OPINIÃO

O que o Barcelona de Guardiola e Messi tem a ver com o Brasil atual

Anúncios

Assisti com muita atenção aos feitos do Barcelona entre 2009 e 2012, quando o técnico catalão Pep Guardiola treinou o clube. E lembrei desse período ao assistir e ler comentário do jornalista Mauro Cézar Pereira na semana passada sobre como muita gente, principalmente no Brasil, torcia contra o técnico espanhol do Manchester City, da Inglaterra, o mesmo Pep Guardiola.

Na reportagem, Mauro tentou analisar o ódio que Pep atraía. Discreto, trabalhador e perfeccionista, o espanhol ganha com frequência o ódio de internautas, como já foi dito, principalmente aqui neste país tropical abençoado por deus e bonito por natureza.

Bem, voltemos a 2008 e à minha relação pessoal com essa história toda e o paralelo com o Brasil de hoje.

Guardiola ganhou o Champions League com o Barça em 2009, numa final emocionante contra o Manchester United de Alex Ferguson e Cristiano Ronaldo. Em 2010 caiu na semifinal contra a Internazionale de Milão. Em 2011, novamente campeão, contra o mesmo Manchester United. E em 2012, o Barcelona de Pepe ficou em outra semifinal, contra o também inglês Chelsea. Quatro temporadas de glórias e disputas para time e técnico, portanto. Incluindo aí o bicampeonato mundial de clubes em 2009 contra o Estudiantes, da Argentina e em 2011 contra o Santos, de Neymar, que aliás não pegou na bola e viu o time perder por 4×0.

Anúncios

O Barcelona de Guardiola, com Messi, Xavi e Iniesta no auge e mais Busquets, Piqué e o líder Puyol jogava o fino da bola. Ganhava e encantava. Era um período em que eu ia assistir muitos jogos em bares, quase sempre com a filhota Ananda Carvalho, que curtia futebol internacional desde tenra idade. Encantava-me com o toque de bola, classe do Barça, além do histórico sócio-político do clube, aliás, “més que un club”.

Mas, curiosamente, a cada jogo, a cada conquista do Barcelona, o pessoal que assistia perto de mim torcia mais contra o time catalão.

Até que foi virando ódio. Lembro com detalhes da semifinal de 2012, contra o Chelsea que assisti com Ananda no Bari Palesi, que o Barça precisava vencer por dois gols de diferença. O resultado final foi 2×2, classificando o chato time inglês para a final contra o Bayern de Munique. Todos os marmanjos do bar eufóricos com a derrota do Barcelona e detonando o “bom mocismo” dos craques do time blaugrana.

Sim, a bronca do pessoal era porque Messi, Xavi e Iniesta eram “bons moços”. Porque não tinham casos com modelos famosas, nem apareciam em revistas de escândalos, porque não quebravam carros de luxo dirigindo bêbados.

Quando o Barcelona jogava contra Cristiano Ronaldo, Neymar, Ibraimovich, Balotteli, lembro que a torcida contra era ainda maior. Estes citados era que representavam o “futebol de verdade”, a “autenticidade”, e nas entrelinhas eu percebia a frase, “esse eram machos”, em contrapartida aos – e eu ouvia nas entrelinhas – “viadinhos bem comportados” do Barcelona;

E foi nesses diapasão que o time espanhol/catalão ganhou tanto uma horda de fãs como uma leva de detratores e haters no Brasil. Por jogar bonito, e bem mais por isso, por seus craques não se envolverem em escândalos envolvendo mulheres, bebidas, drogas e carros de luxo.

Um contingente de homens, portanto, que tem ojeriza ao modelo que eles chamam depreciativamente de “bem comportado” e que tem como modelo homens com comportamento “de macho” e tudo que possa se incluir nisso, desde namorar modelos top até quebrar Ferraris em estradas. Passando por exemplos de “macheza” e “troca de namoradas” e certa agressividade.

Uma gama de homens que mostrou ou desenvolveu uma crescente masculinidade tóxica que votou em 2018 você sabe em quem.

Que, como detestou o Barcelona e odeia Guardiola, despreza qualquer coisa que tenha a ver com estudo, foco, concentração, ordem e respeito.

Um grupo de pessoas que acha o máximo Neymar contundido e com jogo do time dele, o PSG, nas proximidade estar em camarote de Carnaval do Rio beijando beldades. Mas, ridiculariza Guariola estudar durante dias o adversário em vídeos. Como desprezava Iniesta por ser rico e bem sucedido e não estar sempre com modelos e da high life espanhola.

O brasileiro médio admira o Adriano, Imperador, que podendo ser respeitado em Milão e na Europa prefere jogar carteado e beber cachaça na favela, do que o Leonardo, poliglota e que transita com desenvoltura nos bastidores dos clubes europeus de ponta. Prefere um Neymar cujo pai negocia não pagar imposto do que um Raí que ganhou Paris e desenvolve trabalhos sociais com crianças em São Paulo.

Essa conjuntura explica porque o brasileiro médio apoiou a deposição de uma presidenta honesta e porque votou em um presidente misógino, racista, homofóbico. É a maneira Galvão Bueno de querer vencer com gol impedido. A eterna Lei do Gérson, de levar vantagem em todo. No Futebol e na vida real.

 

 

Artigo anteriorPróximo artigo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *