadoria e na escolha de uma capacitação oferecida durante os três dias de festival: uma oficina de afroficção, ministrada pela produtora sergipana Anti Ribeiro. A mostra recebeu, ao todo, 215 filmes para seleção.

Mostra Potiguar

 Dona Maria – A Mão que Move a Cura pela Folha, de Babi Freire, foi o filme que abriu o primeiro dia da Mostra Potiguar da Macambira. A realizadora conta que Dona Maria é a rezadeira que já cuidou dela, da mãe e da avó. É tida como referência na região de Lagoa D’Anta no manuseio de plantas medicinais, apesar de mal saber escrever.

Como outros realizados nos últimos anos, Dona Maria é um filme de perfil de um personagem, sem outros depoimentos. A diretora acompanhou a rezadeira em suas idas ao cemitério da cidade para cuidar de “suas almas”, e entre esses afazeres a personagem relata sua trajetória e o que entende por sua missão.

Mostra Macambira de Cinema aconteceu pela primeira vez no RN (foto: divulgação)

Na mesma toada segue Labirinteiras, de Renata Alves. Acompanhando as histórias de Rosa Maria, Mariquinha, Deuzuíte e outras bordadeiras, o documentário ganha um tom de humor quando as protagonistas contam que bordar é “serviço só de mulher”. Por outro lado, reconhecem que o trabalho que fazem permite que cumpram, ao mesmo tempo, o chamado “terceiro turno”: cuidar dos filhos e da casa. O filme é feliz em tangenciar o tema da sobrejornada de trabalho das mulheres – bastante atual – sem tecnicismos.

Performance, de Karina Moritzen, foi o terceiro curta da noite, trazendo a artista Potyguara Bardo num documentário praticamente todo feito em planos fechados. Bardo explica onde e como começou a performar, e como se sente enquanto o faz. Não sabemos, porém, nada de seu contexto (uma plateia que não conhece o sucesso que a artista faz hoje na cena musical nordestina terá dificuldades em se identificar com o filme).

A Parteira, de Catarina Doolan, foi o último filme exibido no primeiro dia de mostra. Eleito o melhor curta potiguar de 2019 pela Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Norte, o documentário de 20 minutos aborda a trajetória da parteira Donana, de São Gonçalo do Amarante, personagem irreverente e ativista da saúde coletiva e dos direitos das mulheres.

O filme de Catarina é o mais bem resolvido dos demais documentários do primeiro dia. De acordo com a produtora Dênia Cruz, o filme foi rodado durante uma semana, em regime de imersão total na vida da personagem, conta com depoimentos de suas filhas e acompanha sua participação em reuniões e debates sobre o atendimento à saúde da mulher.

Longe de ser uma radical do parto residencial, Donana é uma defensora do Sistema Único de Saúde, e uma das cenas mais tocantes captadas por Catarina é aquela em que ela conta a história de uma maternidade de São Gonçalo, hoje em ruínas, andando sobre elas. “Eu passo por aqui e viro a cara para não ver”, diz.

A história de Donana teria fôlego para virar um longa-metragem, e o seu sucesso advém não só dá riqueza da personagem, mas da sensibilidade de suas realizadoras, que tiveram uma escuta atenta à sua bela história.

Mostra Potiguar – Curtas de Ficção

Dando seguimento a Mostra Potiguar, o segundo dia de filmes trouxe quatro curta metragens de ficção do gênero suspense e terror, parte da Sessão Tremor.

 Paralise, de Julia Sena, foi o primeiro filme da segunda noite da mostra. Trata-se de uma animação de suspense que fala sobre a paralisia do sono a partir do relato de três narradores. A escolha por uma animação em preto e branco, com traços ora surrealistas, ora expressionistas, dão ao curta uma atmosfera de horror que casa bem com seu tema.

Segundo a diretora, o curta reflete, em parte, a sua experiência pessoal com a paralisia do sono. Produzido em menos de um mês, Paralise chama atenção, principalmente, pela qualidade das animações realizadas por Vanildo Gomes, que ilustram bem as sensações de angústia descritas pelos personagens.

Público predominantemente feminino acompanhou os filmes e os debates da Macambira (foto: divulgação)

Outro curta da noite foi Distorção, de Paula Pardillos e Davi Revoredo, que aborda a questão de programas policiais policialescos, como o Patrulha da Cidade, utilizando uma narrativa de suspense, na qual uma senhora passa a ficar cada vez mais amedrontada dentro de sua própria casa depois de assistir muitas notícias de crimes pela televisão.

O curta, que teve inspiração nos filmes do diretor americano David Lynch, foi o mais interessante entre as exibições da Sessão Tremor. Com a escolha de ângulos inusitados, o curta consegue transmitir tensão e conclui com um final surpreendente.

Em seguida, houve a exibição do curta Meu Colega de Quarto, de Luiza Rose, que segue a rotina de um misterioso homem mascarado. Trata-se de uma metáfora sobre as “máscaras” sufocantes que são usadas por quem é diferente mas precisa ser aceito na sociedade.

Embora haja um esforço em usar diferentes locações, o filme de 11 minutos faz pouco em seu roteiro para desenvolver o tema, o que torna o curta repetitivo e com um final previsível.

O último filme da sessão foi Antrum, de Helena Sebastiana, um curta que se desafiou a realizar uma história em um só ambiente, um quarto, onde estão presos dois personagens, Talita e Davi.

A diretora relata que a ideia do roteiro nasceu da dificuldade de se fazer um filme que não contou com nenhum tipo de recurso para sua produção. O destaque de Antrum é atriz Vanessa Labre, que interpreta Talita, e cuja performance é o ponto alto do filme.

Quanto Custa o Cine Delas?

 A Mostra Macambira contou também com debates. Na noite do dia 11 março, houve uma roda de conversas sobre o tema “Quanto Custa o Cine Delas?”, com questionamentos acerca da captação de recursos para a produção de filmes no estado.

Participaram do debate Maryland Brito, professora de audiovisual e produção cultural do IFRN; Babi Freire, produtora audiovisual, e Rebeca Souza, atual presidente da EmQuadro Filmes, empresa júnior de audiovisual da UFRN.

Realizadora e professora Maryland Brito participou de debate sobre o financiamento do audiovisual no RN (foto: divulgação)

As participantes destacaram a dificuldade de produção no Rio Grande do Norte, notando que a maior parte das produções são independentes, isto é, são feitas com parcerias, equipamentos emprestados e quase nenhum recurso financeiro.

A produtora Babi Freire relatou que o seu filme foi realizado a partir de um desejo pessoal, mas destacou que “não é um processo romântico”. A falta de recursos ainda impede que muitas produções saiam do papel ou elas são feitas com grandes limitações e sacrifícios pessoais.

Rebeca Souza também falou sobre as dificuldades do mercado de trabalho na área do Audiovisual, e como a empresa júnior EmQuadro Filmes surgiu da necessidade dos estudantes do curso de Audiovisual da UFRN de tentar se posicionar estrategicamente no mercado, ainda que incipiente.

A importância de mostras como a Macambira

A dificuldade de captar insumos e as restrições de acesso às políticas públicas significa que muitas realizadoras independentes que produzem seus filmes com pouco ou nenhum recurso ficam sem oportunidade de mostrar os seus trabalhos.

Assim, eventos como a Mostra Macambira são importantes porque fornecem espaços para que as mulheres possam exibir os seus filmes, debater seus desafios particulares dentro do setor audiovisual e mostrarem as suas histórias, contadas sob os seus pontos de vista.

* Marcela Freire e Tatiana Lima são membros da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Norte.

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