OPINIÃO

O que é um autor ? Grennwald responde

A cultura escrita está farta de casos em que autores foram intimados a responder por seus escritos. Trata-se de uma história de grandes e pequenas batalhas em que, como diriam Foucault e Chartier, foi se configurando a função “autor”, isto é, o conjunto de mecanismos e operações a partir dos quais um nome próprio passa a ser atribuído a alguns textos e não outros. Dentre essas batalhas, certamente a luta pela propriedade e pelo direito autoral se constitui como a mais importante. E quando menciono a palavra “intimados” não me refiro a entrevistas ou palestras em que escritores são chamados a discorrer sobre seus processos de criação e suas obras, refiro-me mesmo à semântica pesada em que se proclama tal palavra: uma ordem de modo impositivo.

Gustav Flaubert e Machado de Assis que o digam, dois casos que comento aqui rapidamente.

O primeiro, após ter publicado o romance “Madame Bovary”, juntamente com o editor Laurent Pichat, da Revue de Paris, sofreu processo na 6ª Corte Correcional do Tribunal do Sena. Acusação: a obra foi compreendida como “imoral” e como ofensa à moral e à religião. Afinal, autor e editor foram absolvidos, em 7 de fevereiro de 1857. E desse episódio, questionado sobre quem era a personagem adúltera que servia de crítica à burguesia, soou a resposta clássica por parte de Flaubert: “Emma Bovary c´est moi”.

Já em relação ao Bruxo do Cosme Velho, a situação foi um pouco diferente, mas igualmente coercitiva: Machado de Assis sofreu duras críticas, por parte sobretudo de Silvio Romero, um dos grandes nomes da virada antirromântica de 1870 da Escola de Recife. Acusação: sua obra não abordaria suficientemente os temas da escravidão e da condição negra no país. E mais: além da obra não abordar o tema (como se, pela condição de ser mulato, o autor tivesse que obrigatoriamente falar da temática racial), Machado ainda foi acusado de pretender-se “branco” com tal abstinência do tema.

Esses dois rápidos exemplos me remetem imediatamente a um amigo bardo de Fortaleza, o Dedé Calixto, que sempre dizia quando alguém vinha lhe exigir tal ou qual elemento em sua poesia: “Não gostou do meu texto? Vai lá e escreve o seu”. Mas me remetem também ao caso da vez, o caso de Glenn Greenwald, o jornalista do site The Intercept, “convidado” a responder, numa comissão da Câmara dos Deputados na última terça deste mês de junho, sobre a série de suas reportagens em que são divulgados vários tipos de mensagens (sobretudo de áudio) aos quais teve acesso e em que fica suficientemente claro o quanto julgamento e acusação de Lula pela força-tarefa da operação Lava-Jato, comandada por Sérgio Moro, foram, em alguma medida, tendenciosas e inconstitucionais.

Evidentemente, cada posicionamento político-partidário fez uso daquele ensejo da forma mais conveniente. Mas além de palanque, a situação também serviu de momento- inquisição, sobretudo por parte dos integrantes da bancada de apoio ao governo Bolsonaro, e ainda mais os do mesmo partido, o famigerado PSL. Esses eram os mais raivosos, portando-se tal qual estivessem em um tribunal medieval. E o mais interessante é que, embora o autor das reportagens, o americano Greenwald, jornalista e advogado radicado no Brasil desde 2005, estivesse assumindo sua função de jornalista investigativo (ele já ganhou, inclusive, o prestigiado Prêmio Putzler de jornalismo em 2004 por conta de sua cobertura no caso Snowden), foi ele o alvo da “inquisição” e não os autores das mensagens denunciadas, como Sérgio Moro e Daltan Dallagnol.

Abstenho-me de citar alguns dos momentos, tragicômicos, de tal “inquisição”. Melhor seria aludir à série de textos (nas redes sociais, principalmente) desdobrados a partir desse acontecimento, como memes e outras postagens replicando alguns daqueles momentos instalados na Comissão de Direitos Humanos e Minorias do dia 25 de junho de 2019.

Como o episódio em que, após Greenwald (em resposta à intimação da deputada Carla Zambelli (PSL-SP) de que publicasse os áudios das conversas entre Moro e vários procuradores), afirmar um “você vai se arrepender muito a desejar que nós façamos isso”, a deputada se retira não sem antes ouvir: “Fica, querida, vai ter bolo”.

(https://dayigram.com/tag/jornalismoinvestigativo)

Ou ainda o momento em que foi indagado a respeito de sua vida íntima. O deputado José Medeiros (Podemos-MS) referiu-se ao marido de Glenn Greenwald, como “parceiro sexual”, ao que o jornalista ratificou: “Marido!”. Foi suficiente para as postagens acontecerem: “Nem marido nem esposo. É conje”.

As postagens das redes sociais, como os memes, por exemplo, dada a sua condição viral e efêmera, permite ampliarmos ainda mais a discussão sobre autor e obra e a responsabilidade de um sobre outro. Textos literários são mais isentos do que jornalísticos? E no caso de postagens pessoais, até onde vai a fronteira entre o que se “pode” ou não dizer? Como relacionar o nome próprio ao indivíduo e ao seu papel público?

Essa discussão ainda vai render muito, pode apostar. E eu assino embaixo.

 

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