OPINIÃO

O que falta para Bolsonaro cair? Falta o principal 

Leio e escuto essa pergunta como um mantra, como uma obsessão, talvez um desabafo, uma esperança. Em mensagens privadas no Zap, de forma pública no Facebook, em conversas cara a cara (mas com máscara), em cartazes de protesto.

O que falta para Bolsonaro cair? Principalmente hoje em dia com 220 mil mortes por Covid-19, uma gestão desastrosa da pandemia, um ministro da Saúde trapalhão, uma série interminável de quebras à liturgia do cargo e possíveis crimes outros, que vão de depósitos misteriosos na conta da esposa a esquema de “rachadinha” do filho?

Desejo sempre responder a pergunta de maneira esperançosa, otimista, cidadã. Que falta pouco. Quase nada. Que mais um pouco e ele cai, será afastado e jogado na lata de lixo da História. Mas não é bem assim. A verdade nua e crua é que para Bolsonaro cair, falta o principal: vontade política (leia-se um Congresso disposto a votar um impeachment); vontade midiática e a chamada “voz das ruas”.

Vamos por partes. Atualmente a Câmara Federal, comandada de fato pelo “Centrão”, que inclusive hoje deve conseguir emplacar o medíocre Arthur Lira na presidência da Casa, não mostra a menor vontade de afastar Bolsonaro. O raciocínio da maioria do Congresso é político, não passional. Não avalia a capacidade de gestão, o tresloucamento e sim a relação política. Collor e Dilma caíram por perder o diálogo político com o Congresso, não pelos  seus defeitos em si.

É preciso também falar sobre Rodrigo Maia. É certo que ele sentou em cima das dezenas de pedidos de impeachment de Bolsonaro. Mas, também é certo que, raposa política e cerebral como é, ele fez diversas vezes as contas e percebeu que não havia os dois terceiros de votos necessários para tal. E colocar impechmente de presidente sem ter certeza que ele será aprovado queima o Congresso e fortalece o acusado.

Vamos à vontade midiática. Por mais que Bolsonaro agrida e ofensa a imprensa, essa ainda não partiu para cima dele como a fúria que fez contra, por exemplo, Lula e Dilma. No dia em que a grande mídia (grupo Globo, Folha, Estadão, SBT, Band) quiserem realmente derrubar o presidente, como fizeram com Dilma, a conversa para a ser outra. Por ora, a grande imprensa engole as barbaridades do despresidente, libera espaços para articulistas sentarem o sarrafo no demente, produzem editorais indignados, e só.

Já quando á voz das ruas, além de estarmos em plena pandemia, onde aglomerações não são permitidas em razão da saúde pública, ainda existe um certo anestesiamento de grande parte das forças progressistas e uma acomodação de parte da população, cuja fúria atual parece mais restrita às redes sociais e aos grupos de Zap do que em subir em Congresso Nacional e paralisar ruas de São Paulo, como nos protestos de 2013 que desencadearam o clima propício para a Lava Jato e o impeachment de Dilma.

Enfim, esse somatório de fatores – de imensa dimensão – mostra que a preço de hoje estamos mais próximos de Bolsonaro chegar inteiro para tentar a reeleição do que para seu impeachment. “O que falta para Bolsonaro cair?” é uma pergunta retórica, quase ingênua. Na verdade falta quase tudo. Uma pena.

 

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