OPINIÃO

O que o diabo da canjibrina não faz…

Entrei no supermercado para fazer umas comprinhas, coisa pouca, tinha que correr para rádio e outros compromissos. Nisso, meio perdido entre os corredores encontro um amigo do mundo da bola. Ex-jogador profissional, não muito conhecido, irmão de um cracaço de bola que fez história no América. Ele, notei logo, estava meio afogueado, tinha tomado umas e outras. Estranhei, ele não era de beber. Jogamos juntos no Campeonato de Master e não fazia parte das barcas, indo sempre para casa depois das partidas lá no Jiqui, onde comandava o querido amigo Maia.

Cumprimentei-o, sorriu como sempre, puxou conversa e me pediu para levá-lo à seção de bebidas. Fui com ele, alegre além da conta, me explicando que tinha vindo de moto da sua residência, morava no Paço da Pátria, e estava fazendo uma brincadeira em casa com amigos e familiares e a bebida “quente” havia acabado. Falamos de futebol, da velha bola que nos une, enquanto ele ia colocando garrafas de vodka, cerveja e cachacinha no carrinho. Nos despedimos, ele se dirigiu ao caixa e eu voltei a procurar os itens de minha lista. Demorei mais uns quinze, vinte minutos, se muito e também me dirigi ao caixa. Lá fora, já na saída, um bate-boca danado, era uma arenga, gente falando muito alto, briga. Olhei por curiosidade, quando percebi que meu amigo estava no centro da confusão.

Seguranças o cercavam, um rapaz, acho que gerente da loja, muito gentil e paciente,  tentava acalmá-lo e ele revoltado, gesticulando muito, se tornando agressivo. Me assustei, esqueci minhas compras e fui lá tentar falar com ele e, se possível, entender e ajudar no que estava acontecendo. Ele, assim que me viu, veio com tudo na minha direção…

– Edmo, bote lá na sua rádio, no seu jornal, fui roubado, roubaram minha moto aqui do estacionamento do supermercado – dizia possesso.

Pedi calma e que ele me contasse exatamente o que tinha feito ao chegar ao estacionamento. E ele narrou tudo direitinho, que tinha vindo muito apressado, entrou no estacionamento, colocou a moto encostada a outras e quando voltou a sua não estava mais, “tinha sido roubada”, e mostrava as chaves e o capacete na mão.

E o coitado chorava, lamentando-se porque ainda não tinha pago nem todas as prestações. O rapaz do supermercado, volto a dizer, muito gentil, mas notando que ele estava alcoolizado, tentava fazer com que ele rememorasse com calma, se tinha vindo mesmo de moto. E nesse ponto ele estourava, mostrava a chave, o capacete, “você tá pensando que eu tô doido, eu bebi um pouquinho, mas não tô maluco não”, repetia revoltado.

Me assustei com a situação. Meu amigo empurrava os carrinhos, começava a ficar violento, exigindo que o supermercado pagasse pela moto roubada. Mais uma vez apelei para sua amizade a mim, pedi que não se alterasse, pois já tinha segurança querendo chamar a polícia e que tudo seria resolvido. O meu pobre jogueiro, desesperado, não se acalmava, começou a chorar pedindo sua moto e a ameaçando até quebrar coisas. Eu, agoniado, o segurava, mas não sabia mais nem o que fazer para evitar o pior.

E chega a polícia. Fiquei quase em pânico, pois o meu camarada dizia em alto e bom som que “ia preso, mas queria a moto dele, só saía dali quando o supermercado pagasse pelo roubo de sua moto”.  Para minha, nossa sorte, e de todos, o policial que veio tomar informações do ocorrido era um menino da rua, rapaz que vi crescer, irmão do ex-craque do ABC Tinho, e que também conhecia, mais ou menos, o meu camarada desesperado que já nem parecia aquele sujeito cordato, calmo que, em campo, quase ninguém ouvia sequer a sua voz.

Perguntas vão, perguntas vêm, Cléber, o policial, notando que ele estava alterado por conta da bebida pede com calma que ele descreva a moto. E ele, com segurança, fala modelo, marca, cor, ano, cilindrada, tudo direitinho. Cléber vai ao estacionamento, confere todas as motos, volta, e dá uma saída junto com outro companheiro policial. Aqui comigo, ainda no desespero, meu amigo atende o telefone, era a esposa estranhando a demora. Fiquei mais penalizado ainda: o coitado narra chorando que roubaram sua moto do estacionamento do supermercado e ele estava com a polícia e que os caras não queriam devolver ou pagar pela moto.

Eu, perdidaço, sem poder fazer nada. Daqui a pouco lá vem o meu amigo policial, Cléber, chama meu craque e manda ele repetir todas as informações sobre sua moto. Ele confirma tudo que já havia dito, cor, marca, cilindrada, jeito dos pneus, enfim…Cléber puxa ele pelo braço e vai levando-o para o lado oposto ao estacionamento, no mesmo supermercado, outro espaço onde também as pessoas deixavam seus veículos. Ele segue o policial e eu vou atrás dos dois, assim como as outras pessoas que também acompanhavam o caso, os curiosos.

A moto do meu amigo estava lá, intocada, bonitinha.

-É sua moto essa? – pergunta policial Cléber. O rosto de meu pobre amigo se ilumina. Ele já nem estava mais com nenhum sinal de embriaguez, o sofrimento, a agonia havia curado a bebedeira. – Sim, é ela sim – responde, alegre, mas com uma cara de constrangimento, vergonha e até um pouco de medo, pois não sabia qual a reação do policial, mesmo amigo, e das pessoas. O coitado, cheio de canjibrina, apressado, chegou e deixou a moto na lateral do supermercado, e na sua cabeça pensando ser o estacionamento fechado da loja. Não houve nenhuma represália, o rapaz do supermercado entendeu, ficou contente, Cléber também pela sua percepção de policial e tudo acabou bem.

-Pegue sua moto e vá pra casa, mas hômi, preste atenção, não vá beber mais não – disse o rapaz do supermercado. Ele olhou para mim, para o policial Cléber, deu um abraço nele, outro em mim, sorriu amarelo, pediu mil desculpas ao rapaz do supermercado e foi embora aliviado. Aliviados ficamos todos.

Quando ele saiu, Cléber, brincalhão como sempre, olhou para mim e disse: o que o diabo da cachaça (eu chamo canjibrina) não faz…

 

 

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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