OPINIÃO

O que Soul nos ensina sobre liberdade e trabalho

Numa tirinha da Mafalda, Susanita enumera seus planos para a vida: comprar uma casa bem grande, um carro bem bonito, muitas joias e depois ter filhos. Mafalda responde a ela que o único defeito é que isso não é vida, e sim um fluxograma.

A conversa entre Mafalda e Susanita tem alguma relação com o tema de Soul, a nova animação da Disney/Pixar. Joe Gardner é um talentoso pianista de Jazz insatisfeito com a vida de professor de música. Quando aparece a oportunidade de fazer parte da banda de uma conhecida saxofonista, Joe é vítima de sua desatenção, morre e acaba numa espécie de mundo do além que, além de receber as almas dos mortos, envia ao mundo as almas-crianças dos que ainda vão nascer. Na medida em que se vê responsável por acompanhar e contribuir para a formação de uma dessas pequenas almas, ele enxerga a oportunidade de voltar à vida e, assim, poder realizar o sonho de ser músico profissional.

O filme traz uma discussão interessante sobre as metas e missões da vida, focando não no conteúdo dessas escolhas, mas na (des) necessidade de tê-las. Propósito é diferente de missão, explica um dos guias das almas a Joe. O tema é fértil em discussões. Aqui pretendo me situar nas que envolvem a questão do trabalho e da liberdade.

Convém repetir que Joe é professor escolar de música. Embora ele não receba bem a notícia de sua estabilidade, com direito a plano de saúde e aposentadoria, sua mãe fica eufórica, pois vê o filho a salvo das incertezas que marcaram a vida do falecido pai, também músico. Joe trabalha não no que quer, mas no que é possível. Situação parecida com a do seu barbeiro, que sonhava ser veterinário mas foi obrigado pelas contingências da vida a abrir um negócio próprio, já que barbearias não exigem diploma. Um atestado de frustração e infelicidade? Não, ele explica, pois sabe que trabalha bem e até gosta do que faz.

As margens de escolha são bem menores na vida real. Hoje, cerca de 40% dos trabalhadores no Brasil se encontram na informalidade, boa parte em situação similar à dos tempos da primeira revolução industrial: sem seguridade social (aqui se explica a euforia da mãe de Joe) e submetidos a jornadas de trabalho estafantes, como é o caso dos que trabalham com aplicativos de transporte e entrega. Quais seriam os propósitos e missões de quem, como canta Cazuza, vive seus dias de par em par? E os milhões de desempregados que sequer têm o direito de serem explorados? Há condições de serem livres ao ponto de fazerem planos (não necessariamente iguais aos de Susanita)? Ou, ainda que não haja planos, há como aproveitarem sensações parecidas com aquelas da famosa cena de Amélie Poulain em que enumera seus pequenos prazeres?

Soul destaca a importância do trajeto da vida e das pequenas experiências enquanto seu propósito em si, ofuscado por missões que, uma vez cumpridas, causam sensações abaixo de nossas expectativas. O caminho – permeado por frustrações, vitórias, alegrias e tristezas, assunto também de Divertida Mente, outra ótima animação da Disney/Pixar – seria mais importante que a chegada. O problema é que, voltando ao Brasil de hoje, os R$ 413,00 que a metade dos brasileiros ganha por mês, segundo o IBGE, os colocam em um verdadeiro estado de escravidão de suas necessidades, privando-os mesmo das micro-satisfações cotidianas (Joe, ademais, é um homem negro, submetido a todos vitupérios de uma sociedade racista, como o filme sutilmente mostra na emblemática cena em que tenta pegar um taxi).

Não há como falar em liberdade nessas circunstâncias, o que nos leva à questão do trabalho e sua relação com o desenvolvimento de aptidões individuais (artísticas, culturais, esportivas, etc). Karl Marx, nos seus manuscritos econômico-filosóficos de 1844, escreve: “o trabalho é externo ao trabalhador, isto é, não pertence ao seu ser, que ele não se afirma, portanto, em seu trabalho, mas nega-se nele, que não se sente bem, mas infeliz, que não desenvolve nenhuma energia física (…) o trabalhador só sente, por conseguinte, e em primeiro lugar, junto a si [quando] fora do trabalho e fora de si [quando] no trabalho”. E conclui: “o seu trabalho não é, portanto, voluntário, mas forçado (…) não é, por isso, a satisfação de uma carência, mas somente um meio de fazer necessidades fora dele”.

Assim, quando a atividade vital se limita à exploração da força de trabalho, a vida produtiva – que vai muito além dele – passa a se ater aos seus quadrantes: “o trabalho, a atividade vital, a vida produtiva mesma aparece ao homem apenas como um meio para a satisfação de uma carência, a necessidade de manutenção da existência física. A vida produtiva é, porém, a vida genérica. É a vida engendradora da vida”. Com o trabalho unicamente como meio de sobrevivência, “a vida mesma aparece só como meio de vida”.

Joe e seu barbeiro em algum momento podem até passar a gostar do que fazem, mas, enquanto o trabalho for, de modo geral, determinado pela exploração e para a acumulação, ele continuará enclausurando todo o potencial criativo e libertário das pessoas, pois em sua base está a prisão da energia vital pela necessidade de sobrevivência dos trabalhadores, agrilhoados à escravidão assalariada que prende seu tempo livre nas masmorras de “suas funções animais”, como comer, beber e procriar. “O animal se torna humano, e o humano, animal”, conclui Marx.

Não há como despertar as potencialidades humanas em uma sociedade de exploração, individualismo e competitividade na qual metas e missões são apenas algumas das expressões mais visíveis dos arranjos socioeconômicos da sociabilidade capitalista. E mesmo para a flor viva das pequenas experiências poder um dia desabrochar, somente quando o reino da liberdade enfim substituir o da necessidade.

Talvez não tenha sido esta a intenção de seus criadores, mas Soul consegue dar mostras de como a necessidade de superar o capitalismo é para ontem.

 

 

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