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O que sobrou da democracia na diplomação dos eleitos do RN

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Assim que foi chamada para receber o diploma de deputada estadual na solenidade de diplomação dos parlamentares eleitos pelo Rio Grande do Norte, a vereadora de Mossoró Isolda Dantas (PT) deu às mãos a dois militantes negros do PT e tentou subir no palco.

Para surpresa geral da plateia e da própria parlamentar, foi impedida. Segundo a equipe do cerimonial, a presença dos jovens acompanhantes da futura deputada era uma manifestação política, o que não seria permitido naquele local e naquela cerimônia.

Talvez, pelo glamour do teatro Riachuelo, o chefe do cerimonial não tenha se dado conta de onde estava realmente: numa cerimônia política, com 39 parlamentares eleitos pela manifestação política de mais de 2 milhões de pessoas que foram às urnas em outubro no Estado.

Até a vez de Isolda Dantas, todos os demais deputados eleitos subiram ao palco com seus respectivos convidados, a maioria familiares, e não tiveram qualquer tipo de problema. Talvez o chefe do cerimonial não tenha se dado conta, mas no Brasil de hoje, expor a família também é uma manifestação política, independente da orientação ideológica.

Por óbvio, Isolda não aceitou a “regra” que parecia (e era) uma censura velada. E a partir de então, foi disparado o gatilho da polarização que divide o país num imenso Fla-Flu.

Foram diplomados na quarta-feira (19), ao todo, 23 deputados estaduais, oito deputados federais, três senadores, três suplentes de senador, o vice-governador e a governadora. Dos 39 parlamentares, apenas quatro eram do PT e um do PCdoB.

Aos gritos de Lula Livre de parte da plateia, em especial dos convidados dos quatro parlamentares petistas e um comunista, Isolda recebeu o diploma ao lado de Thayná Araújo e Alessandro Crisóstomo, dois militantes que faziam referência ao ex-presidente Lula, ao PT e à Marcha Mundial das Mulheres. A maioria dos convidados, conservadora, vaiou a parlamentar.

À imprensa, após a cerimônia, a petista disse que aquele gesto, aplaudido e vaiado, traduz a campanha vitoriosa dela e mostra, também, como será o mandato a partir de 1º de fevereiro:

– As pessoas escolheram os convidados que talvez refletissem suas candidaturas. Eu convidei dois militantes jovens, negros, que representam o que foi a nossa campanha. Não quiseram deixar eu subir e é claro que eu não subiria sem eles. O argumento foi de que seria uma manifestação política, mas o ato de ser diplomado é uma manifestação política. E eu não abriria mão de não entrar com nossos militantes nesse momento tão importante porque traduz o que foi nossa campanha e o que vai ser nosso mandato.

Gesto semelhante teve deputada federal eleita Natália Bonavides (PT). Com um vestido longo vermelho, a petista subiu ao lado de Maristela, viúva do advogado e militante dos Direitos Humanos Marcos Dionísio Caldas, o Mosquito, uma das principais influências de Natália. Ao receber o diploma, a parlamentar abriu uma camiseta preta com a imagem do ex-presidente Lula e recebeu, de volta, a manifestação política da plateia em forma de aplausos e de vaias:

– Trouxe o símbolo do Lula Livre para marcar o momento que estamos vivendo, para mostrar que a democracia está extremamente fragilizada e que a principal liderança política do país é um preso político. As manifestações da plateia refletem o momento político do país e indica como vai ser a política a partir de 2019.

As manifestações da plateia subiram o tom também com a diplomação de candidatos de direita e extrema-direita. Sob gritos de “tapetão”, “golpista” e “devolva o mandato de Mineiro”, o deputado federal reeleito Beto Rosado (PP) foi hostilizado após a polêmica em torno da mudança de entendimento do ministro do TSE Jorge Mussi que tirou o mandato de Fernando Mineiro, terceiro candidato mais votado, e elegeu Rosado, o nono candidato entre os concorrentes.

O antipetismo, por sua vez, também se manifestou politicamente em maior número aplaudindo o parlamentar.

Outro que ouviu provocações foi o general Eliéser Girão (PSL). Ex-secretário de Segurança Pública do governo Rosalba Ciarlini, ele evocou para si na campanha a defesa do presidente eleito Jair Bolsonaro. Parte da plateia o questionou sobre Fabrício Queiroz, ex-motorista de Flávio Bolsonaro, que movimentou um montante em dinheiro muito acima do que a renda que lhe permite, mas sumiu desde o escândalo explodiu no seio da família Bolsonaro. A plateia mais uma vez se dividiu entre gritos de “Cadê o Queiroz?” e urros de “Mito!”.

Em resposta, o general bateu continência para o desembargador que lhe entregou o diploma e para a plateia.

Dos 24 deputados estaduais eleitos, apenas 23 foram diplomados. O único que teve o diploma negado foi coincidentemente o primeiro deputado estadual eleito pelo PSOL no Rio Grande do Norte.

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Filho de agricultor, trabalhador vigilante até hoje e morador da periferia de Natal, Sandro Pimentel está com as contas de campanha sub-judice, assim como senadora eleita Zenaide Maia (PHS), cujas contas foram reprovadas. Zenaide recorreu, o processo segue tramitando e a parlamentar foi diplomada, como lhe garante a legislação eleitoral; Sandro Pimentel, ao contrário, teve seus direitos negados sem que o TRE tenha sequer julgado suas contas.

Talvez o cerimonial não tenha se dado conta, mas o caso de Sandro Pimentel mostra que o Ministério Público e o Tribunal Regional Eleitoral também se manifestaram politicamente na solenidade.

A diferença é que ao contrário dos parlamentares eleitos e da plateia, não foi em nome e muito menos em defesa da democracia.

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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