OPINIÃO

“O que temos a dizer sobre a Universidade?”

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Na última sexta-feira, 23/08, aconteceu a colação de grau da turma de Licenciatura em Ciências Sociais UFRN/INCRA/PRONERA, no Centro de Formação do MST, Patativa do Assaré, na cidade de Ceará-Mirim – RN.

Toda colação de grau, é óbvio dizer, é um momento de emoção para formandos, familiares, amigos. No entanto, esta, do curso de Ciências Sociais/PRONERA, teve especial brilho, especial cor, especial sabor.

Primeiro, trata-se de jovens, homens e mulheres do meio rural, advindos dos vários estados da Região Nordeste. Gente filha da pobreza, de trabalhadores rurais sem terra assentados. Gente que, por muito tempo, ficou do lado de fora das estatísticas sobre acesso à educação e, mais ainda, ao ensino superior. Isso, por si, já merece comemoração.

E, se pensarmos que, em tempos de regressão dos direitos sociais, de intolerância e desrespeito aos pobres, de ataques à educação, concretizados inclusive na recente reforma do Ensino Médio, que desobriga o estudo de Sociologia e Filosofia, colocar 44 cientistas sociais no mundo do trabalho, à disposição da sociedade brasileira, é mais que louvável. Mais gente com formação, capaz de ler a dinâmica social, desconstruir pre-noções, construir alternativas de mudanças na sociedade.

Em 2018, o PRONERA – Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária completou 20 anos. Foi criado em 1998, no governo de Fernando Henrique Cardoso, por pressão do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, que, dentre suas pautas, reivindicava o direito de trabalhadores do campo à educação sem terem que se locomover para as capitais. É na própria página do INCRA que se encontra o histórico do programa:

  • Em julho de 1997 foi realizado o I Encontro Nacional das Educadoras e dos Educadores da Reforma Agrária – Enera, resultado de uma parceria entre o Grupo de Trabalho de Apoio à Reforma Agrária da Universidade de Brasília (GT-RA/UnB), o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), representado pelo seu Setor de Educação, além do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), do Fundo das Nações Unidas para a Ciência e Cultura (Unesco) e da CNBB. Os participantes concluíram ser necessária uma articulação entre os trabalhos em desenvolvimento, bem como sua multiplicação, dada a grande demanda dos movimentos sociais por educação no meio rural e a situação deficitária da oferta educacional no campo, agravada pela ausência de uma política pública específica no Plano Nacional de Educação.[1]

Assim, o PRONERA surge como uma política pública que vem de baixo para cima – a partir das demandas dos movimentos sociais do campo que pressionam o governo para efetivá-la.

Com metodologia diferenciada, a Pedagogia da Alternância, os cursos ofertados priorizam o tempo escola e o tempo comunidade, o que requer que as teorias e técnicas apreendidas no espaço acadêmico sejam refletidas e aplicadas na comunidade onde o estudante vive.

Para os desavisados, raivosos, que criminalizam o MST, os indígenas e quilombolas e qualquer política de acesso a direitos dos excluídos, é importante destacar que, em 20 anos, a política pública de Educação do Campo, embora tenha permitido acesso dessa população à educação, não foi suficiente para garantir o acesso de toda população do campo em idade escolar à educação plena. Dados de 2015 apontam que, dos 48,7 milhões de estudantes no Brasil, só 5,8 milhões estão matriculados em escolas do campo. Ainda se está longe de afirmar que o campo está na escola.

Desse modo, se alguém atira farpas contra um curso de formação de seus concidadãos, é porque passou do razoável da sanidade ou se alinha mesmo à desfaçatez e à canalhice.

É por isso que a formatura de 44 licenciados em Ciências Sociais pela UFRN/PRONERA tem que ser comemorada. Em um país que, desde 2016 retrocede a passos largos quanto a investimentos em políticas públicas, especialmente, hoje, em que a educação é tratada não como o pilar de desenvolvimento do país, mas como inimiga do governo federal e seu plantel, estes novos cientistas sociais têm a tarefa árdua de reforçar as fileiras da defesa da Educação e da Educação do Campo como direito e como política pública imprescindível e inegociável.

E foi exatamente assim que, em sua solenidade de formatura, estes formandos selaram seu compromisso. Compromisso este levado a cabo durante 4 anos, pois quantas coordenações comemoram o fato de que, passado o ciclo do curso, consegue-se finalizá-lo com quase a totalidade da turma?

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Na mística inicial da formatura, de forma emocionada e emocionante os estudantes questionaram: “o que temos a dizer sobre a universidade?”

Como educadora, reforço o coro da resposta: “QUE ELA SE TINJA DE POVO”.

Viva a Educação!
Viva a Universidade Pública!
Vivam os povos do campo!
Viva o MST!

 

 

 

 

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